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domingo, 9 de abril de 2017

DESENCANTO


pois é meu amor
seríamos perfeitos um para o outro
mas não agora
não nesse momento
em que nossas ravinas não se bifurcam
talvez numa próxima
talvez numa outra
ou talvez mesmo nunca
mas é mesmo triste saber meu amor
que seríamos perfeitos um para o outro
quem sabe numa outra vida
ou se pegássemos agora mesmo
uma outra mesma ravina
quem sabe se comprimíssemos
o tempo que ainda temos
e latejássemos numa mesma potência
numa mesma página de livro
num mesmo poema
pois é meu amor
eu sei que é mesmo muito triste
estarmos assim apartados
de tudo aquilo que nos une
que permanece inquieto dentro de nós
sim meu amor eu juro que sei
da inutilidade completa
dessas apócrifas palavras

Flavio Castro

DO AMOR


o amor já não suspira
já não dá seus latidos definitivos
já não sopra como antes
o amor agora
já não é nem resquício do que foi um dia
entrou numa espécie de greve permanente
doente de si o amor já não fala
não aborda sua própria temática
o amor agora
é só uma prática antipática
uma dor no estômago
um falso manejo
sem toque sem sexo sem beijo
uma ode esquecida para sempre na gaveta
o amor já não senta na praça
já não molha os cabelos no chafariz
o amor agora está mesmo por um triz
não tem mesmo volta
soberbo de si
o amor está mergulhado
em sua própria revolta

Flavio Castro

segunda-feira, 25 de março de 2013

Ascese





gesto insano amplia espelho incendiado
sombra dançando na ausência
quadrilátera perspectiva
flagelo genealógico
brilho fátuo
vogal ponteaguda
inaudíveis audições
maligno suor abençoado
alegorias do verbo alquímico
dádiva maldita
cérebro crucificado
sintaxe fixa na gravidade
maresia trágica das sensações
chama tênue das velas incrédulas
acústica solidão
rastro do sol martirizado
ardente consoantes versejadas
ascensão alquímica do verbo adivinho
pegadas místicas por caminhos fabulosos


flávio castro em AUDITO (cl edições, 2009)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Casulo




espelho transfigura fisionomia
nuvens preenchem afano céu
glauco líquido cristal
finita infinitude
plúmeos badalos alados
róseocéu violetavermelhado
archote fixa crânioconcentrado

Flavio Castro


em Audito (Cl edições 2009)