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segunda-feira, 24 de julho de 2017

então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refletindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então
marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando
pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas,
os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou,
até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e
expondo as sucessivas camadas do que tem a ver – onde a proximidade dos
corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia

TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo
2
a sensação de estar aí mesmo
harmonia não necessariamente cósmica
plenitude muito pouco mística
porém simples proximidade
da aberrante experiência de viver
algo como o calor
sentido ao lado de uma forja
(talvez devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem, carregar tudo junto,
deixar-se conduzir consigo mesmo)
ao penetrar no opalino aquário
(isso tem a ver com estarmos juntos)
e sentir o mundo na temperatura do corpo
enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
então
o poema é despreocupação


MEIO DIA


a Terra respira
formigas transitam por suas nervuras
arabescos de pássaros
pontuam o pausado discurso das nuvens
só existe o espaço
a paisagem lacustre
que agora cobre uma cidade submersa
e sem saber por que vim parar aqui
o que me trouxe a essa fronteira de lugares e sensações
entro n'água
a claridade me leva à deriva
flutuo no amplo
embebido no dia mais que morno
sei-me hóspede de quem tenho sido
(a superfície do lago
se desmancha no movimento dos círculos concêntricos)

Claudio Willer

A PALAVRA


vocês não entenderam nada, vocês não sabem nada
poesia não é querer escrever bem
poesia é o que eu ainda irei relatar em prosa
poesia é o que ainda pretendo escrever
para depois reler e dar risadas, imaginando o espanto de quem vier a ler o que escrevi
poesia é velocidade
do disparo de revólver verdadeiro, da janela, no automóvel que ia passando por aquele alvo escolhido ao acaso,
poesia é som,
o áspero ruído do gume de diamante sendo testado por dois especialistas em arrombamento na vitrina daquela loja de armas a 80 m. de distância de uma delegacia (eu esperava no carro) (se houvesse cedido, levávamos tudo)
poesia é luz
daquelas janelas abrindo-se todas ao mesmo tempo, todo mundo acordando para ver que espécie de confusão era essa, o que aquele bando de malucos fazia na rua àquela hora
poesia é noite
a outra noite, aquela (no HC, minha pressão caiu, e depois ainda tive que dar a notícia aos amigos)
poesia é dizer
é ela dizer: “como você me revoluciona por dentro”
poesia é escrever
com um cuidado enorme, pesando cada palavra, para não me declarar réu confesso
poesia é névoa
de fumaça enchendo o quarto, todo mundo a dar risadas sem conseguir parar
poesia é porrada
algo bem melhor do que briga de scholars, aqueles da outra universidade contra esses desta,
poesia grossa (cacete rombudo, que tal esta imagem?)
poesia é isso, é isto, também é aquilo, é agora
poesia é o que sempre soubemos
o conhecimento animal
um núcleo raivoso anterior à Queda
- Gnose
estou falando de filosofia, de essência,
uma exploração do desconhecido pelo corpo, através do corpo,
o Marquês de Sade nem precisava daquele teatro todo
o que sei é onde penetrei,
- o telefonema que me traz lembranças de trinta anos atrás, de ontem, de agora, seu som a vibrar neste ar parado de noite antes de mais uma tempestade -
nada me interromperá
sempre usei uma linguagem direta,
Prometeu, Fausto
não quero falar, quero ser dito
sejamos densamente humanos
como a chuva
no ar saturado de excesso
parto ao encontro do núcleo selvagem de qualquer coisa
diamante ou lágrima perdida no fundo do bosque
ex-deusa
assim me despeço
mas eu a reencontrarei
lunar
resta saber o sonho, parábola da vida

Willer, Claudio . De Jardins da provocação (1981)


MENSAGENS, 1: ENQUANTO RELEIO ALLEN GINSBERG


porque o mundo é mágico
eu escrevo instalado em um canto tranquilo da cidade
onde servem café
e sei-me parceiro das leis secretas que regem o real
você enxerga / eu enxergo à frente / atrás
o que foi e o que será
poesia é isto: saber olhar
atentamente, distraidamente
e contar
tudo o que ninguém precisa saber

Claudio Willer

sábado, 1 de junho de 2013

OS POETAS PAULISTAS


o poema, só quando for impossível traduzir um estado interior de outro modo
algo inexprimível, assim como o cheiro de café expresso que tomava conta da
Praça Roosevelt a provocar um retorno a invernos de outras cidades
e para relatar como foi aquela encenação da Teogonia, do poema sobre os
mitos arcaicos, a vida e a morte, o fim e o recomeço como etapas do
mesmo ciclo luminoso
pois a Terra, aquela noite, era um bólido que atravessava acelerado o
universo e uma torrente de chuva
as gotas da noite na partitura dos minutos estampada no para brisas
a tempestade nos encerra no centro do planeta que tem a forma
de uma garagem subterrânea
e poemas são escritos assim, de madrugada
para dizer que nossos dentes são sensuais,
nossas mãos são tão leves
e quando nossos corpos se tocam
o vazio é perfeito
e o mar está em nós
e agora devo habituar-me a inesperadas proporções e novas simetrias de
estarmos juntos,
pois somos a extensão de um texto de frases entrecortadas
sobre o alvor fugidio, o clarão que nos separa do amanhecer de um dia
seguinte
quando o cheiro de outro corpo, o seu, me acompanhar e vier acrescentar-se
à minha biografia


Claudio Willer

POESIA PICTÓRICA, VISUAL: SIMBOLOGIA DA ÁGUA



Quando a praia onde você está é sentida como real unicamente por trazer a
lembrança viva dos cheiros, claridade e ruídos da outra praia onde você
já esteve, muito tempo atrás
quando nada mais resta, a não ser a impressão de que viver foi inútil e de que
morrer é algo totalmente idiota,
filtrada por uma sensação do sublime, de estar com os pés no chão
ou então
quando ao retornar já de madrugada, deu-me a impressão de que se abria um
abismo, passagem para outro plano, no encontro das ruas Pernambuco,
Rio de Janeiro, Praça Villaboim, e isso foi igual a perceber que nada
mais fiz até hoje exceto seguir os rastros da minha própria morte,
quando a vida não passa de um pretexto: então, selecionar para publicação o
que for mais estranho, anguloso, geométrico mas fora de esquadro, e
que possa ser recitado em um tom de voz bem inocente, de quase
surpresa, simulando ser alguém que mal acredita no que está a dizer

Claudio Willer

*


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013





[...]

3

"o Sol será nosso pois o merecemos
o centro do universo fica aqui
resistimos
pelo sagrado direito ao sonho
e todos os seus mundos
resistimos
operações mágicas continuarão lícitas
neste dia de sombras vivas que se confundem com a alma
todos os seus desejos se realizarão
o que você pedir lhe será dado
profecias se cumprirão
outros poemas"

Claudio Willer