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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

BRINDE À RICOLETA




se a incerteza faz com que se trilhe espinhos
no ouvir que entorta o singular do ser
lamber carinhos em aromas mergulhados
entornam rejeição no ato de empreender

se a nitroglicerina em fios de telefone
polaridades em resmungos sem tesão
foi canto, no entanto, perdeu compaixão
provocam o sentir sem força que se dome

você que se articula em pronta sedução
no abrir e fechar portas, múltipla explosão
ao ser distante é fácil não compor carinhos
em corpos escondidos em certeiro vão?

ah, metida abelha em noturnos vendavais
tentando remover coturnos e metais
bendiga o rumo a decompor os tempos tais
desaparece – é águia – sem dizer dos ais

você, insanas as palavras que profana
e doces as agruras que sem tino emana
fraturam os cristais de vida entrecortadas
e coisas sagradas são sílabas passadas?

ao esconder meu pranto em outro colo, é em vão
a profusão ao contentar-se então que vê
você, inquieto ser - interna mutação
que em jogo afunda no sentir-perder tesão

você, homem distante num moinho andante
de pavio curto é feito pra queimar os dedos
se rotas fiscais parecem com torpedos
são frágeis compassos de um andante aos beijos?

você a rejuntar no dar acabamento
desbravador premente de um amor partido
é tipo cadafalso que resulta em trincas
abandonado escrito que em grito se estica

você foi rendilhado e colorida fita
e descortina um ser que entrega seu poder
entica o sentimentos de quem te medica
em colo de mulher no seu próprio conter

você complica o jeito de cumprir natais
de refazer a vida ao descuidar demais
você, impaciências que reverterão
desastres se não for só sedução?

se autoestima partir de enorme esforço
no preparar o próprio pão ao ser composto
você que veste mal no expor o próprio couro
é noves fora ao desvalorizar o ouro

você, um sedutor que no viver machuca
no misturar de vozes, de peles ao cantar
de gota em gota a respingar entalhes
é escadaria sem degrau nem patamar

você, um louco em marcas do estar sozinho
um laço a recompor amor em qualquer ninho?
melhor rasgar bordô que rastejar sangrando
e destelhar ao vento no canto de Orlando

não quero ser aquela que se estraçalha
se ao estruturar, a vida sempre perde a calma
se ao compor mil páginas se sentir vencida
destemperando ao revelar-se enrijecida

há féretro que aporta de um navio advento?
guerra sem armas que fermenta e é tudo ou nada?
no cais ao desfraldar a caravela ao vento
perder-se-á ao descuidar da alma amada

bandeira brasileira em corpo embalsamado
tem cores do Rio Grande em meio a lambrequins
envolto neste pano, cupins de antepassados
enterrarão a dor, que tanto foi, enfim.

- Marilice Costi - 2009

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

DOS LUGARES AFINS


Marilice Costi


fachada máscara armadilha bordel labirinto
baús mansões adega solário pátios armários
coberturas escondem masmorras?
todo mundo no fundo um porão

corredores escuros sobrado porta janela
pode alçapões para o céu

livre tramela aos amigos
no térreo calor há espera
cálices a guardar vinho
no carinho posta a mesa

mas só casa com outra casa
gerânios com lambrequins
se ge(r)minarem um sótão

daí, que pode o delírio

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

VIGILANTE




o olho da águia
(se) assusta e atrapalha
o posto sentinela
que imprime carga
e pulsa o coração
para desafogar a alma
mas não exprime
aquilo que precisa
a calma

o olho da águia
vê os cumes e não pára
vê a ânsia e reluta
mesmo assim se espraia
não silencia
a voz que amplia
e é portuária

o olho da águia
desce ao lago, procura pérolas
onde estão as ostras lacradas
o bico da águia é gasto
as garras enfraquecidas
tem unhas que se rasgam

o olho da águia
ainda aprende, ainda alisa
as penas compondo asas
e sobe ao infinito
onde a luz do sol é tanta
que ciente de Ícaro
se encolhe e encanta

o olho da águia
só às vezes, dorme.

Marilice Costi

domingo, 26 de maio de 2019

POLARIDADES


Marilice Costi 

Do meu novo livro, tão bipolares as relações...



um risco de romper
no ato do soltar
um risco de sofrer
no ato do amarrar
um risco de chorar
no ato do beijar
um risco de amar
no ato do abraçar

o desamor
um machucar
o conquistar
um dormitar
o acolher
num bem-estar
grudado em si
num esticar de trilho
guardado amor ainda
colado em mim
imprime em letras góticas
de escancarada dor
um viver nós de atilho

cada vez que fujo, chegas mais
e na vez que chego, longe vais