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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

PEQUENO CONFESSIONÁRIO ADMIRATÓRIO


Eu escrevo sobre mulheres, pois acho lindo imaginá-las majestosas e donas de seus corpos, caminhando em direção a um pôr do sol, sumindo no horizonte dos sonhos.
Acho gentil a poética de seus ventres quando as trompas de transformam em galhos cheios de flores. Existe tanta beleza na anatomia das ancas arredondadas, uma arquitetura sutil dos desníveis.
Admiro a deformação de seus rostos quando sentem; me encanta a euforia de suas vozes e o silêncio de suas dores. São seres que não passam incólumes pela cerca viva e espinhosa da grade de suas próprias costelas.
São jeitos de quem aprendeu sobre os contornos da existência, que enfrentou os desvios necessários das lâminas, que sobreviveu aos abismos diários das pequenas mortes.
Eu escrevo sobre mulheres para descobrir os segredos do mundo.

Samantha Abreu

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Faz Sol

Logo agora que a chuva parou, que voltamos a ter vinis na estante. Agora, bem agora que não queremos mais ter tudo, pois estamos de folga, que não precisamos calçar sapatos, que a lua de mel mora no sofá de veludo. Bem agora.
Estava chovendo antes de ser hoje. Antes de ser este cabelo ruivo secando com o vento, antes de ser vida acontecendo a partir das dez da amanhã. Mas dormir é sonho que também é noite. Bem agora que dormir é sonho, eu escuto esses gritos lá fora e corro pra ver a morte, o ardor, a bomba. Bem agora, bombas. Explosões que não são coloridas e a gente querendo um banho morno seguido de pijama, cama pra dois, nossa comida. Bem agora que acabou a comida, que o sapato aperta, que a gente desaprendeu a dançar, já não temos cabelos nem sono nem os sonhos.

O que é que a gente vai fazer quando a guerra acabar?

Samantha Abreu

domingo, 2 de junho de 2013

Samantha Abreu

é muita roupa pra pouca ocasião. é muito batom pra pouco beiço. é muito encontro pra pouco espaço. é muita risada pra pouco vinho. é muita história pra poucas horas. é muito amigo pra pouco fim de semana. é muita piada pra pouca memória. é muita delícia pra pouco juízo. é muita saudade pra pouca distância. é muita nostalgia pra pouca idade. é muita paixão pra pouco rímel. é muito amor pra pouca boca. é muita vontade pra pouca mão. é muito porre pra pouco engov, é muita ânsia pra pouca privada. é muito sono pra pouca noite. é muito sempre pra sempre pouco.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

De Cores e Flores

São de raízes que transbordam de um espaço ao outro, tramadas.


Como se fosse flor, como se fosse dor.

Do pé à planta, cores que coram segredos.



Como são as flores da sua rua?

E como se o tempo fosse inércia, as flores se abrem em direção ao sol, em direção à lua e à todos os astros.

São flores de todas as suas cores – ele sussurra.



Caminhar por essas ruas é pisar em orvalho, o suor do êxtase.

Primavera: explosão

assim como um sonho seu em cada tom da paleta.



Samantha Abreu
http://www.samanthaabreu.blogspot.com/

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Devaneio Vicioso

Mais alguns segundos


pra que eu possa terminar este cigarro

e aspirar

no trago

a sensação violenta

de ser invadida por ti.



Eu me completo do teu

tóxico jeito

de amar.

Um curto grau

de devaneio vicioso.



A ponta eu guardo

para posteriores abstinências.





Samantha Abreu
http://www.samanthaabreu.blogspot.com/

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Pequenas Mortes

De tudo o que me resta e que não seja
amor,
seja
o portão de partida
despedida,
de pequenas causas diárias.
Eu sangro momentos,
derreto venenos
e morro nos cotidianos fins.
Ainda prefiro
a mortalha
envolvendo
afazeres não entranhados.
Quero a devastação
irreversível
de qualquer pequena vida
vã.


Samantha Abreu

Haute Intimitè: http://samanthaabreu.blogspot.com/
Mulheres sob Descontrole: http://mulheressobdescontrole.blogspot.com/
Versos de Falópio: http://versosdefalopio.blogspot.com/

domingo, 17 de janeiro de 2010

(In)crível

Essa estranha beleza
em racionalizar.
Ser dolorido,
mas ser
verdadeiramente.
Tocar tua carne nua,
e saber-te
onde, saber-te
quando.

Não me parece mais encantado
nosso mundo.
Não tenho mais aquelas
fantasias.

Talvez, a realidade não seja assim
tão boa
para amores insólitos.

Samantha Abreu

Blog Haute Intimitè
http://www.samanthaabreu.blogspot.com

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Amputação dos Dias

Eu tento o assomo quando te olho daqui. Tento sair. Tenho comigo a ira, o desejo e o ardor da carne, mas os carrego suprimidos sob a pele do cordeiro. É tão dolorida essa amputação. A criança sente a ferida do tombo, mas não desiste de cair. Pois eu já deixei de me travestir desse atrevimento desmedido. As quedas, hoje, me doem demais.
Alcancei a segurança dos pés descalços, das roupas discretas e da aparência sensata. Alcancei o sossego do conformismo e do isolamento. Não sei mais onde começa o abismo dos meus pensamentos.
Sinto a anulação de mim.
E a impossibilidade é uma perene navalha em meu pulso.


Samantha Abreu