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sexta-feira, 18 de outubro de 2019


       
só
lhe
dão
sol
e
dão
so-
li-
dão


Ari Marinho Bueno 

terça-feira, 9 de julho de 2019

Depois da Cidade




Agora que procuras o verso ideal, que inicie o novo poema
E encerre um primeiro, agora que é maior o malogro.
E tu bem sabes o tamanho disto, a distância entre o que acham e o que corriges.

Menores assim as premissas que te cabem.
O teu verso parco, o teu desgosto, o teu sorriso inócuo (inócuo porque és incipiente),
O teu abraço desajeitado, a tua eterna obra em aberto.
É depois da cidade que os suspiros se ajustam.
É depois da cidade, esta que nunca foi tua, onde não existem mais motivos.

O coração não foi nunca mais aquele pedaço esquecido do acaso,
E o escopo largo dos sorrisos escamoteia a nuvem negra sobre a cidade
Enquanto as portas se fecham a toda prova

E os guizos nos pescoços das crianças gemem como elos achados de uma fantasmagoria.

Por conta do que vai escrito não houve mais recusa sob hipótese nenhuma.
O trem suburbano viajando na madrugada para mais um dia de trabalhos forçados,
E o dinheiro estará lá, contado, e o infeliz também estará lá , com certeza.

O coração bate compassado como numa marcha.
Existem aqui cadafalsos em cada pendência.
Cada passagem e sua impossível sentinela esquálida parafraseando a metamorfose dos fracos a deitar a vista
Sobre os cumes elevadíssimos da competência – ai! competência à paga de tanta fuleiragem:
O morto futuro antevê o seu defunto.

Se toda a palavra fosse uma alegria, uma consonantal alegria impronunciável (?),
E aqui nada haveria como vai; amanhã é sábado, não levar consigo os escrutínios.

Às vezes é tudo o que se avista daqui: grandes pensamentos terminam em ócio,
Embora o miocárdio seja insistente na sua jornada finita.
O sangue reticente foi o alvo que agora a seta difusa não quererá mais atingir,
Seu modelo principal foi o pecado, a multa que a parafernália dos íntimos não observa.

Aqui estarias saturado de incompetência e desespero,
E sabemos que ninguém advogará em sua causa, coadjuvante que és na esfera do lindo.

               
Ari Marinho Bueno


sábado, 29 de junho de 2019

Governo da antimatéria



Em 1312 eram poucos
os dias de sol
embora o sol não fosse
pouco a ser lembrado;

em 1312 ou trevas
(ou ir-se ao estar-se
onde) era o verão,
o seu dedo em riste

que alertava o coração
sobre a leveza
do dia, do diáfano,
sobre a leveza

do indestrutível,
sempre reportado -
o indestrutível - sempre,
pelas coisinhas no ar.

Reportado o perene
quando um herói
(não de gesta, um nosso)
sonhou dentro dali

o mero de seu sonho,
o fatal cansar-se vendo
e ser visto,
e quanto foi encarado

logo o mendigo
(outro herói?) percebendo
do logro o lusco
o fusco do dia.

(Também este, ó
irreversível o troço
suportando, ó suporte
pela força do hábito;

e era a rosa
o suportado, e era
o hábito o contato
também este,

mesmo renegado
o conceito,
os conceitos, fímbrias,
tosca fímbria

o estético:
não ultrapassando
do sono o pouco -
isso aqui ó

do ridículo, o
ordinário híbrido
também este,
tosco exercício.)

Que havendo
o projeto, o real
e seu quê de
real e de fantástico,

fosse tecnica-
mente detalhe,
um saber da energia
que o destino desse

àquele justo, avesso
que era ao luxo
até o exagero -
sem sobressalto

o nosso herói:
benfeitor dos ratos
nos dias de sol –
nos dias sinistros!,

e tagarelando seja
ainda e tartamudeando
não faça mal -
se um demais houver

do destino, sobre o estado
impraticável
intolerável
das coisas havidas

que deveriam cansá-lo,
usá-lo (ao nosso herói)
que deveriam, que deveria
usar - coisas usadas.

E era devido ao uso
contínuo, irreversível
sob o lusco
o fusco do logro.

Ó jeito antigo -
muito antigo o verão
(1312 ou trevas) -
de saber-se visto

apesar de nosso
o herói; apesar
de procurando a sombra,
a intensa procura

do sereno despertar,
dos lugares frescos
onde o detalhe
- onde o destino.


Ari Marinho Bueno         




sábado
14.05.2005

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A moça da vitrine



A moça que monta a vitrine
Não é como a cesta de vime
Que aguarda alguém a compre
Ninguém à moça corrompe

A moça que ajeita a vitrine
Têm pouco mais de vinte
Gosta de ir e de voltar
Na mansão do mundo estar

A mãe disse “vá com Deus”
O pai nunca se arrependeu
Da boa filha trabalhadora
Menina dos olhos da patroa

O amor lavou-lhe a alma
Mantém a fronte sempre alta
Pois do primeiro não esquece
Enquanto o trabalho enobrece


Ari Marinho Bueno        

11 de agosto de 2011

Pequeno tratado escatológico sobre a negação





Um arroto é um poema. Dos mais sonoros.

Um soco é um poema. Na cara.
Merda de pardal no ombro: outro poema.

Qualquer hipérbole, dinheiro de tráfico, vossa fome de sexo.
Nos diz respeito a lírica diversa.

(Isso não é um poema).

16.07.2006


Ari Marinho Bueno         

11 de agosto de 2011 



isto


         

isto

nem parece ser

isto

ou aquilo que pudesse parecer

o cone o nome o vício o início

isto

não é um piano

nem uma cidade

isto

talvez malquisto

não é uma xícara não é a pedra do drummond não é nem

isto não se faz não desse jeito também não

(faz de novo?

fazer o quê?!)

ISTO

Ari Marinho Bueno       

 11 de agosto de 2011

sábado, 13 de abril de 2019

Casamento





À porta da igreja
o mendigo da rua
o casal de monstros
seu sorriso salvo

Com reflexo os vidros
realçam o céu
onde cruza avião
rumo à capital

Próxima dali
moral sem dentes
chega ao orgasmo
cabalisticamente

O mendigo pára
de olhar outros
que se dão conta
não ser meio-dia



Ari Marinho Bueno      

 25 de agosto de 2011

sábado, 2 de março de 2019


bem feito emblema no todo
poeta é achar-se
poema em curso
enquanto átimo e, ou esquemático
dilema de qualquer poema ser poeta em tudo
ótimo
quiçá a própria ótica em si problema

               
Ari Marinho Bueno

É preciso falar alguma coisa


Ari Marinho Bueno        4 de setembro de 2011 


“O maior de todos os mutismos não é o de calar, mas sim o de falar”.
Kierkegaard

Eu odeio Carapicuíba.
Aqui tudo é sujo, as pessoas têm os sorrisos amarelos,
O novo nunca mascara o velho.
Cada quarteirão esconde o seu morto,
As pessoas tão cansadas disso, cada esquina têm uma sorte danada pra ser
notícia de jornal de condomínio.
Jamais se consegue sair de casa para onde quer que seja
Sem torcer o nariz: o Tietê faz a sua companhia.
Nada é tão grande aqui que não seja menor que a ignorância das pessoas.
Elas têm medo até da sombra, de um sorriso alheio, de uma carranca alheia,
De serem confundidas com as vítimas da polícia, da política.
É que as tragédias são maiores em Carapicuíba,
Nós sabemos de cada ratoeira escondida, mas falta coragem.

Eu odeio Carapicuíba.
Esta madeira podre parece um sacrifício inútil,
Tão ruim o lugar que eu deixei?
Aqui as cabeças estão sempre baixas, não há amor que possa erguê-las.
Esse sentimento de ódio é um parceiro suave, às vezes inseguro,
Que instaura no meio em que vive a impressão de que tudo caminha bem.
Os passos são lentos, a cidade é um canteiro de obras, mas eu insisto.
O novo nunca fará do velho a redenção.
Estão todos perdidos, eu estou perdido, minha mente está condenada
Como cúmplice pelas mortes, uma talvez mais.
As cabeças chatas de tão vazias, sonho que nunca acaba.
Vai para o túmulo junto com os prazeres, pois os dias são assim mesmo.

Eu odeio Carapicuíba.
Tudo aqui é sempre igual.
As vinte e quatro horas abafadas de cada vez, as fachadas sujas e os nomes,
E os preços, e os cálculos, e os calculismos e os pingados e o que tem gosto
de rua e sempre mais e mais é o que precisamos.
É disso que precisamos, recolhermos toda bagagem adquirida.
Os anos são poucos, mas é preciso, é preciso colhermos os dízimos.
A igreja que nos construiu tem um pastor faminto, a fome já foi um pecado.
Conduz-nos a um caminho de tortura e sagração, e nem suspeitamos.
Atravessar a rua é um gozo, tomar o trem é um gozo, todas as putas daqui
gozando juntas.
Todo o agônico à máxima potência insuflado num átimo,
Mil vezes as marcas, mil vezes o tombo e mil vezes vida pra mostrar do que se
é capaz.
Meu ódio tem um gosto sério, de fuligem.

Carapicuíba não é um amor?
Meu amor com este gosto amargo, e às vezes não consigo dormir.
Cansados os olhos, em fogo o estômago, um comprimido, preciso dormir.
É a comida sem digestão, a gula de fazer por onde não ser outro.
Ser intruso num lugar onde todos são estranhos.
Quero atender todos os telefones que tocam agora, ao mesmo tempo.
Se eu pudesse falar a verdade, o táctil das coisas é fugidio, o sono,
Absolutamente certo o ruído vem para dar fim à falsidade.
Amar é uma gíria como qualquer outra das que ouço por aí,
Mas Carapicuíba é testemunha de que não faço por mal, se eu conseguisse
falar a verdade ainda pode ser que desse.
Carapicuíba é uma tese de doutorado, e defendê-la é corrupção.
Amo Carapicuíba como se quisesse falar a verdade.

Carapicuíba,
Outubro de 2007.

Ari Marinho Bueno

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018


        
Um corredor à direita da porta, e que conduzia ao outro lado (seria a um dos lados do real?) - , era onde estava o segundo poeta.
O palco (verde) era para si ir e vir, e rápido.

Assim, egocêntrico dos outros dez, dali exauria-se até protegendo, até atacando.
Queria saber tal qual os números, tal qual o tempo.

 Ari Marinho Bueno  
(in 'Onze poetas')



O primeiro poeta estava escondido atrás de uma grande porta branca, e fazia de seu batente uma expectativa de redenção; com seu corpo defenderia o corpo vivo (eram um só, assim cria) dos outros dez.
Uma porta é um lugar que separa dois outros, ele dizia.
O fundo deste quadro pode ser verde.


 Ari Marinho Bueno        
(in, 'Onze poetas')



Último homem à destruir, se preciso for; se preciso for último homem sobre a face do chão verde à frente do homem atrás da grande porta branca.
A marca que traz no braço poderia ser uma cicatriz, mas enfaixa apenas sua alma. Sua altivez tem algo de drástico, sabem os outros dez.
Este é o terceiro poeta. Perdoai-o, Senhor, ele não sabe o que faz.

(in 'Onze poetas')


Ari Marinho Bueno      

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Onze poetas


      
O nono poeta: sua condição é a ponta de uma lança.
Não há abrigo que aconchegue a grande outra porta branca, quando à sua frente. Fundamentada em sua metade esquerda, a argumentação se sustenta, crença nos outros dez.
Ao desfilar seu rigor no improviso, faz do tapete verde um lugar, uma audiência.
Sem igual, saem dali parecidos heróis e vilões.



Ari Marinho Bueno 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Casamento


À porta da igreja
o mendigo da rua
o casal de monstros
seu sorriso salvo

Com reflexo os vidros
realçam o céu
onde cruza avião
rumo à capital

Próxima dali
moral sem dentes
chega ao orgasmo
cabalisticamente

O mendigo pára
de olhar outros
que se dão conta
não ser meio-dia


Sentado no parque, observo…


Ari Marinho Bueno         

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Pela esquerda da grande porta branca, correndo risco o quinto poeta. Ser agredido ou agredir, sinal de ruindade? Prefere vencer a ser esquecido.
Cabeça baixa, fixando o verde, jaz sua habilidade - lado esquerdo de seu corpo, o muito que lhe querem os outros dez.
O lado esquerdo de seu peito não é estar recuado. Recusa a ser recusado.

Ari Marinho Bueno


(in 'Onze poetas')

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A moça da vitrine



A moça que monta a vitrine
Não é como a cesta de vime
Que aguarda alguém a compre
Ninguém à moça corrompe

A moça que ajeita a vitrine
Têm pouco mais de vinte
Gosta de ir e de voltar
Na mansão do mundo estar

A mãe disse “vá com Deus”
O pai nunca se arrependeu
Da boa filha trabalhadora
Menina dos olhos da patroa

O amor lavou-lhe a alma
Mantém a fronte sempre alta
Pois do primeiro não esquece

Enquanto o trabalho enobrece


Ari Marinho Bueno     

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

   
Um corredor à direita da porta, e que conduzia ao outro lado (seria a um dos lados do real?) - , era onde estava o segundo poeta.
O palco (verde) era para si ir e vir, e rápido.
Assim, egocêntrico dos outros dez, dali exauria-se até protegendo, até atacando.
Queria saber tal qual os números, tal qual o tempo.


 Ari Marinho Bueno   



(in 'Onze poetas')

sábado, 26 de agosto de 2017


à reticências demolida
cheia de ardor e amor

era a estrofe construída

Ari Marinho Bueno        

sexta-feira, 25 de agosto de 2017


Eu sou um poeta. Eu sou aquele que faz. Eu sou o único que pode decidir. Eu sou melhor que todos juntos. Eu garanto o nível deste espetáculo dantesco. Eu sou mais que tudo o que já quiseram ser um dia. Eu sei que eu sou uma coisa, e eu sei que os outros são outras coisas. Eu já fui um cara, agora eu sou maior que vários. Eu sei que todos queriam ser como eu sou. Eu sou quem tem que resolver. Eu sou um alvo. Eu sou um matador.

 Ari Marinho Bueno         

(in 'Onze poetas')