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sábado, 3 de maio de 2014

O Estado e o cidadão



De volta ao Brasil, senti o impacto de uma viagem às avessas, um mergulho para trás. Primeiro, me disseram que haveria por aqui uma nova Marcha da Família com Deus conclamando pela volta da ditadura. Comecei a rir, até perceber que falavam sério. Depois, li declarações de um ex-torturador. Ele explicava, com frieza de psicopata, como fazia desaparecer as pessoas de modo que não deixassem vestígio ao serem lançadas nos rios. Bem, homicidas sádicos e estripadores são figuras que desgraçadamente existem na vida real. Basta acompanhar o noticiário e vemos pais que jogam filhos pela janela, adolescentes que estupram e matam, senhores que guardam cabeças no freezer – o horror da condição humana não conhece limites. Para nos defender dessas situações-limite existe o Estado, que, num processo civilizatório de séculos, assimilou enfim o conceito do monopólio da força: só ele tem o poder de polícia, e, em tese, luta por garantir a integridade de seus cidadãos, quem quer que sejam.

O espantoso da notícia, entretanto, é que o torturador agia em nome do Estado; recebia proventos para o seu trabalho, obedecia a uma cadeia legal de comando e estava perfeitamente protegido pelas instituições no poder. Não foi um maluco solitário, um fanático qualquer, que sequestrou Rubens Paiva – e escolho apenas simbolicamente um entre muitos –, matou-o e deu um fim ao seu corpo. Foi um funcionário do Estado, a seu serviço. Assim como o consequente apagamento da memória do fato e de seus detalhes foi, e vem sendo, uma ação burocrática de Estado – no caso, a recusa do Exército de abrir seus arquivos, provavelmente sob a angústia de uma dupla vergonha, a da ocultar a história, de resto pública, ou suportar, também publicamente, sua revelação.

Não vou discutir aqui as variáveis políticas do caso ou a Lei da Anistia, que permite interpretações complexas e respeitáveis. Nem relembrar diferentes momentos históricos, como se o horror do passado justificasse o do presente, numa cultura em que nada sai do lugar. O passo que agora me interessa é apenas o da linha que separa a civilização da barbárie: a consciência do papel do Estado e do lugar do cidadão, uma distinção elementar que parte substancial de um Brasil embrutecido tem sido incapaz de aceitar. O retrato do atraso está exatamente aí. Comparar o monumental poder do Estado – a gigantesca máquina do governo, controlando Exército, Marinha e Aeronáutica, mais todas as polícias do país – com a ação de meia dúzia de guerrilheiros, ou idealistas, ou terroristas, ou delinquentes, ou idiotas, ou lunáticos (o leitor faz sua escolha), além de vítimas avulsas, como Herzog ou Rubens Paiva, presos e assassinados, como se se tratasse de uma “guerra” – e em que espécie de guerra é preciso desmembrar os mortos e fazê-los desaparecer nos rios? –, é torturar mais uma vez a inteligência do cidadão.

Cristovão Tezza.Gazeta do Povo. 01/04/2014

Fragmentos de um diário da China




  O primeiro choque para quem sai do Brasil e vem à China são os aeroportos. Primeiro, os escombros patéticos de Guarulhos, com multidões trombando em toda parte atrás de algum espaço, informação ou conforto, dando a impressão de um aeroporto no último limite de sua capacidade operacional – chegando de Curitiba, esperei 30 minutos, com o avião parado, até que aparecesse uma escada que nos descesse a um único ônibus, onde coube um terço dos passageiros; os outros que aguardassem o próximo para chegar ao terminal de desembarque. Depois, em Paris, o deslumbre impressionante do Charles de Gaulle, indicando até pelo silêncio dos ambientes que falta muito, mas muito mesmo, para a Europa se curvar ao Brasil, como sonha nossa história pitoresca. E, enfim – a viagem mais longa do mundo –, desço na imponência igualmente humilhante do gigantesco aeroporto de Pequim.

Estou de cabeça para baixo, aqui no outro lado do globo, com fuso horário transtornado. Enquanto escrevo, são 6 horas da manhã de segunda, mas aí, desgraçadamente, o Atlético acaba neste minuto de perder do Paraná por 4 a 0. Ainda bem que, para sofrer bem longe minha derrota, estou na China – na China comunista, mas, exceto pela onipresença de chineses, poderia estar em qualquer megalópole do mundo. Saindo do aeroporto, um mar de carros de último tipo avança lento por uma autoestrada de cinco pistas. Está frio lá fora, e um horizonte de árvores secas margeia a estrada.

Começo a sentir a célebre poluição de Pequim, uma cidade construída, destruída e reconstruída, em ritmo de terra arrasada, à margem do Deserto de Gobi. Quando me diziam, achava que era exagero, mas não é – os olhos vão se marejando neste ar pesado, a garganta seca. Começam a aparecer os prédios, em profusão – e, exceto pelos caracteres chineses de outdoors, até aqui nada indica que estamos nem no mítico Oriente, nem no que ainda poderia ser considerada a grande vitrine comunista do mundo. Às 3 da tarde, pode-se olhar sem medo diretamente o sol, que ao ritmo do carro vai dando um toque de cenário pintado àquele impressionante recorte urbano. Sob a densidade cinza da poluição, o sol é uma gema fuliginosa equilibrando-se amarela sobre um céu em ruínas.

No hotel, estou num centro de edifícios modernos e grandes avenidas. Na paisagem ainda escura, carros a distância parecem andar em câmera lenta. O dia amanhecendo, ainda luto para adaptar a alma ao novo relógio. Entre o prédio impactante da Televisão Central da China (CCTV), com seus ângulos inclinados de vidro, e uma enorme torre comercial, cujas faces espelham uma cidade trêmula, vejo ao longe uma clássica chaminé de fábrica despejando fumaça aos céus – é o encontro da Londres de Charles Dickens, movida a carvão, com o admirável mundo novo made in China. O império milenar que reinventou o comunismo ao redescobrir o capitalismo.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo. 11/03/2014 



Ainda na China


Já estou no Brasil, mas enviei estas mal traçadas linhas da França, onde participo do Salão do Livro – e ainda com a China na cabeça, até pela agressão do fuso horário, que vira a alma do avesso. A sensação é de quem, ao mesmo tempo, está sempre sonado e sempre sem sono. Depois de Pequim, uma cidade de grandes extensões e hostil ao pedestre, o que lembra Brasília, cheguei a Xangai, que é outro choque. Olhando por uma janela, é uma São Paulo; por outra, é uma metrópole futurista entrelaçada por viadutos sem fim, um aglomerado impressionante de pistas e carros. A escala, como tudo na China, é gigantesca, e sempre com a estampa de que tudo foi feito ontem.

O que há de “típico” aqui? Ao primeiro olhar, nada. Em um trem-bala, fui a Suzhou, uma viagem de 20 minutos que me levou à chamada capital da seda, a “Veneza do Oriente”, pelos canais que cortam a parte antiga da cidade. Circulei por ruelas comparativamente de alguma pobreza (mas que nem de longe lembram nossas favelas), depois por uma via em que se esbarra em turistas (predominantemente chineses) tirando fotos e comendo quitutes exóticos vindos de tachos de óleo fervente. Num dos salões do hotel, havia uma festa comemorativa dos 100 dias de um bebê que reuniu uma multidão de chineses ricos, chegando em carrões lustrosos. Imensos cartazes dourados, de uma ostentação cafona, anunciavam, inexplicavelmente em inglês, que era uma menina: “It’s a girl!” Já o outro setor da cidade é mais uma metrópole de vias rápidas e viadutos, por onde voltei à estação de trem, que pelo tamanho lembra um aeroporto.

Trocando em miúdos, em três ou quatro décadas a imensa fazenda coletiva em ruínas que era a China de Mao se transformou na segunda economia do mundo e criou uma monumental classe média urbana. Simbolicamente, não se vê em lugar algum estátuas do Mao ou foices e martelos. O Brasil que, atavicamente socialista, imagina-se capitalista, mas que de fato não é nem um nem outro, poderia quem sabe aprender alguma coisa com os chineses. Por desgraça, não temos 5 mil anos.

É visível um grande interesse pelo Brasil. Na Associação de Escritores de Xangai, em um encontro promovido pelo consulado brasileiro, conversei com quatro autores, representando diferentes gerações. Quando perguntei qual o impacto da Revolução Cultural maoísta – que destruiu o sistema educacional do país e representou uma imensa tragédia – sobre a literatura chinesa, as respostas foram discretas, lembrando-me, sem dizer, que há limites no que pode ser dito por um chinês. A subordinação dos temas políticos à orientação do Partido Comunista, que tudo sabe e tudo vê, é apenas um breve capítulo de uma história imperial milenar. Sente-se o silêncio partilhado de uma cultura muito difícil de ser penetrada.

Por outro lado, eles me dizem que, para os chineses, “o Brasil é um mistério”. Respondi com sinceridade: para nós também.

***

Uma breve errata: na crônica da semana passada, leia-se “herança da Olimpíada”, e não “da Copa”, como escreveu este cronista distraído.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo25/03/2014


Viagens literárias


 
Para quem vive em torno da literatura, uma das diferenças mais notáveis entre o fim do século 20, do meu tempo de formação, e este início de século 21, em que se movem os novos e novíssimos, é a surpreendente quantidade de eventos literários no país. Entre os anos 70 e 90, no silêncio da ditadura e na década que se seguiu, carcomida pela inflação e pelo arrasto da era Sarney, não havia nada além de bienais burocráticas no Rio e São Paulo, por onde a literatura brasileira desaparecia pelo ralo, e algumas feiras capengas de livros, com a exceção especial da Feira de Porto Alegre. Mas, em seguida à modernização econômica propiciada pelo Plano Real, mais as políticas culturais baseadas na Lei Rouanet, o panorama mudou, ainda que a literatura permaneça a prima pobre dos incentivos fiscais.

Hoje, não há praticamente uma região do Brasil que não tenha sua festa anual de literatura, que vem deixando de ser apenas uma fila de barracas para vender livros. Agora, o que conta mesmo são os debates literários, espaços de ampliação de repertórios culturais, que repercutem nos jornais, nos blogs, na revolução da internet. A estrela neste processo foi a Flip, de Paraty, cujo prestígio deu um charme internacional à nossa literatura e estimulou a criação de dezenas de eventos semelhantes no país. Parece estar havendo um processo de recuperação e valorização da palavra escrita, que, no Brasil dos anos 70 e 80, foi devorada pela oralidade dominante da tevê. E o inacreditável aconteceu – dá para viver de literatura, ou, mais precisamente, do livro e seus derivados. Continua sendo difícil, é verdade, mas não impossível. E talvez outro milagre esteja no horizonte, ainda que em ritmo mais lento: a boa ficção do país recuperar o próprio leitor brasileiro, que ela perdeu a partir da década de 70.

Pois, na minha vida trepidante de camelô literário, tenho comprovado essa transformação. Acabo de chegar de São Francisco Xavier, um simpático vilarejo no interior de São Paulo, onde participei dos “diálogos com a literatura” do VII Festival da Mantiqueira, tendo o prazer de ouvir debates de prosadores fortes da minha geração literária, como Bernardo Kucinski, Elvira Vigna e Evandro Affonso Ferreira.


E pouco antes estive em Lages (SC), que entra no circuito brasileiro com o I Salão do Livro da Serra Catarinense. Sou um escritor de empedernida alma curitibana, mas nasci em Lages, onde vivi até os 8 anos de idade, o que não é pouco; de lá trouxe o sotaque que não me larga, e uma infância marcante. Aliás, uma infância vivida nos arredores da Praça Joca Neves, exatamente onde se instalou o Salão. Assim, falar naquela praça e receber uma homenagem da cidade em que nasci foi uma sensação muito boa. Escritores são pessoas duras, frias e calculistas; mas às vezes têm surtos sentimentais. Rever Lages depois de tantos anos foi um desses momentos.

Cristovão Tezza. Gazeta do Povo15/04/2014 

Na praia


Escrevo da praia, para onde vim me refugiar em busca das férias míticas que não acontecem nunca. Bem, férias são a sua própria procura, o oásis que avança pelo tempo. Estou aqui nesta geografia que, felizmente, ainda não existe nos grandes mapas; é só um balneário entrar no mapa, e adeus sossego. Bem, isso é conversa de sessentão; tivesse eu meus 20 anos, quereria os grandes mapas, onde a vida trepida – não, não é verdade; nos meus 20 anos eu queria era me esconder, poeta, na Ilha de Superagui, na solidão da Praia Deserta. Fui para lá várias vezes, politicamente incorreto, caçar jacaré sob o comando do capitão Rio Apa e sua trupe, numa baleeira muito adequadamente chamada de Anarco, que subia o canal de Ararapira. Nunca pegamos nenhum, mas o importante era a busca da solidão. O que prova, talvez, que mudamos muito pouco.

Também não é verdade – desculpem, a vida é confusa. Porque o que eu quero mesmo hoje é menos solidão e mais um sossego controlado, pausterizado e, de preferência, com ar condicionado. Naqueles tempos bárbaros, povoados de hunos, alanos e vândalos ululantes cheios de ideais regressivos, este desejo de conforto seria a prova definitiva da minha decadência.

Fiquemos aqui no meu paraíso caseiro, que está a uma hora e pouco de Curitiba, ainda sem engarrafamentos colossais, desses que aparecem na tevê. Estou na fronteira difusa entre Gaivotas, que já é quase popular, e Caravela, ou Caravelas, que ninguém sabe que existe – lembro vagamente de uma placa verde com esse nome na beira da estrada, ali adiante, e o pessoal não iria inventar um balneário fantasma. Neste “não lugar” eu me refugio, quando preciso despressurizar um pouco. E, afinal, aqui vejo meu amigo lagarto – ou algum representante de uma linhagem de lagartos que há décadas habita o quintal da casa. Desconfiado, um deles já deu as caras, e desapareceu com a mesma rapidez.

Aqui tenho algo próximo do silêncio, a mercadoria mais rara do mundo moderno; se você quer silêncio, vai pagar muito por ele. Mas nessa toca ainda consigo uma réstia grátis de silêncio; à noite, ouço o mar, que é uma espécie alternativa de silêncio; e, durante o dia, os carros que passam adiante são um ruído que se ouve sem ouvir. Os perigosos bárbaros do som de porta-malas aberto têm sido raros nas redondezas com seus decibéis assassinos, o que indica que a civilização, pouco a pouco, avança. É verdade que nos fins de semana explodem com entusiasmo as waps e os cortadores de grama; e, ao entardecer, um piromaníaco sempre decide botar fogo em algum lixo que vai empestear de fumaça o ar em torno por várias horas – podemos fugir de tudo, menos do ar. Às vezes alguém estoura uma bomba só pelo prazer do susto. Mas o saldo ainda é razoável: leio um livro, olho o céu, enfrento o fogão, curto o netinho, penso na vida.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo.29/04/2014


sábado, 15 de março de 2014

O assassinato da poesia


Um amigo me mandou o recorte com a notícia bizarra: um professor russo matou a facadas um colega por este defender a tese de que a única literatura verdadeira é a prosa. Parece que estavam bêbados, o que torna a coisa mais verossímil. O amor dos russos pela literatura é desses paradoxos históricos inexplicáveis – de meados do século 19 às primeiras décadas do século 20, o país foi um dos centros fundamentais da literatura moderna, ao mesmo tempo em que se mantinha como um dos mais atrasados do mundo, uma autocracia cega reinando sobre uma imensidão de pobreza medieval. Mas São Petersburgo e Moscou eram centros literários extraordinários, em que se moviam monstros como Dostoiévski, Turguenev, Tolstói e Tchekov.

A partir da década de 1930, o terror stalinista destruiu a inteligência do país onde quer que ela levantasse a cabeça – Mikhail Bulgákov (1891-1940) talvez tenha sido o último grande gênio da prosa russa, mas sua obra-prima O mestre e Margarida foi publicada apenas décadas depois de sua morte. E o célebre autor de Lolita, Vladimir Nabokov, só sobreviveu de fato ao se tornar um escritor americano.
Os russos leem muito e têm a poesia em altíssima conta – recitais de poesia com uma multidão de ouvintes eram eventos comuns na Rússia. Assim, a discussão de dois russos bêbados em torno do valor da prosa e da poesia começa a soar como uma cena realista. Basta ler algumas páginas de Dostoiévski para entrar no clima – seus personagens estão permanentemente no limite das questões transcendentais da vida, numa tensão mortal de pontos de vista contrastantes.

É verdade que ninguém precisa matar por isso, mas a distinção entre prosa e poesia fascinou este modesto cronista nos seus tempos de universidade a partir de um outro russo, o filósofo Mikhail Bakhtin (1895-1975). Em um de seus textos, Bakhtin sugere que a voz do poema é sempre a voz do poeta; o poeta se confunde completamente com o verso que canta. E a voz do prosador é sempre a voz de uma outra pessoa; o prosador, covardemente, esconde-se na linguagem dos outros.

Fiquei tão apaixonado pela ideia que escrevi uma dissertação acadêmica a respeito, tentando convencer o mundo desta verdade cristalina. Mas ninguém concordou: meu trabalho dava a impressão de que os poetas são uns egocêntricos autocentrados e os prosadores, uns caras legais que ouvem os outros. Parecia que eu estava falando em causa própria, já que nunca escrevi um verso que prestasse. Pior: os poetas seriam “autoritários”, enquanto os prosadores posariam de “democráticos”. Num tempo como o nosso, nada pode soar pior. Bem, não quero dar uma de oportunista, mas a notícia de jornal parece comprovar empiricamente a minha tese: o poeta, ao ouvir aquela besteirada do prosador, simplesmente puxou da faca, fez justiça com as próprias mãos e foi beber mais um trago.


Ainda bem que sou brasileiro, ou não estaria mais aqui.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo. 18/02/2014

Do paraíso brasileiro aos comentários da internet



Pense o leitor neste quadro: era uma vez um país bonito por natureza, banhado por mares verdes e azuis, onde vivia um povo alegre e cordial, que jogava futebol, brincava o carnaval e sorria o dia inteiro. Tudo lá era divertido, sob a trilha sonora de um perpétuo samba exaltação. Pobres, ricos e remediados eram felizes, a inveja e o olho gordo não prosperavam, e não se via violência. Pouca gente sabia ler e escrever, o que não fazia falta, porque a felicidade era cada um vivendo tranquilo no seu cantinho enquanto sábios letrados tocavam o barco. E o resto do mundo, de tempos em tempos, pasmava-se com aquele paraíso sorridente, capaz de façanhas incríveis, para grande orgulho nacional.

Este conto da carochinha é uma das mais resistentes expressões de um secreto imaginário brasileiro: as pesquisas indicam que somos um dos povos mais felizes do mundo. Como a felicidade é um valor subjetivo – quem pode medir minha felicidade senão eu mesmo? –, é preciso acreditar no otimismo do país. Em qualquer lugar do mundo, dizemos a palavra mágica – “Brasil!” –, e o interlocutor sorrirá com simpatia.
A questão é que o mundo vem mudando tanto que até o Brasil largou a preguiça e passou a correr atrás do futuro, porque uma das faces da nossa felicidade é o gosto novidadeiro. Daí vieram os computadores, os celulares, a internet, o facebook, o tuíter, o G3, os tablets, o G4, a tevê digital, o GPS, os selfies, o BBB – e, principalmente, a seção de comentários das páginas da internet.

Quem jamais escreveu nada nem nunca leu nada começou a adentrar no mundo maravilhoso das letras. Com mais eficiência do que as escolas arruinadas que os estudantes vão largando pelo caminho, a internet obriga todos os dias as pessoas a ler e a escrever, catando milho nos teclados. Súbito, ler e escrever – essa tortura escolar – passou a ser uma coisa legal, como um código inventado por crianças. Este mesmo cronista, um clássico otimista brasileiro, chegou a acreditar que, finalmente, o Brasil largaria a dança da chuva e começaria a ler em massa, numa explosão civilizatória nunca antes vista neste país.


Obviamente, há muita vida civilizada na internet, em espaços de interesse específico; mas nas seções abertas de comentários políticos descobrimos que todo brasileiro é black bloc; com a cara tapada ou descoberta, um outro povo emerge das profundezas do horror com sangue nos olhos e porrete na mão a dar pancadas em tudo que apareça à frente; um rancor sem cabeça nem letras explode com a volúpia da estupidez diante de qualquer assunto; naquelas linhas, nenhuma referência de valor sobrevive além do próprio desejo. O país inteiro, da “presidenta” ao último cidadão, comunica-se em comentários de internet; e black blocs destruindo ruas são comentários ao vivo, a contrapartida analógica da fantasia digital.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo.25/02/2014

Os desastres do calor


Aqui, nas Gaivotas, começo a acreditar firmemente no aquecimento global. De fato, logo as geleiras do Polo Sul vão derreter, as águas subirão e cobrirão este deserto. Ai de ti, Matinhos! O calor, o silêncio, a solidão, o suor, a mecânica monótona dos ventiladores praticamente inúteis mesmo quando paralisamo-nos a um palmo deles, as misteriosas incursões do lagarto pelo quintal, todo o concerto do tempo e do espaço vai como que nos achatando a alma.

Largados na cadeira, na rede, na cama, na breve sombra, vamos chegando, enfim, à substância mortal da preguiça, nossa querida e mal amada companheira. Chegamos à transcendência do fazer-nada. Todo gesto se derruba antes de começar. A persistência bruta do calor não nos deixa nem sequer dormir, ou esquecer o próprio calor, ou pensar em algo que não seja ele mesmo, o calor e seus vapores. Até as expedições à geladeira – a doce água fria gorgolejando garganta abaixo, que nunca é suficiente – parecem um calvário. O alívio do gelo é uma miragem de segundos, e o suor volta a brotar. Ventiladores fazem girar o ar quente, no gemido constante dos motores incansáveis. Até as moscas sentem o peso da atmosfera, o clima inexorável, e sabem que não vai chover tão cedo.
Mas eu preciso trabalhar. Cronista não tem férias. Quem mandou largar o emprego fixo, a vida segura, o ar condicionado da repartição? Você não queria ser escritor? Aguente o tranco. Levante esse traseiro gordo da rede, como dizem os filmes dublados – mas nem isso o faz rir. Abra o notebook, escreva uma frase qualquer e toque em frente, seguindo o conselho dos clássicos. Quem sabe dê certo?

Mas resisto. Sair da rede é uma tarefa acima das minhas forças. Busco uma desculpa para continuar fazendo nada: talvez antes um banho de mar, contrariando todos os meus princípios? Cada vez que me imagino andando naquela areia fervente que agarra e queima os meus pés chatos, enquanto o sol, sádico, arranca lascas da minha pele rala, os olhos espremidos de fotofobia e lágrimas, a claridade brutal, ou ainda o desconforto grudento dos cremes supostamente protetores que me transformam num bacon humano – cada vez que vou ao mar descubro minha identidade secreta de vampiro, o horror à luz do sol que há de me transformar em pó, a atração irresistível pelo frio e pela noite. Feliz do lagarto, que tem sua toca escura! Mas a água é saudável – vamos, não pense, entre lá e mergulhe!, dizem os evangelistas da saúde em torno, os parentes aflitos pelo meu sofrimento, salve sua alma da preguiça e do calor! – e me imagino entrando no mar violento, sentindo a onda inóspita que me derruba e me afoga no caldo em seguida, e ainda me arrasta de cambulhada na areia grossa, de onde me ergo de joelhos para levar outro balde de água fria na cabeça, as pernas trêmulas. Dizem que é bom para a saúde.

Não. Melhor escrever logo a crônica. O banho de mar pode esperar.

Cristovão Tezza
Gazeta do Povo.28/01/2014


Fragmentos de um diário da China



O primeiro choque para quem sai do Brasil e vem à China são os aeroportos. Primeiro, os escombros patéticos de Guarulhos, com multidões trombando em toda parte atrás de algum espaço, informação ou conforto, dando a impressão de um aeroporto no último limite de sua capacidade operacional – chegando de Curitiba, esperei 30 minutos, com o avião parado, até que aparecesse uma escada que nos descesse a um único ônibus, onde coube um terço dos passageiros; os outros que aguardassem o próximo para chegar ao terminal de desembarque. Depois, em Paris, o deslumbre impressionante do Charles de Gaulle, indicando até pelo silêncio dos ambientes que falta muito, mas muito mesmo, para a Europa se curvar ao Brasil, como sonha nossa história pitoresca. E, enfim – a viagem mais longa do mundo –, desço na imponência igualmente humilhante do gigantesco aeroporto de Pequim.

Estou de cabeça para baixo, aqui no outro lado do globo, com fuso horário transtornado. Enquanto escrevo, são 6 horas da manhã de segunda, mas aí, desgraçadamente, o Atlético acaba neste minuto de perder do Paraná por 4 a 0. Ainda bem que, para sofrer bem longe minha derrota, estou na China – na China comunista, mas, exceto pela onipresença de chineses, poderia estar em qualquer megalópole do mundo. Saindo do aeroporto, um mar de carros de último tipo avança lento por uma autoestrada de cinco pistas. Está frio lá fora, e um horizonte de árvores secas margeia a estrada.
Começo a sentir a célebre poluição de Pequim, uma cidade construída, destruída e reconstruída, em ritmo de terra arrasada, à margem do Deserto de Gobi. Quando me diziam, achava que era exagero, mas não é – os olhos vão se marejando neste ar pesado, a garganta seca. Começam a aparecer os prédios, em profusão – e, exceto pelos caracteres chineses de outdoors, até aqui nada indica que estamos nem no mítico Oriente, nem no que ainda poderia ser considerada a grande vitrine comunista do mundo. Às 3 da tarde, pode-se olhar sem medo diretamente o sol, que ao ritmo do carro vai dando um toque de cenário pintado àquele impressionante recorte urbano. Sob a densidade cinza da poluição, o sol é uma gema fuliginosa equilibrando-se amarela sobre um céu em ruínas.


No hotel, estou num centro de edifícios modernos e grandes avenidas. Na paisagem ainda escura, carros a distância parecem andar em câmera lenta. O dia amanhecendo, ainda luto para adaptar a alma ao novo relógio. Entre o prédio impactante da Televisão Central da China (CCTV), com seus ângulos inclinados de vidro, e uma enorme torre comercial, cujas faces espelham uma cidade trêmula, vejo ao longe uma clássica chaminé de fábrica despejando fumaça aos céus – é o encontro da Londres de Charles Dickens, movida a carvão, com o admirável mundo novo made in China. O império milenar que reinventou o comunismo ao redescobrir o capitalismo.

Cristovão Tezza
Gazeta do Povo.11/03/2014

O pessimista acidental



 
Sou daqueles otimistas genéticos, para quem, mesmo à maior desgraça, o copo está sempre meio cheio, quando todo mundo está careca de saber que está meio vazio. Questão de temperamento, mais que de razão. Ultimamente, entretanto, tomado de algum sopro de melancolia da idade madura, ando com uma perigosa tendência a ver defeito em tudo. Não vou falar de governo, em que vemos o que queremos, e todos são historicamente mais ou menos a mesma – às vezes mais, às vezes menos – coisa. Mas dois fatos sociais da realidade brasileira assustam.

O primeiro deles é a taxa de homicídios. Prefiro não me referir à violência simplesmente, que lembraria algum gene inexorável da natureza humana (digamos, “dos outros”). De modo objetivo, fiquemos com a taxa de homicídios. Do que sabemos com certeza (e sabemos muito pouco no país da informalidade), os brasileiros estão matando 50 mil pessoas por ano, esses anotados um a um. Em termos absolutos, é a maior taxa do mundo; proporcionalmente, chega perto disso, e só perde para Estados muito mais desestruturados e menos complexos que o nosso, como Venezuela, Burundi e Honduras, o que torna ridícula, senão mais vergonhosa, qualquer comparação. Nem de longe países renitentemente afogados no terror ou em guerras civis político-etno-religiosas matam como aqui.
Por que o brasileiro se tornou um povo homicida? Ou sempre foi e não sabíamos? As cenas explícitas de tentativa de assassinato na arquibancada de Joinville se fundem com as cabeças decepadas das prisões do Maranhão e com a fria estatística dos mortos dos fins de semana da Grande Curitiba, mais os presuntos desovados em toda parte em berço esplêndido, e ainda os fuzilados no assalto da esquina, e mais o jogo de polícia e ladrão com papéis trocados, e daí por diante, numa máquina registradora de cadáveres que não para de apitar – uma locomotiva macabra.

Não sei. Não há uma só resposta. Mas vai aqui outra fonte de pessimismo, que talvez seja uma das mil respostas possíveis. O padrão do ensino médio brasileiro é um desastre monumental, a partir também de números frios, preto no branco: apenas 28% da população adulta brasileira tem ensino médio completo (na Alemanha, são 90%, só para o leitor ter alguma referência). Mais: segundo dados de 2010, apenas a metade dos matriculados no ensino médio conclui o curso. Mais ainda: só a metade dos jovens de 15 a 17 anos que estão na escola estão de fato no ensino médio; os outros se arrastam ainda no fundamental. São milhões de jovens aos quais, todos os anos, o acesso elementar à civilização é barrado. O que não fazia diferença no velho Brasil rural do cigarro de palha e da casinha de sapê, de estamentos para sempre imutáveis, no Brasil urbano, mutante e global de hoje tornou-se uma bomba cultural e social muito difícil de ser desarmada.


Batendo aqui e ali em surtos eleitoreiros, a ficha está custando a cair.

Cristovão Tezza

Gazeta do Povo.14/01/2014.| 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O sofrimento dos sessentões

Cristovão Tezza



Dia desses, divagando, cheguei à conclusão de que minha geração é a mais sofredora que existe. Não é uma questão genérica, do tipo “pessoas de tal idade” são assim ou assado. É geração histórica mesmo, aquele povo que nasceu especificamente no fim dos anos 40 e no começo dos anos 50. Esses, acreditem, estão sofrendo mais que os sessentões de outros tempos.

Explico. Começa porque foi uma geração que teve uma infância dura e sofrida. O Brasil estava saindo do mato e entrando nas cidades, tudo era difícil, os pais eram autoritários e intolerantes, a Igreja assustava bem mais que hoje, o sexo era o portal do inferno e o professor tratava o aluno a pão, água e reguada. Todo mundo mandava nas crianças sessentonas, e mandava no grito. Escreveu, não leu, o pau comeu.
Reprimidos e revoltados, os sessentões adolescentes fizeram a revolução sexual, de que não entendiam nada, e quem aproveitou mesmo a festa foram seus filhos. Quando se tornaram pais, os sessentões não tiveram o gosto de mandar; educaram os filhos nos sonhos igualitários de um mundo utópico e sem conflitos. Como resultado, os filhos passaram a mandar nos pais, exatamente como estes eram mandados antes.

Até aí, tudo bem; os sessentões já estavam adestrados para a obediência. Mas a vida não é só família. No mundo tecnológico, por exemplo, também os sessentões sofrem mais do que os outros. Quando chegou a internet, os sessentões já eram quarentões cansados e não aprenderam nada, a cabeça com saudade da velha roça, em que tudo era tranquilo e na tramela, enquanto a gurizada passava o dia jogando video­game e entrava de cabeça no admirável mundo novo que engoliu o velho. E engoliu os velhos. Os sessentões, que nunca viram um autorama quando crianças, hoje não sabem que graça tem o Facebook ou o iPad e acham uma chatice as senhas do banco, que vivem esquecendo.

E tem mais, talvez o pior: os sessentões sofrem muito no terreno ideológico, em todos os espectros. A direita, por exemplo. Os sessentões de direita de hoje lembram-se com lágrimas nos olhos da ditadura militar. Aquilo, sim, punha ordem no galinheiro! E mais: mulher era mulher, homem era homem, e o resto não se pronunciava. Igreja era coisa de respeito. Hoje é essa esculhambação! E, também com lágrimas nos olhos, o sessentão de esquerda tinha a convicção inabalável de que ser de esquerda era uma bênção, uma bússola moral; o Estado nos defenderia, o petróleo era nosso e como era feliz meu Banco do Brasil! Quando um esquerdista era preso, fazia-se um silêncio respeitoso – esquerdista preso era herói. Assaltava-se o cofre do Ademar para fazer a revolução. Hoje assalta-se a bolsa da Viúva para garantir privilégios. Com a vista cansada – “você é quem, mesmo?” –, uns se misturam aos outros.

Sessentão sofre. Mas que seja com bom humor: aos meus 17 leitores, os votos de boas-festas deste cronista sessentão.

Gazeta do Povo Publicado em 24/12/2013



sábado, 12 de outubro de 2013

Livros e tabuletas


 
Passando pela Santos Andrade para ir ao Correio, percebi que fecharam a Livrarias Curitiba da esquina – era das últimas livrarias de rua da cidade. Na região, sobrou bravamente o Chain e, enquanto os livros se entrincheiram nas grandes redes dos shoppings (entre elas a própria Curitiba), restam apenas os sebos ao ar livre das ruas.

O que não é pouco: as lojas de livros usados vão acabar se transformando no espaço mais sofisticado do livro de papel – um passeio por uma boa estante de um sebo bem cuidado é sempre uma viagem literária. Melhor ainda: como primos pobres da irmandade preciosa dos leitores, os sebos felizmente permanecem a um passo da calçada, mantendo sua vocação popular à maneira antiga.

O que dizer desta irreversível mudança de panorama do comércio do livro? A reação emocional é apocalíptica, como se, à medida que o tempo passa e, portanto, ficamos mais velhos, o mundo inteiro naturalmente piorasse. Bem, eu sempre desconfio do saudosismo; acho que é preciso repensar essa imagem romântica das livrarias.

No Brasil, salvo gloriosas e raras exceções, as livrarias sempre foram pouquíssimas e ruins, somente disponíveis em centros maiores, num país que considerava os seus poucos leitores também uma reserva de mercado. Isto é, nunca houve uma “era de ouro” do livro no Brasil, um país historicamente iletrado, e a atividade do escritor sempre considerou-se mais ou menos ornamental.

O panorama começou a mudar pela confluência de dois fatores poderosos – o primeiro foi a rápida urbanização brasileira das últimas décadas, com a concomitante modernização de sua economia, a partir do Plano Real, que se manteve no governo Lula, criando uma nova e consistente classe média, com o aumento subsequente da base de leitores. Tudo muito precário, como sabemos – urbanização selvagem, ensino ruim –, mas houve um salto de consumo que também chegou aos livros. O segundo fator foi avassalador: a revolução tecnológica da internet. Ela quebrou a lógica comercial de balcão de armazém do século 19, que aqui continua viva no século 21, e provocou uma mudança radical no sistema do livro. Não há de ter saudades de livrarias que cobravam caro (nas mãos de uma distribuição sem concorrência), não tinham nada nas estantes e não davam a mínima para a literatura. A internet se transformou no canal da mais extraordinária livraria – e biblioteca – da história. E, à já fantástica circulação do livro físico que a internet vem permitindo, acrescente-se o advento da tabuleta digital – este retorno high-tech aos tijolinhos cuneiformes dos antigos sumérios representa outro salto fantástico em defesa universal da leitura.

É claro que o livro de papel não vai desaparecer – continua sendo a mais perfeita invenção do mundo. Mas vociferar contra o livro digital é não entender o potencial democrático de trânsito da informação escrita que ele significa.

Cristovão Tezza .
Gazeta do Povo 081013



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Partidos, pessoas e poemas





Publicado em 23/10/2012

Meu plano era escrever uma crônica sobre o que todo mundo já sabe: não há mais partidos no Brasil. A mixórdia partidária parece o retrato de um país que se recusa a pensar, a racionalizar e a escolher. O jogo é bruto. Até algum tempo atrás cheguei a sonhar com alguma nitidez partidária, não de fanáticos, mas de ideias ou conceitos. O choque da velha cabeça agrária brasileira com o seu violento e tentacular corpo urbano, ou a centenária cultura do Estado provedor e paternalista chocando-se com o espírito da iniciativa capitalista e indiferente, ou mesmo, no espaço da vida comunitária, os conceitos de transporte público e privilégio privado e suas consequências, boas ou terríveis, na vida cotidiana, são temas políticos fundamentais que merecem formulação clara, escolhas nítidas, cultura da diferença, alternância de pontos de vista – tudo aquilo a que a vida política brasileira parece ter horror. Sou desligado e cada vez mais distraído, quase nunca vejo tevê, mas algumas coisas saltam aos olhos, como diz o chavão.
Minha sábia diarista diz que não vota em partidos, mas em pessoas; exatamente a mesma frase que li, anos atrás, numa página de Millôr Fernandes. À época, achei que ele estava errado; cartesiano, pensava que estruturas partidárias sólidas e conceitualmente bem formuladas eram o melhor caminho da civilização. Por mais que isso às vezes pareça desesperador, não há salvação fora da política. Continuo pensando assim, teimoso, mas acho que, enquanto não se faz uma reforma partidária decente, votar estritamente em pessoas é o que nos resta abaixo da linha do Equador. Pelo menos como tática de sobrevivência e especialmente no âmbito concreto da cidade, que nos interessa de perto, e não na abstração do país.
No mais, recorro à poesia, que é uma boa solução para os enigmas de todo dia. Abro Carlos Drummond de Andrade, meu oráculo, e lá está: “Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos.” O poema é justamente chamado Nosso tempo – e ele parece mesmo falar de nós, embora escrito há mais de meio século. Os versos falam de um tempo de guerra (“Tempo de cinco sentidos / num só. O espião janta conosco”), mas até na nossa paz momentânea o sentimento de fratura permanece. Vejam-se alguns versos: “Visito os fatos, não te encontro.” E mais adiante: “Esse é tempo de divisas, / tempo de gente cortada. / De mãos viajando sem braços, / obscenos gestos avulsos.”

A visão trágica do poeta (“Símbolos obscuros se multiplicam. / Guerra, verdade, flores?”) deixa sempre uma margem solitária de esperança – “Ainda é tempo de viver e contar. / Certas histórias não se perderam.” Súbito, parece que o poeta via televisão naquele tempo de “cortinas pardas”: “No céu da propaganda / aves anunciam / a glória”.

Eleição à vista, sigo a intuição de Drummond:

“Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem.”

 Cristovão Tezza
Fonte :Gazetas do Povo

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A cadeirinha do guardador

Como as cidades são hoje todas do automóvel, quem dirige sabe: sempre que é preciso estacionar, duas ansiedades se instalam na alma. A primeira é achar uma vaga. Não é fácil. Deixar o mastodonte refrigerado em algum lugar é tarefa difícil, e às vezes cara, se largamos o bicho num estacionamento. Quando temos sorte, a outra ansiedade é a sombra que aparece instantânea, à beira da rua disputada: o guardador de carros.


Saiba mais

Talvez nenhuma ocupação – na verdade, profissão, ainda que não regulamentada em lei, especificada em itens, ou protegida por alguma ordem legal – define tão perfeitamente a cultura e a sociedade brasileira quanto a de “guardador”. Há uma carregada simbologia naquela figura quase sempre simpática que se mantém em geral à meia distância do motorista toda vez que achamos uma vaguinha. Ele não se aproxima muito, para não nos assustar; os braços são sinalizadores de paz, o polegar erguido, que se segue à voz cordata, o tom sorridente (Uma olhadinha aí, doutor?). Ele sabe perfeitamente que exerce uma função ambígua, quase que secreta, daí o cuidado da aproximação; e também sabe que, por conclusão tácita, o motorista teme que um “não” pode ser um risco (até no sentido literal, segundo a paranoia nossa de classe média sofrida, o carrinho lustroso pago à prestação que não acaba nunca). Portanto, preferimos também circular na ambiguidade, entre legitimar o papel do guardador e repudiá-lo como algo “ilegal”. Melhor aceitar, mas com reservas, em geral mal olhando a figura, apenas fazendo um gesto rápido de concordância. Com o gesto, há implicitamente uma moeda em jogo, também não especificada. É o invólucro oficial da esmola.


Sim, a rua é um espaço público. Mas não somos alemães, suíços ou finlandeses para brandir a lei na cara de um infrator. No país do mensalão, que moral nos resta para reclamar do guardador? Mesmo porque sabemos que este “usurpador” do espaço público é pobre – na verdade, bem menos que pobre. É alguém – a idade varia de 10 a 60 anos – que não tem ou não encontrou absolutamente nada melhor a fazer senão passar 12 horas seguidas, todos os dias, olhando para os carros dos outros. Sobrou para ele a calçada, de que ele discretamente toma posse, também simbolicamente, com uma cadeira meio quebrada, um toco, um banquinho velho, com alguns sinais em torno de que ele “está ali”: uma garrafa, uma marmita, um casaco puído (como o célebre casaco na cadeira do funcionário público que só deu uma saidinha e já volta). E, como todo espaço público brasileiro, também cria, por força de leis não escritas mas muito eficientes, suas máfias, cartórios, intermediários, repassadores, quadras nobres, horários privilegiados, exploração de menores e violência.


Há dois modos de medir o país – um deles, é pela força da sétima economia do mundo; o outro é pela cadeirinha do guardador de carros na calçada da esquina.

Cristovão Tezza.
Fonte: Gazeta  do Povo

domingo, 3 de abril de 2011

O ouvinte volátil

Nunca aprendi nada ouvindo palestra. Por favor, não entendam mal: nada contra palestras, seus temas e palestrantes. Eu mesmo me tornei autor de palestras, nesta minha vida de caixeiro-viajante, o que torna a afirmação ainda mais dolorosa. O problema é que, por alguma razão genética ou cultural, psicológica, neurológica ou o que seja, não consigo me concentrar mais que alguns minutos ouvindo uma palestra. O mais grave é que essa minha desatenção mortal e irrecuperável é deflagrada qualquer que seja o tema e meu grau de interesse no assunto. “Os dez mandamentos da gerência eficaz”, por exemplo, que me atraiu quando resolvi abrir uma empresa; ou, na área de ciências religiosas, “A teoria do big-bang e a revelação da Bíblia”; ou ainda, já no meu campo específico de ação, a literatura, palestras como “Flaubert, realismo e foco narrativo”, “Epistemologia da morte do autor”, ou algo mais simples e direto, como “Panorama sintético da poesia pós-moderna”, todas essas palestras vivas e interessantes acabam já em oito ou dez minutos perdendo os vínculos entre uma sentença e outra, criando vácuos de sentido, amnésias imediatas do que eu acabei de ouvir, como relâmpagos vazios – e no mesmo instante quero me lembrar se realmente tranquei a porta de casa com a chave ao sair (fecho os olhos e tento ver a imagem passada), qual o prazo final da entrega do imposto de renda, e, na luta por voltar à palestra, especulo se aquele careca da terceira fila vai enfim perceber – olhos pregados no palestrante – que a moça atrasada e aflita, em pé ao seu lado, elegante com seu vestido azul, precisa passar por ele para chegar ao lugar vazio adiante.



Quando consigo retornar à palestra, agarrando o fio da meada, tudo já é definitivamente grego. Ainda resisto alguns minutos, catando pedaços de frase, alusões, fragmentos, referências soltas até que, desistindo de vez, largo a corda já rota do evento e naufrago à deriva de meus pensamentos avulsos. Só me resta divagar, mantendo a calma, e deixar o tempo correr, boiando e seguindo a lei inexorável de que toda palestra, por mais longa que pareça, numa hora chega ao fim.



A ideia de que eu sofreria de alguma síndrome de desconcentração crônica, que às vezes me ocorre, é desmentida todos os dias pelo fato de que passo três ou quatro horas lendo, absolutamente atento a cada palavra impressa, esquecido de que existe um mundo em torno. Durante a leitura, esqueço de fazer um lanche e mal ouço o telefone tocar. O que o ouvido tem de relapso, os olhos têm de atenção. Isso me levou a matutar uma inovação tecnológica que me devolvesse enfim o prazer de ouvir palestras: o uso de legendas em 3D, como no cinema. Enquanto o palestrante falasse, eu leria as legendas flutuantes no palco. Mas é pouco provável que inventem algo assim só para satisfazer dois ou três distraídos.

Cristovão Tezza.
Fonte :Gazeta do Povo.29/03/2011

sábado, 2 de abril de 2011

Um país em ruínas

Há algo de atávico na nostalgia rural – nós amamos a ideia de que o campo permitiria uma vida mais “humana”, ainda que no terceiro dia de experiência já dê saudades da internet na veia e do saboroso inferno urbano


A bruxa está solta – terremoto seguido de tsunami no Japão, com o fantasma nuclear soltando fumaça, e chuvas torrenciais por aqui, levando casas, pontes, estradas e vidas. Entre a natureza e a civilização, os bípedes implumes corremos de um lado a outro, no desespero de repor a ordem do mundo e voltar em segurança à rotina. Para dar algum sentido às coisas, há quem busque explicações transcendentes para a tragédia – castigo divino, conspiração dos astros, o peso do destino. Já eu prefiro ficar com os pés na terra, que, dizem, por aqui não treme, ainda que desça o morro com as águas. Nessas situações, vê-se o melhor e o pior – a solidariedade comunitária de um lado, a precariedade das obras, de outro. E a clássica inoperância do Estado brasileiro, com seus bolsões de eficiência agindo mais pela vontade firme de pessoas e comandos do que pelo azeitamento da máquina. Minha sensação, entretanto, é de viver sempre em um país em ruínas – parece que, ao mínimo aperto, nada funciona.


Há uma semana tive de ir de carro a Florianópolis, o que por sorte consegui fazer sem problemas, num dia de estrada liberada; já a volta levou nove horas. Todas as opções de chegar aqui, sempre através da BR-116, eram ruins. A recomendada pela Polícia Rodoviária era muito extensa, mas passava por rodovias maiores e pavimentadas. Preferi me aventurar com um GPS recém-adquirido (não resisto a uma boa traquitana) pelo interior, com suas estradinhas, vacas e bananeiras – de Blu­­­menau, avancei por Indaial, Itaiópolis e Doutor Pedrinho, onde almocei e de onde saí do conforto pegando uns 50 quilômetros de estrada de terra. Foi a melhor parte: silêncio, cavalinhos no campo, hortências à margem, casas perdidas, igrejas, lugarejos e quando muito um ônibus escolar aqui e ali. Por felicidade, o tempo estava bom. Há algo de atávico na nostalgia rural – nós amamos a ideia de que o campo permitiria uma vida mais “humana”, ainda que no terceiro dia de experiência já dê saudades da internet na veia e do saboroso inferno urbano.


Passado o interlúdio sertanejo, em que, desviando dos buracos e fazendo curvas suaves, sonhei uma vida paralela que jamais vou viver, criando galinhas e contemplando araucárias da varanda de madeira pintadinha de amarelo, fui despejado brutalmente na BR-116, onde avancei a passos de cágado espremido entre duas carretas, durante horas. O Brasil inteiro passava pelo mesmo funil naquele triste fim de tarde. Lembrei que, meio século atrás, vim criança para Curitiba exatamente na mesma estrada, então a orgulhosa BR-2, o primeiro asfalto que unia o Sul do Brasil, nos brilhantes anos de JK. Cinquenta anos depois, a estrada continua exatamente a mesma, de mão dupla, com o mesmo traçado, camada sobre camada de licitações e asfalto – e nessa tarde de março de 2011 prosseguia sendo a única opção. A diferença é que agora tem pedágio.

Cristovão Tezza
Fonte: Gazeta do Povo

terça-feira, 29 de março de 2011

Leituras de desempregado

Uma das delícias da minha vida de autoaposentado é ler a pilha de livros que há anos aqui em casa esperam um tempo livre. O tempo continua curto, mas já consigo administrá-lo melhor. Agora encarei um conjunto de obras do historiador Eric Hobsbawm. Comecei por A era das revoluções, em torno do eixo da revolução industrial e da revolução francesa, e avancei ao segundo volume, A era do capital (1848-1875), o momento em que a emergência do dinheiro enfim globalizou a Terra. Praticamente tudo que acontece no mundo hoje tem suas raízes na expansão do capital do século 19.



Hobsbawm, de quem já se disse ser um “marxista atávico”, é antes de tudo um narrador maravilhoso que amarra pontas econômicas, sociais e culturais de modo a dar um sentido possível ao caos dos fatos que se amontoam na história. Com ironia inglesa, começa o livro advertindo-nos de que ele odeia o período de que vai falar, a ascensão do capital – e aqui o “atávico” faz sentido. Ao mesmo tempo, tudo que define a civilização ocidental, do fim da escravidão ao advento do iPad, ao fim e ao cabo derivaram da máquina do capital – o lado “bom”, se é que há bondade nessa história. De terrível, a expansão imperial do Ocidente, cuja infinita superioridade tecnológica funcionou como um trator aonde quer que chegasse.



Por acaso, esbarrei no capítulo “Perdedores”, em que o Egito é citado, ao lado da China: “Ambos eram Estados independentes com base em antigas civilizações numa cultura não europeia, minados pela penetração do comércio e das finanças ocidentais (...) e sem capacidade pra resistir às forças militares e navais do Ocidente”. Em consequência, os governos locais “começaram a se desintegrar diante do impacto ocidental”. No século 19, não havia opção senão ficar sob controle direto ou indireto dos conquistadores. O próprio Hobsbawm nasceu no Egito, em 1917, fazendo dele mesmo a prova viva de sua tese.

O problema (e para o capital, tratava-se de “solução”) é que a ocidentalização exerce um fascínio que transforma para sempre o povo conquistado, dos espelhinhos distribuídos aos índios, no século 16, às metralhadores contrabandeadas para facções africanas, no século 20. A passagem cultural para o Ocidente costuma ser um pacote completo e uma viagem sem volta – o que eventualmente derruba ditaduras e arma o milenarismo religioso.



Se os 30 anos de Mubarak estabilizaram a dependência mútua da ditadura e do Ocidente, a revolução das ruas que explode agora pode ser vista, novamente, como um mundo que se desintegra pelo mesmo impacto ocidental – agora da internet, da revolução da informação, da distância entre uma estrutura obsoleta de poder e as exigências irreversíveis dos novos tempos. Sim, há a sombra política da Irmandade Muçulmana, mas não parece claro ainda que ela vá repetir no Egito a regressão iraniana que se seguiu à queda do Xá.

Cristovão Tezza.
Fonte: Gazeta do Povo 08/02/2011

Educação pelo cinema

É difícil medir qual o grau de influência que o cinema exerce hoje na nossa vida. Certamente é bastante, mas já repartindo a sua presença com a televisão e com a internet, num liquidificador de imagens, linguagens e valores. Filtrado por esses meios, o cinema ganha outra natureza, mais fragmentária, tornando-se uma arte de consumo caseiro, “individual”. E o advento da tecnologia em 3D indica a direção de uma indústria que tenta recuperar o seu terreno mais pelo fascínio dos efeitos que por eventuais conteúdos. A relação do espectador com a imagem mudou em substância, perdendo o ritual coletivo de um mundo ainda comunitariamente estável. Não sabemos se e quando a revolução atual se estabilizará em algum ponto; estamos exatamente no centro de uma mudança.

para os que cresceram e se tornaram adultos entre 1940 e 1980, o cinema foi uma presença hegemônica que definiu padrões de estética, ideologias, modas, comportamentos, propaganda, linguagem – tudo foi tocado por ele. E era um fenômeno profundamente comunitário. A ida ao cinema era um ritual socializante que acontecia no espaço público da rua. Ao mesmo tempo, o cinema nos transformava a todos, digamos, em “intelectuais”. Poucos leem um livro até o fim, mas qualquer um consegue ver um filme e dizer o que achou. À parte o entretenimento que sustentava a indústria, bons filmes (e sempre havia bons filmes) eram estimulantes. Discutia-se desde o comportamento dos personagens até a insidiosa “propaganda americana”; em outras rodas, a ousadia estética do diretor, ou a estonteante nudez de Brigitte Bardot implodindo a tradicional família cristã. (Sim, sou do tempo em que mulheres nuas eram um escândalo.)

Na virada dos anos 70, em torno da Boca Maldita, que eu frequentava adolescente ouvindo conversa de gente grande, havia os cines Avenida, Ópera, Rívoli, São João, Arlequim, Astor, Plaza, Condor (esqueci algum?), todos a dois ou três minutos dali. Lembro de frases memoráveis que ouvi, afinando minha educação crítica: “A câmera ainda é indócil nas mãos de Antonioni” –Antonioni era um dos cineastas-cabeça obrigatórios para qualquer candidato a intelectual; outro era Godard. A vertente política era poderosa. Lembro que o filme A confissão, de Costa-Gavras, denunciando o horror stalinista, mereceu de alguém a observação de que “toda partícula da realidade é profundamente mentirosa”, na clássica dialética de justificar o injustificável. Em outro momento, o belo filme O estrangeiro, de Visconti, baseado no romance de Camus, foi aprovado com louvor.

Mais tarde, o crescimento da televisão e a nefasta cultura do shopping center, que vampiriza o espaço público das cidades, acabaram por destruir de vez o cinema de rua nos países periféricos, como o Brasil, antes mesmo que as novas tecnologias da imagem mudassem o padrão da indústria do cinema no Primeiro Mundo.

Cristovão Tezza
Fonte: Gazeta do Povo.22/02/2011

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A torneira e a água

 Uma das imagens mais antigas da minha vida foi uma torneira velha, rosqueada num pedaço de cano enferrujado, que encontrei em alguma rua da minha infância. Estava com um vizinho da mesma idade que, afinal, foi testemunha do meu projeto de engenharia. “Se a gente espetar esse cano na terra e esperar um pouco, é só abrir a torneira e vai jorrar água”. As palavras, reinvento-as agora, mas a ideia era essa. Uma lógica afinal irretocável, fruto da atenta observação de muitas torneiras em muitos quintais, brotando da terra como apoio de um cano – todas funcionando. Por que a minha não funcionaria?
Era preciso escolher bem o lugar, de terra mais fofa, para facilitar a implantação daquele breve aparelho, e de tanto procurar acabei voltando para casa, com a assessoria do vizinho, tão ansioso quanto eu para comprovar a tese. Era mesmo uma euforia – uma torneira pessoal, com água à vontade, para criar uma usina particular, encher baldes de plástico, fazer lama, barro e – diriam as mães – emporcalhar o mundo.
Nos fundos de casa, o melhor ponto, decidi, seria próximo da parede para que ninguém tropeçasse na torneira. A terra seca ali – inútil tentar abrir um buraco com as unhas, mas tentamos.
– Tem de enterrar muito fundo? – o vizinho perguntou, olhando as unhas sujas.
– Assim assim – expliquei com um gesto vago das mãos para manter o comando técnico da operação. Mas também percebi que, com os dedos, o trabalho seria difícil. Em dois minutos encontrei uma faca velha e me pus a cavoucar o buraco, sob o olhar atento do vizinho aprendiz. Hoje divago se a atenção se devia à dúvida de que a torneira funcionasse ou se pela ansiedade de um milagre próximo, simples, funcional e lógico.
Buraco pronto e razoavelmente profundo, espetei o cano com capricho. O vizinho encheu a folga com terra e pressionou-a bem em torno do cano para deixar a obra firme e segura. Era hora de abrir a torneira, o que fiz com parcimônia e certa solenidade, talvez preocupado com os respingos do jorro d’água.
Nada. Ficamos contemplando a torneira aberta e cheia de vento durante alguns segundos, cabecinhas fervendo atrás de uma boa explicação. Senti a condescendência generosa do vizinho diante do fracasso que, agora, era inteiramente meu: “Talvez precise esperar um pouco para a água subir”. Desconfiei de que ele sorria. Fechei e abri de novo a torneira, mas não pensava mais na água – apenas na profunda injustiça de que eu estava sendo vítima.
Mais de meio século depois, relembro o episódio para me assegurar de que, de fato, nunca fui precoce. Tento lembrar em que momento da infância Jean Piaget localiza o estalo abstrato capaz de entender a relação entre a água e a torneira, só para saber se meu atraso era grande. Não importa – passei o resto da vida espetando canos na terra para ver se jorrava água. Dizem que às vezes dá certo.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo21/12/2010 |

quinta-feira, 22 de julho de 2010

De volta a vida real

Depois da Copa, começo enfim a voltar à vida real. Achei que foi uma copinha meio sem-vergonha, quase sempre retrancada e sem graça. Mas já circula o logotipo da Copa 2014, para felicidade dos cartunistas. Criaram a estética do realismo socialista brasileiro, a pátria amada cheia de mãos no jarro, tudo em verde e amarelo. Parece que vamos continuar com o mesmo assunto por muito tempo.


 O Irã, por exemplo, determinou o corte oficial dos cabelos no país – todo mundo tem de cortar o ca­­belo de acordo com o padrão de Estado, que seria supostamente o da religião. A barba continua livre; parece que em muitos casos ela é até mesmo obrigatória. Assim, um jovem iraniano que queira exercer o sagrado direito de protestar, deve cortar a barba e deixar o cabelo crescer. Nos meus saudosos anos 70, o cabelo comprido era uniforme obrigatório da contestação, com a moldura da barba, tudo sem aparar, na­­quele jeito maldormido dos rebeldes com e sem causa. A barba não tirei até hoje, mas agora sem ideologia – é preguiça mesmo. A ideia de o Estado controlar também o corte do cabelo até que seria boa para mim – não teria de explicar penosamente ao ca­­be­­leireiro como resolver esse ralo matagal que me cobre a cabeça, naquele sofrimento a que me submeto, por insistência da fa­­mília, todo semestre. Com um mo­­delo obrigatório de cabelo, o problema estaria automaticamente resolvido, já que tento ser um cidadão obediente.

Mas, no Irã, o risco da desobedecer à lei é maior do que aqui; eles não estão brincando. Por exemplo: enquanto o Brasil aprovou a lei do divórcio automático – basta a concordância mútua dos cônjuges e o contrato está desfeito, porque ninguém tem nada a ver com a vida dos outros –, o Estado iraniano condena à pena de morte por apedrejamento (assim mesmo) a mulher que pratica adultério. Pobre madame Bovary, a célebre personagem de Gustave Flaubert, proibida de circular na França do século 19 por atentado ao pudor e aos bons costumes! Eles ficaram tão traumatizados com a condenação de ma­­dame Bovary que hoje proíbem o uso público da burca, no me­­lhor estilo francês: mulher tem de aparecer!

Mas as coisas estão melhorando. Leio na Gazeta que a iraniana Sakineh Ashtiani, acusada de manter “relações ilícitas”, teve a pena de morte por apedrejamento suspensa, depois de uma gritaria mundial. In­­felizmente ela não escapou de receber as “99 chicotadas” preliminares pelo seu crime. Fiquei matutando: por que “99”? Se não fosse trágico, lembraria a pergunta retórica de Borges: por que a obra-prima da literatura oriental se refere a “1001 noites”, e não simplesmente mil, ou novecentas, ou mil e cem? A comparação talvez não seja tão absurda – na verdade, trata-se do mundo vivido sob o pensamento mágico, que, trans­­posto à vida real, às vezes resulta em tragédia.


Cristovão Tezza.
Fonte:Gazeta do Povo 22/07/2010