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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Puta

"É triste ter que secar por dentro, é como se fossemos todos uns homens empalhados. Tapeio minha cara e ela é dura feito cara de burro arredio. Dura feito escultura de madeira, mas madeira quando infesta de cupim fica fofa, desmancha com um sopro, a minha danou a desmanchar." 
Márcia Barbieri 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Puta

"Um dia ele se injuriou, enxugou o chão com a língua, tomou urina, comeu as próprias fezes, raspou o casco que tomava a superfície da sua pele, cavou um pouco mais o fosso, procurou água, matou os bichos que se escondiam nos cantos, removeu o limbo das paredes, arrancou as unhas encravadas com os dentes, gravou os dentes nas minhas costas, não se conteve, engordou, alargou os ombros, esticou o pau, eles mal cabiam na pequena latrina. Limpou a ferrugem, cuspiu pro lado de dentro da boca, não mais no meu sexo, destrancou a porta e se foi. Soltei um último gemido, não mais de prazer, embora me masturbasse enquanto ele partia, pois tinha me acostumado ao amor fácil."
Márcia Barbieri

terça-feira, 2 de julho de 2013

A Puta



"Quando não aguentava, tirava o espelho do prego e colocava um pouco de pó e aspirava. A cocaína me proporcionava uma agilidade e uma força mental que poucos possuíam. Em seguida rodava por horas, gritava e respondia meu próprio eco. Depois colocava o espelho entre as coxas e minha mão entre as coxas e o espelho. Costumava brincar de multidão. Todos os fantasmas aparecem quando a solidão assola embaixo das nossas unhas. As micoses desaparecem."
Marcia Barbieri



segunda-feira, 13 de maio de 2013

A puta


Marcia Barbieri

"A minha vida inteira fui atravessada pelo arpão duro do homem, no entanto, nenhum foi capaz de me penetrar, talvez o poeta e o filósofo tenham chegado perto, mas desvirtuaram no final, foram fisgados por outras urgências. E eu continuei como um peixe engasgado no próprio riso." 


segunda-feira, 18 de março de 2013

O umbigo de Deus


"Eu não era, porém o réptil amarelo soprou em minha boca e eu inflei. Rodopiei sobre meu eixo e descobri meus seios. Deitei na cama do meu carrasco, ele me convenceu que os orifícios-estigmas que eu trazia não eram regiões abissais, mas fontes de um prazer supremo. Abri a boca e o deixei tocar na campainha que tremia com qualquer grunhido. Conduzi suas mãos entre minhas pernas e ele massageou a úvula acima dos pequenos lábios." (do conto 'O umbigo de Deus')
Márcia Barbieri

sábado, 20 de outubro de 2012



‎"Ele sentava na pedra, ao lado da vasta carcaça, e comia a cabeça dos peixes grandes. Apenas dos peixes de tamanhos consideráveis, os outros ele despejava novamente no mar, como se não merecesse o privilégio de suas mordidas. Eu o observava soturna, distante, enquanto o cérebro daqueles animais eram aniquilados e os seus corpos, intactos, iam se amontoando à beira da água. Eu tinha a impressão que se ele continuasse ali por mais uma hora, todos os animais seriam extintos e o mar se transformaria num grande cardume morto." (A puta)
 
 
Márcia Barbieri

sábado, 22 de setembro de 2012

‎"Como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as portas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime? Ela falou que eu era fraco, por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava, eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus, o meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro." (conto Gênese) Márcia Barbieri

sábado, 15 de setembro de 2012



"Nunca gostei de dormir com filósofos. Entre uma foda e outra metafísica furada. Ôntico. Olho pro céu e conta as estrias da lua. Pede desculpas pelo prazer que não me deu. Sou bicho, é só isso que quero ser, não tente me tornar menos animalesca. O cão come a própria merda, e isso é ele, é seu instinto de cão. Minha pele fede a sexo naïf. Não tente explicar um prazer furtado para uma cadela. A língua daquele filósofo filho da puta não é capaz de me proporcionar orgasmos. Ao contrário, sua língua densa me entristece me empurra pra fora do mundo e me rotula de mulher pública. Minha vagina um buraco negro, uma anti-matéria, um nada ancestral." 
(A puta)
 Márcia Barbieri