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sábado, 9 de janeiro de 2016

DANÇA DO VENTRE


Torva, febril, torcicolosamente,
numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.
Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.
O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!

[Cruz e Sousa]

sábado, 13 de setembro de 2014

"Alta, alta e negra, de urna quase gigantesca altura, torso direito e forte, retesada na espinha dorsal como rígido sabre de guerra; colo erguido de ave pernalta, aprumado, gargalado e toroso; longos braços roliços, vigorosos, caídos, como extensas garras de falcão, ao amplo dos quadris abundantes e de linhas serenas, esculturais, de soberana estátua de mármore, — semelhas bem uma noturna e carnívora planta bárbara, ardente e venenosa da Núbia." 
(Cruz e Souza)

domingo, 30 de setembro de 2012

O ASSINALADO



tu és o louco da imortal loucura,
o louco da loucura mais suprema,
a Terra é sempre tua negra algema,
prende-te nela a extrema desventura.

mas essa mesma algema de amargura
mas essa mesma desventura extrema
faz que tua alma suplicando gema
e rebente em estrelas de ternura.

tu és o poeta, o grande assinalado
que povoas o mundo despovoado,
de belezas eternas, pouco a pouco.

na natureza prodigiosa e rica,
toda a audácia dos nervos justifica
os teus espasmos imortais de louco!

 cruz e souza, antonio thadeu wojciechowski e bárbara kichner