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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Os aspectos do Aleph


       


Não preciso dizer tantas palavras.
Meu nome, André de Castro
É mesmo irrisório frente ao infinito.

Mas o símbolo que há no Aleph
É maior que o infinito.
A esperança contínua, quixotesca,
Ainda luta contra a angústia.
Ainda procura o lenço perfumado
Da princesa Alegria.

A esperança, que há no Aleph.

Tudo há no meu Aleph,
Porque tudo há na minha alma,
Porque tudo há na alma de qualquer ser humano.

O Aleph aberto do grito,
O Aleph absurdamente pródigo do amor,
O Aleph autêntico da alegria,
O Aleph invisível que há na Eternidade,
O Aleph da Aeternitas,
O Aleph de in omne aevum.

Cantarei a incomensurabilidade da alma
Apenas entoando o Aleph, que nunca permite fim,
Porque é um início perpétuo,
Um moto-contínuo, eternamente matando a morte....

Uma alegre e angustiante mentira
De uma boca aberta
Que sabe
Que,
Um dia,
Será fechada pela rubra terra.

André De Castro   

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Aspirações no asfalto





Sempre morei em casa, mas meu coração
Sempre foi um guri de apartamento,
Um navio que navegava na varanda da casa,
Um pedaço bovino e inerte num supermercado,
Embora incrivelmente consciente de estar morto.

Sempre fui tão estranho a mim mesmo
Como os advérbios de tempo à linguagem quotidiana.
Sempre fui um sempre que jamais compreendera o amanhã,
O ontem o o hoje, sempre ignorante ao presente.

Sempre fui o sujeito de mãos nos bolsos,
Sempre fui o passante da rua asfaltada,
Sempre fui o que passava, via tudo e não via nada.

Sempre fui o tolo debaixo de um toldo de loja,
Esperando pelo vendedor de guarda-chuvas que nunca veio.

Ah, aspirações no asfalto, molhadas de chuva,
Embaixo de meus pés!

Ah, aspirações que não passam de palavras no coração!
Como me mandastes, fui ao Japão,
Mas deixei meu futuro numa noite úmida, em Shibuya.

Agora, ó minhas aspirações no asfalto, não passais
De folhas de um jornal que ninguém leu,
De estúpidas e ridículas aliterações de um poema na página,
De uma pequena pena que escreve uma tristeza sem lágrimas
Na página.

E não há nem nobreza no solo seco que há escondido em mim,
Pois o asfalto ainda é chuvoso.

Ah, pudera voltar ao quarto de há séculos,
Deitar na cama atemporalmente infantil,
Olhando as estrelas fosforescentes do teto,
Vivenciando os sonhos que me visitavam
Com toda a verdade da infância!

Mas eu, guri de asfalto que sempre morou em casa,
Cresci.

E algo cresceu e ainda cresce aqui dentro,
Algo que transborda mais que o mar,
Que mata mais que tsunamis, que minhas estúpidas
Aspirações de adulto no asfalto
Não conseguem evitar.

Algo que desesperadamente deseja sair, mas não tem como,
Algo furioso como um animal recém enjaulado,
Algo sedado pela incompreensível
Injeção da desilusão.

André De Castro            

 15 de agosto de 2011

O Oráculo de Omnipotens Lector




Se vires não, no coração,
Não te aborreças. O Universo
Ainda é maior que a tua dor.
Como o Universo, sê disperso,
Apenas deixa tuas células
Pairando no ar de nosso século...

E não esperes desespero
Deste leitor, que lê tua voz,
Pois tuas mensagens, nas imagens
De tua arte tão atroz,
Se ajuntarão a outras células
De tantos versos de outros séculos.

Apenas, ri, poeta, ri,
Pois será salva tua arte.
Puseste o Emblema em teu poema
─ Que há de viver em outra parte! ─
Permanecendo em outras células
De um coração... que não tem século.


André de Castro


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Deus ex-lector





Em cada palavra escrita
Existe um corpo passado
Moldado em corpo de tinta
Que espera ser decifrado.
E quem o decifra encontra
O espírito inesperado.

Em cada palavra escrita
Existe uma alma incrustada
O real tornado fábula
De uma princesa passada.
E ao beijar o que nós lemos
─ Como beijamos a amada! ─
Sua vida é ressuscitada.

André De Castro           

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Tua morte não terá espaço


          
Poema para meu pai:



Tua morte não terá espaço
Enquanto existir memória.
Porque o galês está certo:
Os homens mortos da História
Hão de unir-se ao vento, à lua,
Hão de se encontrar, na rua,
Hão de conversar, bem perto,
No eco harmônico de um passo.
Não, ela não terá espaço.

Tua morte não terá espaço
Enquanto existir lembrança.
Há tua foto e o meu momento,
Há o autorama da infância,
Tua mão nos cabelos meus,
Tuas orações a Deus,
Tua voz em questionamento,
Teu violão com cordas de aço.
Não, ela não terá espaço.

Tua morte não terá espaço.
Há teus amigos, teus filhos,
Há tua esposa querida,
Há teus sonhos andarilhos,
Há teu mantra em todo o mundo,
Mesmo jazendo no fundo.
Há tua vida em nossa vida.
Na pobre casa, que é paço.
Pai, ela não terá espaço.


André De Castro 


A dança da chuva





Dançando a dança da chuva no meu quarto,
Sinto, na cara, as gotas que caem do teto.
No palco solitário, danço ao som do free-jazz,
Celebro a liberdade da loucura chapinhando, brincando na água.

Rio-me de meu rio paralisado, sério, no chão, com medo desta chuva.
Minha seriedade, tantas vezes inimiga da verdade poética,
Profetiza meu fracasso nas vozes das piranhas que há no escuro.

Porém, eu, que sou ínfimo na vida e meramente infinito
Na página, rio-me de meu rio e de toda estética ditadura.

Só,

Sorrio com bravura de hippie ante o rifle.

Há candura na dureza de meus versos.
Há ternura na violência de meus versos.
E para eles danço, na umbanda a meu próprio espírito.
Tento psicografar meu passado a meu futuro, com a caneta
Presente, mas a tinta das antigas horas não molha mais a esfera e o papel.

Ah, liberdade de estar louco no quarto, acompanhado dos sorrisos!
Ah, liberdade de estar sem camisa para a mente, sorrindo para um outro eu
Que é espelho, que ri da mesma maneira minha, mesmo diferente ,
Conforme a Física demonstra...

Se pudesse transformar cada sorriso meu em um ser,
Teria uma grata multidão de gatos acariciando minhas pernas.
Seria atemporal e internacionalmente egípcio e nobre;
Feliz como um faraó, mentindo alegremente a mim mesmo,
Sendo Deus de mim mesmo,

E meu asilo seriam as margens do Nilo...

Mas, como não consigo, danço.
Danço no quarto, alagado até o peito com as águas abstratas
De meu desassossego, sonhando com a chuva que,
Finalmente transformada em torrente,
Lavará todo o lodo do leito
Sem afundar a frágil jangada de papel
Que transporta meu eu em palavras.


André De Castro           

domingo, 26 de maio de 2019

Febre e o deslizamento da terra


Ah, a bipolaridade poética de um domingo frio e cinza... poemas de amor e raiva numa tarde só...

Febre e o deslizamento da terra

Cada vez mais tenho febre, cada vez mais a criança no meu peito
Incendeia-se.
Acho que tenho mesmo uma fornalha no meu peito.
Hoje tenho febre de novo, e o passado volta quente
Como a toalha de um barbeiro ensandecido.
O lençol da cama, branco e encharcado como uma mortalha
De soldado, o suor virado sangue no delírio,
Os lírios todos colhidos e jogados
Para fora do espírito.

Estou com febre.
Dêem-me um termômetro, por favor.

A febre... A febre... a lebre...

O deslizamento da terra cai morro abaixo, do cérebro aos pés,
Misturando miragens e experiências, sonhos e pesadelos, tudo na mesma
Panela quente que cozinha o corpo por dentro.

As bonecas, videogames, casacos, vestidos, blusas e gravatas,
Utensílios de cozinha, bíblias baratas e caras,
Artigos de umbanda, gritos enlameados, coitos afogados,
Abraços não terminados e abraços terminados, telefones celulares,
CDs e discos de vinil, esperanças de uma favela mais bonita,
Avisos da Defesa Civil, sorrisos de escárnio e santinhos de vereadores,
A voz abafada dos pastores, que também morreram soterrados e afogados,
Tudo nesta maldita lama que mais parece o excremento de um sadismo geológico.

A lebre ─ a lebre! ─ salta para os olhos com um buraco escorrendo vida vermelha e quente pela grama,
O cão latindo e a perseguindo com o instinto nos dentes,
O cão, o fiel e imbecil amigo da estupidez chamada homem,
O gato que afia as unhas no poste perto da minha janela
Anunciando a música dos bebês do inferno...

Por que minha casa ainda permanece de pé?
Por que só as rachaduras gigantescas na parede vermelha do fundo?
Por que só as horrendas cicatrizes no coração da parede?

Não há bombeiros para apagar o fogo do peito?
Não. Não há. E mesmo que houvesse, todos os telefones foram
Depredados por cadáveres, pela terra e pelas pedras que não pensam.

E logo virão os ratos e os cachorros retornando aos lobos do passado,
Logo virão os homens e as mulheres insensíveis, tornados monstros
Pelos ratos e cachorros em suas fomes, raiva e falta de compaixão,
Logo virão os saques dos corações, das casas e dos caminhões de doação,
Logo virão os novos deslizamentos e os novos horrores,
Logo virão os corpos sussurando silêncios,
Logo virão às carícias desesperadas das mães,
Logo virão as imagens absurdamente tangíveis e que ensinam lágrimas aos pais,
Logo virão os agradecimentos estúpidos ao deus que salvou apenas um menino,
Logo virá a lebre ferida e ensangüentada,
Logo virá a febre
Ainda mais forte.

Por favor, dêem-me um termômetro,
Dêem-me um termômetro
Que eu quero furar meus olhos.

               
André De Castro

ISTO É UM SONETO DE AMOR:


      


Simples soneto de amor

Falar de amor, amor, é proibido
Principalmente num soneto, amor
Principalmente se rimar com dor...
Seria tal soneto descabido!

É preciso esquecer o envelhecido
É preciso esquecer o sol se pôr
É preciso esquecer a bela flor
E não querer nenhum velho sentido...

Porque falar do amor do mesmo jeito
Usando sempre o céu, a lua, a estrela
Sonhando a eternidade, amor, em tê-la

Seria ultraje, amor, seria ofensa
Assim, amor, só digo esta sentença:
O seu amor, eu simplesmente aceito...

André De Castro 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Diálogo monológico comum louco

        

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há trinta anos em mim,
Roubada de algum infindável e inefável
Verso escuro do Universo,
Está seca, no fundo da vasilha.

Porém, ambas são infinitas,
Como o âmbar das baleias
Para os economistas japoneses...

Minhas lágrimas são de mitos solidamente reais
E de realidades imaginadas
Por redes neuronais americanas
Alimentadas por solidário sarcasmo coreano.

Meus pesadelos têm capa de sonho.
Por isso, nem eu mesmo me digno a pesquisar
Essas páginas amareladas
Que compõem meus pensamentos,
Meus pobres pensamentos
Que agora são comida
Das Traças dos Sentidos...

O tratamento futuro emudece e se amorna,
Enquanto o horror toma a incrível forma
De um câncer cordial de lorde inglês.
E é por isso que, agora, emociono-me até ao ver
O Jornal Nacional
E ando a achar sentidos até na mais sensata estupidez,
Como quem ri da piada da televisão,
Enquanto a função mute está ativada
E os olhos virados para o vaso em cima da mesa...

Minha loucura tira nota dez no colégio.
Sequei.

Sei como conduzir a vida,
Mas não tenho carro.
Esqueci a direção,
Não tenho direção para apoiar
As emoções e as mãos
E meus pés continuam teimando em pisar
O escarro e o barro
De estradas esquecidas por asfaltos.

Prefeitos e respeitos com ares rarefeitos
Continuam vindo do alto.
Porém, aqui em baixo,
Na Idade Média da minha Viamão,
Meu mundo ainda continua desfeito,
Sempre vivendo o mesmo fim...

E o mal estar prega-me peças no crânio
Com pregos de 18 polegadas!

Também concordo contigo, meu amigo:
Se pudesse conscientemente confundir o joio com o trigo
E endoidecesse deveras...
Seria só mais um ninguém que é só mais um alguém
Dentro de um quarto,
Ocupando um lugar e um momento
No espaço e no tempo,
Embora esteja em outro momento e em outro lugar
Misteriosamente fora do tempo e do espaço,
Jogando Texas hold’em com as divindades...

Mas não: eu também moro no apartamento do Entre,
Nos espaços que formam os espaços
E vivo a vida naquele momento metafísico
Entre as passagens dos segundos.

Somos dois internados em manicômios sem manicômios
Mas tu, pelo menos, tinha tu em heterônimos...
Enquanto eu, eu só tenho sociedades anônimas
No meu cérebro...
E como queria que fosses nosso acionista majoritário!

Não preciso de geladeira para meu sorvete cerebral,
Resolvo equações matemáticas na praça da cidade,
Não reconheço mais a música da moda,
Mas visto as mesmas calças jeans que os outros.

Também durmo e sonho desperto
E minha loucura também é feita
De paradoxos semânticos.

Mas não invoco a pena da velha casa
Nem da infância.
Pois ela ainda está aqui, cercando-me,
E eu já era louco, ainda que não soubesse.

Mesmo que tivesse tido religião ─ como de fato tive! ─ ,
Não teria tido realmente religião,
Porque o pensamento puro não tem nada,
Não sabe nem mesmo sua própria biologia.

Por isso que nenhum manipanso conseguiria
Ajudar-me: nem Jesus, nem Zeus,
Nem Amaterasu Oomikâmi,
Nem a humanidade, nem aquele estranho mito
Daquele deus antromomórfico vindo de África...
Não vejo mais nenhuma divindade nem naquilo em que sê crê...!

Mas o tudo ainda é, sim, o que pensamos de tudo
E é por isso que eu sempre repinto, todos os dias,
Meu coração de vidro, que nem o teu e o do Sérgio Sampaio!

André de Castro

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Dialogando com o Octávio Santana:



O que sou

Sou paredões de pedra abraçando ecos
Vozes pronunciadas no passado
E que ainda sobrevivem em meu presente sólido e inconsciente
Sou metáforas rochosas que brincam com ecos alheios
Como um vale brinca com as vozes dos outros

Sou a Paris que é um estado de espírito,
Uma abstração palpável e inconquistável que só se rende à vida

Sou sentidos e formas em estado consonântico e vocálico
Que se entregam à prosódia do sentir,
Ao ritmo sonhador que engorda Tesouros Secretos

Sou a sombra que se agarra em tudo o que ouve e compreende,
Sou o que os surpreende sempre que posso e sempre que me deixam,
Como Puck surpreende ─ quando pode ─ a platéia grega universalmente feliz

Sou a ponte de braços sobre o Sena que os toca com a volúpia
De um condenado à Sibéria

Sou a grandeza de ser tantos seres ao mesmo tempo na mente

Sou o que quer lírios, o que quer rosas, por dentro e por fora
Sou o inatingível que também ecoava Whitman e era o Paradoxo
Sou a enxada e a roda dentada todas juntas num armazém
Sou a Argentina num labirinto
O Japão dentro de um tanka
A Inglaterra que se desterra para fazer versos na Itália
Sou a saudade no vento do oeste!

Sou um filme de faroeste aos olhos de um menino
Sou a fortuna do campo trovejante
O portador da alegria ao bar do Simpson
A voz do papagaio de Stevenson
A aventura, o mistério, a alegria que visita a hospedaria

Eu sou a continuação dos canhões
O ruído da grama que cresce na Rússia
O amor entre a guerra e Otavio Paz
A pureza e o pecado, a nobreza e a mesquinhez
A conciliação, a paixão
A mão de Jean Valjean roubando pão

Sou o som do machado de Raskolnikov
Sou a autocomiseração de Marmieladov,
As lágrimas de Sonietchka
A amizade de Razumikim

Sou a vingança de Dantés
A espada heróica de um escocês
As vicissitudes de um quadro
As virtudes de Rousseau em Kurosawa

Sou essa ânsia sinestésica que escuta as palavras com os olhos
Que sorve as palavras com o ouvido
E digere, no coração, palavras

Palavras que não são minhas
Porque já pertencentes, agora, à Humanidade

Sou esse eco de vontade infinita chamada poema
E, penetrando cada sentido e percorrendo cada estrada do espírito
Meu leitor querido e minha leitora querida
Como o mais belo parasita do mundo, em troca da vida que me presenteiam
Ensino-os ─ sempre no presente ─
A saborear, na língua, todo o significado e toda a grandeza do que sou em vocês

Para sempre, até que me esqueçam.

André de Castro




terça-feira, 31 de outubro de 2017

A ampulheta de cinzas



Teu estômago, teu pâncreas, teu baço,
Teus ossos, teu esôfago, teus rins,
Teus pulmões, teus intestinos, teu cérebro,
...Teu coração, teu diafragma, tua genitália,

Teus cabelos que acariciavam mãos,
Tua pele e os abalos sísmicos de teu ser,
Teus olhos que assistiam pessoas,
Tuas mãos que mudaram parcamente o mundo,
Tuas palavras, que me ensinaram todo o peso da bondade.

Tudo isso, agora, é tua ausência que escorre em meu presente.

Tuas cinzas, que escorrem de meus dedos, agora,
Peregrinam por entre tuas queridas plantas, como sonhaste.
Serão o adubo de tua sagrada e verdadeira terra santa.

Mas eu, egoísta, guardarei um pouco de tuas cinzas,
Guardarei um punhado de ti, transubstanciado às avessas.

Mandarei construir uma ampulheta.

Colocarei tua essência sólida lá dentro, no lugar da areia.
E em teu movimento calmo, cinza, sério,
Compreenderei, finalmente, o mistério
Que consagra cada momento da finita passagem das horas.

Serás meu relógio morto que mede a vida,
A metáfora mais bela da sensata e necessária fluidez,
O mais grandioso símbolo de toda humana e transitória pequenez.

André de Castro


domingo, 3 de setembro de 2017

Aspirações no asfalto

             


Sempre morei em casa, mas meu coração
Sempre foi um guri de apartamento,
Um navio que navegava na varanda da casa,
Um pedaço bovino e inerte num supermercado,
Embora incrivelmente consciente de estar morto.

Sempre fui tão estranho a mim mesmo
Como os advérbios de tempo à linguagem quotidiana.
Sempre fui um sempre que jamais compreendera o amanhã,
O ontem o o hoje, sempre ignorante ao presente.

Sempre fui o sujeito de mãos nos bolsos,
Sempre fui o passante da rua asfaltada,
Sempre fui o que passava, via tudo e não via nada.

Sempre fui o tolo debaixo de um toldo de loja,
Esperando pelo vendedor de guarda-chuvas que nunca veio.

Ah, aspirações no asfalto, molhadas de chuva,
Embaixo de meus pés!

Ah, aspirações que não passam de palavras no coração!
Como me mandastes, fui ao Japão,
Mas deixei meu futuro numa noite úmida, em Shibuya.

Agora, ó minhas aspirações no asfalto, não passais
De folhas de um jornal que ninguém leu,
De estúpidas e ridículas aliterações de um poema na página,
De uma pequena pena que escreve uma tristeza sem lágrimas
Na página.

E não há nem nobreza no solo seco que há escondido em mim,
Pois o asfalto ainda é chuvoso.

Ah, pudera voltar ao quarto de há séculos,
Deitar na cama atemporalmente infantil,
Olhando as estrelas fosforescentes do teto,
Vivenciando os sonhos que me visitavam
Com toda a verdade da infância!

Mas eu, guri de asfalto que sempre morou em casa,
Cresci.

E algo cresceu e ainda cresce aqui dentro,
Algo que transborda mais que o mar,
Que mata mais que tsunamis, que minhas estúpidas
Aspirações de adulto no asfalto
Não conseguem evitar.

Algo que desesperadamente deseja sair, mas não tem como,
Algo furioso como um animal recém enjaulado,
Algo sedado pela incompreensível
Injeção da desilusão.

André De Castro 


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Tankas de Tóquio para Twitter

         
  
O terno do pai

Aquele casaco
Aquela passada calça
Formam este eterno

Terno da fotografia
Que jamais desbotará

André De Castro