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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018


Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

sábado, 4 de agosto de 2018




Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
...Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


Miguel Torga

sábado, 21 de outubro de 2017

outro dia trarei o Régio...

De Miguel Torga

Pórtico

Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
Do dia ganho.
Não por haver chegado,
Mas ter acrescentado
Um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Um espantalho
Carne de palha rasgada
Tem mais carinho que eu
Pássaros pousam em seu ombro
O vento cochicha ao seu ouvido
Recebe aceno de crianças
Piscadelas belicosas da lua

Um espantalho
Mãos escapando pelas mangas
Não sofre esta angústia grave
A ausência das tuas mãos grandes
Enlaçando as minhas mãos em
Carne, osso, gozo e esperança


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Diário VIII

Coimbra, 18 de Outubro de 1955 — Não chego a saber o que estes reaccionários pretendem de mim. Saem- me ao caminho, agarran- se colam- se, dizem piropos, e quanta mais pressa tenho, mais insistem. Ora como se não trata de qualquer interesse vivo, sincero, profundo, há- de haver uma explicação para o caso. A que vejo afigura!- se- me sinistra: inquisidores que são, os sujeitos devem querer investigar, perscrutar, conhecer a última heresia...



Miguel Torga

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

COMEÇO


Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.
Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.

Miguel Torga

Cântico do Homem, 1950

AGONIA


Quando virás, dia do meu sossego,
Domingo sem as mágoas da semana?
No calendário não, porque me engana
Sempre que lhe confio
Os secretos desejos
Do coração;
Mas na tenção do tempo,
Quando virás,
Hora feliz do grande esquecimento?
Morro, se for preciso...
De tal modo me rói o sofrimento,
Que te compro por tudo, paraíso!

Miguel Torga

Coimbra, 12 de Outubro de 1950.


Diário V

terça-feira, 27 de setembro de 2016

DOURO


Cai o sol nas ramadas.
O sol, esse Van Gogh desumano...
E telas amarelas, calcinadas,
Fremem nos olhos como um desengano.
A cor da vida foi além de mais!
Lume e poeira, sem que o verde possa
Refrescar os craveiros e os tendais
De uma paisagem mais secreta e nossa.
Apenas uma fímbria namorada,
Vermelha e roxa, se desenha ao fundo
O mosto de uma eterna madrugada
Que vem do incêndio refrescar o mundo.
Diário I

Miguel Torga

domingo, 25 de setembro de 2016

S. Martinho de Anta, 22 de Setembro de 1940 — O dia foi em Guiães, a caçar e a vindimar de manhã, e a ler de tarde versos num cemitério que só visto. Se um dia vier a talho de foice, hei-de escrever uma página sobre estas necrópoles transmontanas, de granito, aninhadas no cimo de uma serra, com ar de quem lava as mãos disto da vida e da morte.

Miguel Torga

Diário I

SOLIDÃO CRIADORA


Dorme e sonha a meu lado
Tão alheia de mim
Que me sinto um amante abandonado
Acordá-la?
Gritar?
O poeta é uma angústia que se cala,

A cantar.

Miguel Torga

Diário V

sábado, 13 de agosto de 2016

«Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses...»

(Miguel Torga)
Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.


Miguel Torga, Câmara Ardente, 1962

sábado, 28 de novembro de 2015

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga