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quinta-feira, 30 de março de 2017

amizade não era. não se pensa num amigo todos os dias. e ninguém tem medo de "perder um amigo" - é o único sentimento e o único vínculo sobre os quais temos certeza....
tinha então essas três pistas: pensava nela todos os dias, tinha medo de perdê-la e um vínculo, um sentir sobre os quais não tinha certeza alguma!
ah,,, o sorriso! não podia se esquecer do sorriso... para muitos uma bobagem, um sintoma jamais levado em consideração... para ele, vital. sempre que achava que estava amando ou prestes a amar, abria-se nele o sorriso mais límpido e cristalino, quando pensava ou estava com a criatura. o sorriso que estava em seu rosto, naquele instante exato!
ah... mas podia ser um misto de carências com admiração, o que exacerbado, confunde-se com amor.
e cada vez que o cérebro vinha com um "ah... podia ser isso, ou aquilo..." - o coração sorria calado, e parecia a ele um sorriso muito irônico.
desistiu de pensar... se não era amor, nunca esteve tão enganado na vida. se não era amor, nunca desejou tanto viver uma mentira, um autoengano. se não era amor, teria que inventar uma palavra nova para explicar a sensação de alegria serena, o aconchego que o acometiam quando ela estava próxima ou imaginava os dois juntos.
e sorriu, ele e o coração junto, quando pensou:
"se não é amor, é o "não-amor" com mais cheiro, gosto, jeito, cara de amor que já tive as sementes todas, todas,
plantadas
em mim..."
.

(eduardo ramos)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

No dia que eu me for
não sentirei falta
dos bens que não tive
não lamentarei os lugares
que não conheci
nem as falhas, as perdas,
fracassos,
sequer os amores
não vividos,
terei como
prejuízos
de mim
.
No dia que me for,
chorarei por mim,
por cada pessoa
que não me fiz apto
a amar.
.
Terá sido essa
a lacuna
não preenchida.
.
*****
.

(eduardo ramos)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Acreditei
Acreditei
nas palavras ténues...
acordes colados
no meu corpo,
reacendendo emoções,
insidiosamente
amadurecidas pelos silêncios,
condenados
à solidão dos dias.
Acreditei
num poema
que espreitava
do alto dos telhados,
gestos vedados
eternidade consentida,
amando-te
até (des)falecer
nos braços da madrugada.
Acreditei
que as estrelas
nunca se apagavam!...
...e que um dia
a tua boca atrevida,
verteria
sobre o meu seio,
um verso de ternura.
Acreditei
e não pressenti,
que seria orvalho
nas escarpas sofridas da melancolia!
Ana Andrade
o que esperar de um poema?
achegando-te aos primeiros versos,
não espera nada!
.
quem sabe uma breve distração
aos teus olhos?
um prazer efêmero
como o aroma da flor
no passeio público...
.
ao chegar ao poema,
não espera nada!
.
quem sabe,
um levitar suave,
uma dança,
uma valsa perdida...?
.
não, não espera nada!
.
um dia, versos feiticeiros
te obsidiarão todo, inteiro
e lerás o poema como se o primeiro
e o último
.
e tal encantamento experimentarás,
como um arrebatamento!,
.
que chegarás a pensar:
"como pude viver sem estes versos,
sua beleza única,
esta tão intensa e delicada construção,
que me remete aos mais belos tangos de Piazzolla,
a Rodin, Mozart,
ao que há de mais sagrado,
ao que há de mais humano...?"
.
não, não espera nada...
.
mas um dia,
versos certos,
num tempo exato,
.
calarão tua alma!
.
com um som harmonioso,
murmúrios poéticos
ensurdecedores.....
*******

(eduardo ramos)

domingo, 25 de setembro de 2016

viajante,
já naufraguei em tantas almas,
oceanos turbulentos,
eu e meu barquinho à vela
naqueles mares estranhos
onde sempre me atirava
acreditando nos mapas, nas cartas náuticas do ser.
.
viajante,
já naufraguei em tantos outros,
acreditando que o amor me apontaria
as ilhas,
os portos seguros,
que os ventos seriam a brisa salgada
batendo-me no rosto nu, e
óh!, como foram tantas
as tempestades
.
viajantes,
tantos naufragaram
nesse mar de mim,
aturdidos pelas calmarias, as águas sem vento,
aturdidos pelos furacões, as águas em furor
selvagem,
mares de mim que eu desconhecia,
que dirá os pobres viajantes?
.
e eu aqui, sendo barco e oceano,
desejos de pôr-me ao largo
e receber o viajante
.
conhecer e ser conhecido,
enxergar e ser enxergado,
amar e ser amado,
.
navegar e ser navegado,
.
essa coisa rara, esse mistério,
do ser barco e de ser mar,
.
ah, vida!
.
como navegar
é preciso!
.
******
.
(eduardo ramos)


domingo, 19 de junho de 2016

não me pertencendo,
era meu aquele sorriso
.
não sendo meus,
pertenciam-me aqueles versos
.
eu não era o proprietário daquele sentir
e ainda assim
ele era o meu dono
.
e não eram meus aqueles olhos
embora eu sentisse sobre mim
aquele olhar
.
atire-me a primeira pedra,
quem não amou
e foi amado
.
não o sendo de fato...
.
mas apenas
nas verdades
não ditas!
******

(eduardo ramos)

Entrelinhas...


Um Deus me terá criado!...
um pai me amado,
idem minha mãe,
meus irmãos,
estranhos
e amigos íntimos
.
Me pergunto, perplexo,
se entre eles,
deuses e homens,
íntimos e estranhos,
.
Houve um, sequer...
que percebeu quem de fato eu era,
nas entrelinhas...?
******

(eduardo ramos)

(I) 15-06-2012

sábado, 9 de janeiro de 2016

...das reverências...
.
...chora um ser
humano
o seu amor não havido
.
são lágrimas perplexas as suas!
.
lágrimas definitivas!
.
não há uma gota de indiferença
em suas lágrimas!
.
são lágrimas verdadeiras,
concretas!
.
somente os que sabem
da grandeza inenarrável
da nostalgia
de um amor não vivido
levado pelo rio do tempo,
.
conhecerá dessas lágrimas...
.
e as ouvirá caindo
daquele rosto
tão humano!,
.
com a mais absoluta
reverência!
*****

(eduardo ramos)