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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A Ordem

Como o torvelinho da noite tinha terminado de triturar o fio do sentido daqueles dias loucos , como tudo isso era fato que ninguém mais podia contestar , digo que eu estava ali, simplesmente lavando minhas mãos . No início veio a ordem para que evacuássemos  do ponto . Que atravessássemos o mato , depois o mangue . E que alcançássemos o outro lado do amanhecer . Era uma praia . Ali deveríamos esperar a barca que nos levaria para onde ninguém mais sabia o nome , se é que a mensagem se referia ao nome de algum destino. Sei que naquele ponto eu lavava as mãos no mar . E que na areia um peixe se oferecia a uma gaivota que descia lenta . Um dos homens me pediu alguma coisa, esfaimado. Antes que eu entendesse , tirei meu disfarce e disse : " É teu ."

João Gilberto Noll. in Relâmpagos. ; FSP. 19/06/00

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Os afazeres

Começava a perceber a razão de qualquer atividade . Não era a única maneira de se afastar de si ? O gato não precisava disso : podia viver pelos cantos , indiferente ao mais .Antes que o levassem para o quarto austero, só sabia rondar feito o bichano, submerso numa aparência que não se lembrava de ter visto em algum lugar . Agora estava ali , desenhando uma coisa parecendo uma gaze , por horas , até o momento do chá . Bebeu-o , a mão esquerda nos traços ainda quentes. Olhou pela janela do pátio . Uma bola parada. Desceu para encontrá-la . Pegou-a . Mirou.Fechou os olhos e a jogou. Atrás de uma coluna , um surdo impacto : alguém a conteve no peito e ali ficou. Voltou para o quarto. Fez do lençol um manto. Das bordas de pia , uma balaustrada. E se extasiou...!

João Gilberto Noll. in Relâmpagos. FSP 120201

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Expansão

Tirou a atadura para olhar o corte.Viu os pontos pela primeira vez.Tinha de resolver sozinho o jeito de continuar ferido.Não adiantava vir o enfermeiro ou quem quer que fosse.Todo o resto dependia só dele. Precisava forçar um limite, urgia agora saber qual.Tentou sentar na cama, nada lhe doía.Conseguiu..Pendurou as pernas,balançou-as feito criança satisfeita.Tateou os lábios da cicatriz.Anoitecia.Era  a sua única oportunidade. O momento em que todos se afastavam , deixando o quarto ma penumbra e uma ânsia de desbravar certos confins que seus passos agora confirmavam.Caminhou indiferente à dor.Surpreendeu a chama ao pé da imagem. Foi ali e a apagou. Ouviu um gemido. Mais outro.Acariciou o talho, aí avançou - bolinou o escuro. E gozou.

João Gilberto Noll. in Relâmpagos.FSP 10/09/2001

domingo, 19 de janeiro de 2014

Fulminante

"A vizinha, sabe? O porteiro foi lhe entregar o jornal queixando-se de um mal jeito no pulso.Sentaram no sofá. Ela passou no local uma pomada - o rapaz deitando o corte zero no colo da moça , dizem que mordendo de dor a barra de seu  penhoar ."Conta o homem da quitanda .Pede para a filha cuidar do balcão. Puxa-me até a cozinha, lá atrás.Tanta coisa!: frituras que sua mulher me instiga a provar; porteiro fanho  lamuriando-se entre as frutas da calçada; solo manjado de guitarra por perto... Sem mais!, silêncio e breu... Dou pela falta de tudo.O velho zunido do ouvido parece resistir. Não ?Olha..."E você, sim;quem mais haveria de ser?", penso em perguntar a seco, até sacar o tamanho da enrascada. Pois cadê a voz?

João Gilberto Noll. in "Relâmpagos ".FSP,19/10/04

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pampa

Quando tomei o avião, senti que estava perdendo alguém. Não sabia se era morte. Ou se a pessoa simplesmente teria se apartado, emfim. Deixei para descobrir quando chegasse. O minuano me recebeu com fúria tão incalculável que resolvi me suspender no sono do hotel. Acordei encharcado do meu suor de viciada sentinela . O ar agora estagnado . Eu, pronto para ouvir o silêncio o nome de quem se extraviara. Ouvi o quero -quero .Levantei, corri atrás da voz de aço.Eu me desvencilhava de mim . Na planície, só aquele voo raso defendendo o ninho, aos gritos.

João Gilberto Noll

in" Relâmpagos".FSP 22/11/1999

domingo, 5 de janeiro de 2014

Varões

Quando vi a árvore ser abatida pelo minuano, aconteceu de eu também ser arrancado do meu comando cerebral.Não esperava que a coisa fosse chegar ao ponto de , no blecaute da rua, eu parar diante de um desconhecido e golpeá-lo sem dó.Por que, ao sangrar,ele sorria como se eu lhe desse o melhor?Quebrei com o pé seus dentes perolados.Ele engolia ou, mais,bebia o sangue,parecendo perverter seu conteúdo...Abandono-o na lama e me apresso até o bar iluminado por uma vela que deixa minha mão tão esmaecida que com ela não tenho como abarcar o corpo ou qualquer coisa que eu possa triturar ou engolir com esse rum ali num trago só.Cai-me a mão,caio atrás...À espera de que o homem que feri entre no bar e me leve pra qualquer lugar.

João Gilberto Noll.in Relâmpagos .FSP081001

Cetim

Não apenas um vento,mais, uma truculenta massa de ar com seu rugido vergastando cabeleiras e copas.Pois era um dia assim. E eu ia me casar. meu vestido de noiva sobre a cama.Minha mãe que entrava já arquitetando me despir, arrumar. Quando pousou a mão na minha pele nua mais que branca, pálida , me senti desmoronar.Acordei na enfermaria.Minha mãe me dando colheradas de uma sopa rara."Por quem cismei?",refleti."Por quem ardi, chorei?Encostei a boca na laranja descascada.Esqueci de mordê-la.Batom na fruta."Olha, pintaram meus lábios!- para quem ?"

João Gilberto Noll.in Relâmpagos. FSP 140200

Folguedos

Ficava em euforia ao encontrar a cerca meio torta,torta a ponto de cair, inútil,indecorosa.À beira da estrada que não leva a nada, defronte ao vermelhão por onde vôos deslizavam em retirada.Euforia não pelas asas do poente , era acerca que o fazia rir em sincronia com as ondas que vinham lá de onde guardava o tal consolo- acima,logo acima do esôfago. Doido esse calor descendo ao diafragma e dali irradiando-se todo em chamas.Ajoelhava-se diante da cerca de arames, concluindo-se numa inclinação matreira.Via, pelo rabo dos olhos,num lampejo nas farpas da cerca protetora do terreno pedregoso.Essas terras seriam devolutas?
Ele bem que as merecia.Ah...!, o vapor de junho a sair da boca.As palavras tiritantes, murchas.O silêncio, o sono...

João Gilberto Noll .in Relâmpagos. FSP 050401

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Altar lateral

Era ali que eu ia descansar.Via o santo das chagas.O cachorro a lhe lamber a perna.Pupilas reviradas para o alto.Expressão, aliás, digna de aluviões cósmicos, nada repousante. Percebi que um cachorro me seguia. Chamei-lhe a atenção para o bicho ali de cima- um santo, de tão familiarizado com a imobilidade do retábulo.Me apatetei um segundo, meio à espera das núpcias do vira-lata resfolegante com os céus..Seria bom se ele me seguisse por um tempo. Ainda mas agora que eu ia tentar a vida em outros pagos.O animal latiu."Que quê há ?", perguntei e tossi.

João Gilberto Noll in Relâmpagos.FSP 06/04/00

domingo, 19 de junho de 2011

Família

Ele estava ali, algemado, como se alheio à situação. Só mesmo eu o conhecia de outra data. O que teria feito?Um policial á paisana segurando seu braço, a chacrinha da calçada em volta , e eu ali, entre me apresentar para conhecê-lo publicamente ou me mandar. Afastei-me, entrei num  boteco. A imagem dele não saia da cabeça. Uma mulher parou a meu lado,pediu um café.Olhei-a,pincelava o lábio com a língua. Fomos para um hotel. Tirei a calça e a estendi de lado lado na cadeira. a mulher na cama, já roncava !Nu, sentei no travesseiro. deixei-a roncar, para que eu pudesse saber, no noticiário de rádio da madrugada, o destino do meu irmão.Suspendi a mão, quase toquei-a, mas a mão voltou me socando acelerada, mais e mais,  até me aliviar...

João Gilberto Noll.in "Relâmpagos "

terça-feira, 12 de abril de 2011

Centro da Cidade

Precisava descobrir como arrancar a corrente de ferro do meu tornozelo. Falei que ia no consultório da doutora Vera. "Ah" , o porteiro respondeu sem me olhar. A sala de espera, vazia. Sentei, olhei o inchaço do pé acorrentado. Peguei uma revista despedaçada, adormeci. Passou-se muito tempo, acho, porque uma parte de mim batia de noite numa porta, cães ladravam, certamente atiçados pelo meu miasma de terror. Eu batia, batia, até uma ventania levar o meu chapéu. Debruçada sobre meu ronco, me acordando, sim, a doutora, em seu jaleco meio aberto, entremostrava seios nos quais fui de pronto para fugir dos cães. no desvairado regalo, ouvia um arrastar dos grilhões. Que jeito?, eu vinha de séculos, e só agora encontrava uma, ah! , uma taverna, enfim...

João Gilberto Noll. in "Relâmpagos" 

domingo, 27 de março de 2011

Estudante

Ele não queria soluções domésticas: sofá, porta para o quarto, depois o sono, mais nada. Preferia sondar a extremidade púrpura de um surto de abismo. De fato, sua cabeça, como se à beira de um penhasco, pendia sobre a taça só com os sedimentos do vinho. O garçom martelando que a casa ia fechar...Mas o que ele queria para além de estar ali? Fez um muxoxo, pediu a conta .Saiu. Circulou em volta do poste ;precisava de um tempo antes de decidir. Programava fazer hora sem saber se teria alguma ocupação para depois? Um motorista de táxi o olhou como se esperasse o sinal de uma nova corrida . Elerespondeu fechando os olhos numa lassidão, até tontear...

João Gilberto Noll. in "Relâmpagos "

terça-feira, 8 de março de 2011

Mucosas

Estavas em coma aquela noite.Bati na vidraça do teu quarto esperando que me acolhesses com a lareira acesa, mas te vi na cama, com a cabeça meio para trás, lembrando vagamente a máscara mortuária de uma figura guaran; não parecias respirar, na certa tinhas bebido até cair, até chegar ao submundo mental, ao turismo pelos cemitérios de neurônios. Voltavas depois pra mim tão sem pistas, que perguntavas teu nome, tua procedência e tudo. Estavas em coma. Tanto, que quebrei o vidro com o punho e entrei. Sangrava minha mão. Vi que não havio o que fazer. Já tinhas certa lividez laqueada e só me restava te velar. Foi o que fiz? Não, não foi: deitei sobre o teu corpo e abandonei a língua na tua boca até clarear não só o dia, mas também a idéia de te incinerar.

João Gilberto Noll

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Fratura

O frio me fez desistir de entrar na fila para o show da cantora em queda triunfante."Pra onde vou?", reclamava sozinho .Vivia uma tormenta de ansiedade, queria chegar ao depois o tempo todo, o que se dava no ato me interessava cada dia assustadoramente menos. Então fui, pus-me a correr no parque glacial. E tanto que quebrei a perna . sentado numa súbita cadeira de rodas, observo o plantonista que me engessou limpando as mãos, óculos pendentes. Ali , invejei sua morna retidão. Uma fosforescência vazava do teto, baixava pela sala. Ninguém mais parecia perceber. O banho azulado me fazia esquecer...Até ele falar bem perto que eu já podia ir..."Hein?", respondi estremecendo, lançando sem querer um sumo de saliva em sua lente imaculada...

João Gilberto Noll. in Relâmpagos

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Miragens

Ele me seguia.Não era um perseguidor dos desocupados.Não, não se tratava desses que vão no encalço dos que costumam sair por aí tirando uma força do descaso , outra das artérias...Ele me seguia para farejar na moita a "andreja rotina " do meu ofício encoberto".Precisava ilustrar o que as rodas de excedentes identificavam como "verve furtiva da vadiagem".Escrevia "Arcos de Ascese", livro sobre "surdas dissidências, em apenas sete curtas rondas ".No parque Farroupilha, vi sua mancha entre ramagens.Deitei na grama."A estátua que me escondia/por pouco não se vertia/ por seu cântaro quebrado."Ouvia no radinho:"Vencer as horas/ e com tal melancolia/ é façanha de arenosa sudorese". Quem cantava já não lembro.Lembro de uns olhos fixos, calados...

João Gilberto Noll.in Relâmpagos

domingo, 14 de novembro de 2010

O passo de prata

Apoiou-se no cabo do guarda chuva para se firmar melhor. Esperava o ônibus...Já sentado, apertou a perna direita. Desceu, o guarda- chuva feito bengala. Seguia uma linha imaginária para não cair na rua vazia. Sob o subúrbio descia uma noite precoce,um prenúncio de tormenta no meio da tarde. Entrou no terreno baldio. ao longe, uma voz cantava bêbada.Sorriu,disfarçando a tentação de desistir do que fora fazer ali. Mas reagiu, arregaçou a calça e olhou a perna sem pudor, pela primeira vez a céu aberto : a engrenagem de aço, da coxa ao pé, no tom carregado do céu, logo recebeu os pingos que começavam a se alastrar.era o primeiro passeio da perna mecânica. Abriu os braços com instinto jovial. E deixou-se ficar na tempestade, convalescendo mais e mais...

João Gilberto Noll. in Relâmpagos

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Beijo na seda

Ela estava ali,à procura de uma cadeira para comprar, rondando como sempre meio tonta em busca do utensílio que a pudesse remediar a tempo, mesmo que não soubesse exatamente o que significava ser remediada a tempo-aliás, as palavras iam perdendo pouco a pouco a transparência que seu pai recomendava :"A frase deve assoprar a névoa que confunde para que possa haver verdadeiro alívio à noite: a cabeça enfim  no travesseiro,já  quase divorciada do verbo ,até que a claridade traga mais uma vez as sílabas,essas operárias das idéias,transações, freios."Num súbito,ela se sentou.De surpresa,beijou o forro adamascado do espaldar como se ela fosse um instinto sem a capa da epiderme,pura flora de nervos,voraz .Uma criança a observa com tenacidade.Feliz...

João Gilberto Noll.in Relâmpagos

Fôlegos

Antes que escurecesse, era preciso dar a caminhada.Desceu as escadas com uma gana maior do que seu corpo permitia.Parou.Se impulsionou de novo.Entre árvores do parque,vultos se procuravam afoitos, se contorciam.Ele se impôs maior velocidade, definiu o ritmo com mais precisão.Marchava incólume como um verdadeiro atleta.Notou uma mulher, já de certa idade, abraçada a um tronco.Parecia querer captar uma pulsação ilegível.Ele parou.Escolheu uma árvore .Abraçou-a.Viu que a mulher mexia os lábios.Fez o mesmo.Olhavam-se .A poucos passos um do outro.

João Gilberto Noll.in Relâmpagos 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A conquista

Ah,era tanto, e Zé em tão pouco.se começasse cedo, antes do sol, talvez pudesse dar conta de um mínimo até o fim da tarde.Mas não , até que acordasse, conseguisse se levantar, abrir o chuveiro e se levantar , abrir o chuveiro e se dispor a conquistar a urgência da manhã...Queria, sim, o que o vizinho de corredor acolhia a cada despertar feito um ultimato sabe-se lá de onde , até voltar à noite ao seu apartamento ao lado, com a carne moída para os gatos, todos em volta dele ,rabo em pé,miando como no final dos tempos.Ah, era tanto, e Zé em tão pouco. sentou-se na cama um pouco excitado, como se tivesse toda duração do mundo para se distrair com sexo.Mas agora decidiu, desceu correndo as escadas. E diante do porteiro perguntou,perguntou o quê? ,ah ,"Que dia é,hein ? ".

João Gilberto Noll. in Relâmpagos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Helena em londres

Há sempre alguém na redondeza batendo com o martelo.Um conserto,uma reforma?Sei que o som de descabelada utilidade conturba minha espera.

De um telefonema de uma filha.Está em Londres, conhecendo o homem com quem se casará em maio.Maio, sempre maio, enquanto eu aqui noto que o sol consome o tapete e que minha saia se esfarinha com o injusto martelar.Quando Elena liga, contando que tem um tarado a perseguiondo no parque de "Blow Up",sou eu que me desmancho atropelada pelos fatos.Passo meu resto na memória da pele...da gengiva.

João Gilberto Noll. in Relâmpagos