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quinta-feira, 25 de junho de 2020

AREIA



Da estátua de areia,
nada restará,
depois da maré cheia.

Helena Kolody

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Idade




A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.

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Helena Kolody
               

Pânico




Não há mais lugar no mundo.

Não há mais lugar.



Aranhas do medo

fiam ciladas no escuro



Nos longes, pesam tormentas.

Rolam soturnos ribombos.



Súbito,

precipita-se nos desfiladeiros

a vida em pânico.

Helena Kolody


Antes

Antes que desça a noite,

imprimir na retina

os rostos amados,

o sol

as cores,

o céu de outono

e os jardins da primavera.



Inundar de sons

de vozes

e de música eterna

os ouvidos

antes que os atinja

a maré do silêncio.



Conquistar

os pontos culminantes

da vida,

antes que se esgote

o prazo de permanência

em seu território sagrado.



Helena Kolody

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Grafite




Meu nome,

desenho a giz

no muro de tempo.



Choveu,

sumiu.


Helena Kolody


Sem aviso

Sem aviso,

o vento vira



uma página da vida

Helena Kolody



Tempo

Cai a areia da vida

Na ampulheta da morte.


Helena Kolody

sábado, 28 de outubro de 2017

Sorte

Todo mundo aposta
no jogo incerto da vida
pouca gente acerta

Helena Kolody

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Benedicite



Pelos sonhos da alvorada
e as nuvens do entardecer,
pela barreira de espinhos,
pelo esplendor das colheitas,
bendita a graça de ser.

Bendita pelo trabalho
que balizou a escalada
de almejadas culminâncias,
embora não atingidas.

Pelo aguilhão do sofrer
que ensinou a olhar em torno
e despojou do supérfluo
o denso núcleo essencial.

Pelas ilhas interiores,
onde o pensar se estirava
à sombra de hora desertas.

O escuro timbre de ausência
de austeros dias de luto.

Os momentos tilitantes

clara guirlanda de risos
do convívio mais amigo.

Por tudo aquilo que foi
e o que podia ter sido,
bendita a graça de ser.

Helena Kolody




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Araucária,
Nasci forte e altiva,
Solitária.
Ascendo em linha reta
Uma coluna verde-escura
No verde cambiante da campina.
Estendo braços hirtos e serenos.
Não há na minha fronde
Nem veludos quentes de folhas,
Nem risos vermelhos de flores,
Nem vinhos estonteantes de perfumes.
Só há o odor agreste da resina
E o sabor primitivo dos frutos.
Espalmo a taça verde no infinito.
Embalo o sono dos ninhos
Ocultos em meus espinhos,
Na silente nudez do meu isolamento.


(Helena Kolody)

sábado, 16 de agosto de 2014

Abismal


Meus olhos estão olhando
De muito longe, de muito longe,
Das infinitas distâncias
Dos abismos interiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
Para você que está diante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.

Helena Kolody

domingo, 17 de novembro de 2013

Gestação

Do longo sono secreto
na entranha escura da terra,
o carbono acorda diamante.

Helena Kolody

domingo, 13 de outubro de 2013

INFÂNCIA



Aquelas tardes de Três Barras,
Plenas de sol e de cigarras!
Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.
A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...
O cão travesso, de nome eslavo,
Era um amigo, quase um escravo.
Merenda agreste:
Leite crioulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
“Mais bom dia, Vossa Senhoria”...
“Bom barqueiro! Bom barqueiro...”
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.
Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!
No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras.
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...
Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras!


(Helena Kolody, in A Sombra no Rio, 1951)

sábado, 12 de outubro de 2013

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.

Helena Kolody

sábado, 24 de novembro de 2012

Saga

No fluir secreto da vida,
atravessei os milênios.

Vim dos vikings navegantes,
cujas naus aventureiras
traçaram rotas nos mapas.
Ousados conquistadores
fundaram Kiev antiga,
plantando um marco na história
de maus ancestrais.

Vim da Ucrânia valorosa
que foi Rus e foi Rutênia.
Povo indomável, não cala
a sua voz sem algemas.

Vim das levas de imigrantes
que truxeram na equipagem
a coragem e a esperança.

Em sua luta sofrida,
correu no rosto cansado,
com o suor do trabalho,
o quieto pranto saudoso.

Vim de meu berço selvagem,
lar singelo à beira d'água,
no sertão paranaense.
Milhares de passarinhos
me acordavam nas primeiras
madrugadas da existência.

Feliz menina descalça,
vim das cantigas de roda,
dos jogos de amarelinha,
do tempo do "era uma vez..."

POr fim ancorei para sempre
em teu coração planaltino,
Curitiba meu amor !

Helena Kolody

(Sinfonia da Vida )

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dor

Tua dor é como um incêndio de inverno
Na floresta:
O fogo tisna o trnco dos carvalhos,
Consome as frondes dos pinheiros,
Crepita nas ervas mesquinhas
E morre.
Uma procissão de troncos mutilados
Quesa pela campina.
Tens  , por isso a lembrança povoada de
 espectros.

Ateaste o fogo do sofrimento
Em minha alma impetuosa:
As chamas subiram até o céu
E lamberam as nuvens
Com línguas gigantescas;
A floresta se estorceu,
Gemeu
E estalou
No paroxismo;
Os pinheiros arderam como tochas.

Helena Kolody.

(Viagem no Espelho, p231)


Exilados

Ensimesmados,
olham a vida
como exilados
fitando o mar.

Não estão no mundo
como quem o hábita.
Estão de visita
num planeta estranho.

Helena Kolody

(Viagem no Espelho, p 59 )

domingo, 14 de outubro de 2012


Linguagem cifrada,
Guarda o código genético
Os signos da vida.

A vida conjuga os seres
E transmite sua mensagem.

Helena Kolody

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.   

 Helena Kolody   
(Poesia Mínima, 1986)

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.

Helena Kolody  
 
(Paisagem Interior, 1941)