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sábado, 10 de fevereiro de 2018

COMPROMISSO



a Bandeira Tribuzi, 91 anos

Luis Augusto Cassas

Tenho um encontro marcado
às seis horas da tarde
na avenida Beira-Mar
E não posso faltar

Não é para salvar o mundo
combater a solidão
que fui convocado

nem para esperar algum barco
salvar um amigo em naufrágio
que fui convidado

O motivo do compromisso
não digo a vocês — é secreto —
garanto não é político
juro não é romântico
aposto seja econômico

Sei apenas que às seis horas da tarde
tenho um encontro marcado
na avenida Beira-Mar
E não posso faltar

2
Fosse convidado a presidir
uma reunião da ONU
sobre direitos humanos
não compareceria

Fosse passear no bosque
com a Branca de Neve
me atrasaria

Fosse o que fosse
decolar pra Bangkok
fugir pra Bahia
casar com Teresa
transar com a Maria
passar férias em Marte
depor a favor da arte
tocar fogo na Academia
Hoje eu não iria

Porque não posso faltar
a um encontro marcado
às seis horas da tarde
na avenida Beira-Mar

3
Que eu não posso faltar
diz minha moral burguesa:
eu não posso faltar
diz o código de honra
eu não posso faltar
diz o relógio de pulso
eu não posso faltar
eu não posso faltar
eu não posso faltar

desejo de saber o porquê
dos horizontes imperscrutáveis
dos vínculos indissolúveis
das mulheres insaciáveis
dos cumes inatingíveis
das ideias irreconciliáveis
dos poderes irrevogáveis
e depois de tudo perguntar:
por que não posso faltar?

Vontade de tomar o trem da Refesa
o primeiro que sair da estação ferroviária
e partir rumo ao ar puro de Perizes
saber como vão as garças
as marrecas as seriemas
(— bom dia, senhoritas!)
e depois seguir até o final da linha
só para poder faltar
a esse compromisso

4

Vontade de seguir no barco
que segue para Alcântara
Vontade de caçar jaçanãs
em São Bento

Vontade de seguir
o primeiro impulso:
cortar os pulsos
deixar o sangue jorrar
só pra conhecer o fator rh

E por imposição testamentária do morto
meu corpo cheirando a perfume francês
a rosas vermelhas e lágrimas de saudade
seguiria triunfalmente
(os olhos abertos)
pelas ruas da cidade

Na programação
uma modificação:

o trajeto do enterro vai se desviar

E pontualmente
às seis horas da tarde

britanicamente
às seis horas da tarde

o morto passaria na avenida Beira-Mar

Não para desmarcar o encontro
não para se justificar

Apenas senhores

para ver o mar

sábado, 18 de janeiro de 2014

A CAMA



Paradoxal é o gozo
na morte e no amor
Liberta de suas túnicas
a carne não comporta
cerimoniais de mão única


O que podia ser Carrara
ou folha morena de volúpia
são alvas pradarias iluminadas
que o desejo bordou
em guerras púnicas


Sob quatro patas
o amor é um polvo de mil pernas
em que a espada cravou sua estocada
staccato
ou gran finale


Mulher de bruços
ferida em soluços
parece absorta?
mas é amor


Observa a morte nas rinhas
cabeças coroadas de beleza
guerreiros só alcançam a realeza
quando as facas explodem as bainhas


O que queres minha rainha
em teu jeito fruta e flor:
um amor de morte
ou morte de amor?


Derrama as tuas pétalas
em meu corpo de poeta
Entre eras e ervas
— a eternidade nos espera —
alimentemos as feras


eis a minha assinatura:
fogo que perdura
amor que cura


Sou o teu mensageiro
o que vem libertar o teu prazer da culpa
e inaugurar mil anos de volúpia
com a pureza de todos os janeiros


Num dia de domingo
estaremos tardos e findos
Até lá ensolarados
cavalguemos lindos



Luis Augusto Cassas

A Poesia Sou Eu
Poesia Reunida
Vols. 1 e 2
Imago Editora

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