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sexta-feira, 14 de abril de 2017

LENHA NA FOGUEIRA


(ou FOGO DE PALHA)

Cadê aquela ‘gente das panelas’
das ‘camisas amarelas’
que clamavam por ‘Justiça’?
Acaso resolveram-se as mazelas
as quizilas, as querelas?
(ou a ‘massa’ fez-se omissa) ?
Pra onde foram tantos tagarelas
(todos aqueles e aquelas)
Entregaram-se a preguiça?
E o povo das ‘senzalas’, das ‘favelas’???
Cadê os Lampiões, os Marighelas???
Aonde estão, meu Deus? Foram à missa?

Verteu-se num silêncio angustiante
‘’de um povo heroico o brado retumbante’’?
O mal enfim venceu . . . pela insistência?
Tornou a ser anão o tal ‘Gigante’?
O pouco que fizeram . . . foi bastante?
A exclamação tornou-se reticência?
E as indignações contagiantes
dos ‘cidadãos de bem’, ‘manifestantes’?
Renderam-se a uma ‘santa paciência’?
Padecem de impotência os replicantes?
São ‘fulos sob efeito de calmantes’?
(ou TODOS . . . padecemos de demência)?


PAULO MIRANDA BARRETO

sábado, 19 de novembro de 2016

SÁBIO INÁBIL


Não passo de um sábio inábil
que ,por amor, beija livros
e que, por vício, lê lábios
o meu rigor é frágil, torto, débil
-trapezista enviesado
ousando equilíbrios ébrios-

sou onça desengonçada
fingindo desenvolturas
com as patas fraturadas
garça de asas esgarçadas
que nunca alcança as alturas. . .
e arrasta-se sobre nadas
malabarista de letras
desastrado extraio versos
da tinta dessas canetas
aleijando borboletas. . .
colecionando insucessos. . .
e pondo sóis . . . em gavetas
se ainda faço poesia
‘como manda o figurino’
meu bem . . . é por teimosia
talvez, quem sabe, algum dia
eu me enxergue . . . pequenino. . .
e perca essa má mania.

PAULO MIRANDA BARRETO

CANTIGA DE UM AMOR ITINERANTE


o Sol não sai
do céu
nem quando é noite. . .
meu bem não sai
de mim
nem quando vai
lá pra Dubai
Dublin
Belo Horizonte
Londrina
Tocantins
ou Paraguai. . .
amor presente
ausente
itinerante
viajante
intermitente. . .
ai, ai, ai !
ele se vai
pra outro
continente
fica distante
e mesmo assim
não sai
de mim . . . vai a Pequim
Rússia
e Nigéria
de Bali
pra Sibéria
e Bombaim
da China
pro Peru
ou pra Bruxelas
e de Cabul
pra
Quixeramobim
sai de Xangai
e vai
à Normandia
dorme em Cotia
acorda
no Uruguai
almoça
em Istambul
janta na Hungria
de Aracaju
se manda
pra La Paz
passa em Berlim
me compra
alguns postais
me liga de Cascais
diz que está
bem. . .
que tem saudade
e pensa em mim
demais. . .
mas inda vai
ao Congo
e mais além
ao Cairo, ao Equador. . .
Madri
também. . .
depois torna á Belém
e (até
que enfim)
volta pra mim
no fim do mês
que vem. . .
se não tiver
que ir
á Medellín
e eu. . .
que até aqui
sobrevivi
suspiro aliviada
e digo
amém
como se ele
estivesse
logo ali. . .
a três
ou quatro quarteirões
daqui
já prestes
a chegar.
Sonhar
faz bem. . .

PAULO MIRANDA BARRETO

sábado, 5 de novembro de 2016

OUTRO AUTORRETRATO (TORTO E ABSTRATO)


passo perto de estar certo
tateio o teto e dilato
o tato, o anseio do afeto
até ser torto de fato
e me abato e me arrebato
me debato á céu aberto
meio anjo, meio inseto
até ser torto de fato
morte é avesso de parto!
cadáver é quase feto!
passo longe de estar perto
e, certo de estar, eu parto
pelo caminho incorreto
com bom senso de insensato. . .
eu sonho alto . . . e desperto
torto, num autorretrato.

PAULO MIRANDA BARRETO

PENUMBRAS


Varo escuro
a noite em claro
e não quero o que prefiro. . .
Desencontro o que procuro
porque lúcido deliro
Meu moderado exagero
erra o alvo em que não miro. . .
De esperança desespero
e com esmero me atiro
num labirinto sincero
que minto enquanto respiro

Sou nada . . . Parto do zero
e no final sou vampiro
de mim mesmo . . . falso e vero
porque lúcido deliro
E áspero me exaspero
na inspiração que transpiro
e pela qual pago caro
pois que ao avesso me viro
para ser menos que um mero
fingidor . . . e assim me firo
indo acolá do que espero
sem querer o que prefiro
E demoro e me admiro
morando fora de mim
seguindo, cego e seguro
para o início do meu fim
Já se passa por futuro
meu passado . . . e sendo assim
tanto faz se passo apuro
ou se sou feliz, enfim
Entre o sim e o não, um muro. . .
Sobre o muro um Serafim
Sombras, penumbras murmuro
e insano . . . acendo o estopim.

PAULO MIRANDA BARRETO

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A DANADA


Ela
nada
á ver
navios
naufragados
mergulhada
em desvarios
variados
no calor
de calafrios
acalorados
ela nada
e nada
pode lhe parar. . .
ela nada
dada
ao gosto de nadar
a danada
nada
e nada . . . enquanto há mar
nada, nada, nada
pode lhe afogar. . .
nem a mágoa
nem a água
nem amar!

PAULO MIRANDA BARRETO

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

MEIO AMARGO


Vivo a ver navios . . . não vejo novelas
Cansei daquelas velhas novidades
que fingem luz do Sol á luz de velas
sobre a superfície das profundidades. . .
Nessa solidão cercada de cidades
que furtam toda a cor das aquarelas
os meus arcos-íris são atrocidades
ferindo o céu das tardes amarelas
que amareladas . . . morrem de saudades
dos tempos em que as vidas eram belas
de quando não doíam as verdades
e nem haviam grades nas janelas. . .
Também tenho saudades, como elas
mas, anoiteço antes dessas tardes
e a ver navios, encho-me de estrelas
que caem do céu . . . cheirando a tempestades.



PAULO MIRANDA BARRETO

domingo, 26 de junho de 2016

SOFISMA PARA INSENSATOS


cabeça:
coisa que pensa.
coração:
coisa que pulsa.
corpo:
coisa que padece.
alma:
coisa que só Deus.
cabeça:
coisa que quebra.
coração:
coisa que parte.
corpo :
coisa que se culpa.
alma:
coisa que só Deus.
cabeça:
pensa que quebra.
coração:
pulsa e se parte.
corpo:
padece de culpa.
alma:
que coisa! Só Deus!
corpo que cai
de cabeça.
coração de corpo
e alma.
deus:
alma sem coração?
coisa sem pé
nem cabeça?
cabeça:
coisa que culpa.
coração:
quebra-cabeça.
alma:
coisa que padece.
corpo:
coisa que só Deus.
coração:
coisa que para.
cabeça:
coisa que pira.
corpo:
coisa que transpira.
alma:
mentira de Deus?

PAULO MIRANDA BARRETO

domingo, 19 de junho de 2016

POR QUE VOCÊ ESCREVE POESIA?


escrevo porque preciso decifrar-me em silhuetas
consolar flores que piso enquanto danço indeciso
exorcizar os demônios que habitam minhas gavetas
e dar nome às borboletas que, desde sempre, escravizo
escrevo porque não devo . . . porque não tenho juízo
porque sou doido e me atrevo a exibir minhas facetas
porque sou feito de aço, de carne, osso e granizo
escrevo porque preciso estilhaçar ampulhetas
coreografar piruetas, cata-ventos e birutas
cruzar palavras secretas, inseminar devaneios. . .
ler nas almas dos poetas as estratégias astutas
que vençam vitórias régias e deflorem os floreios. . .
escrevo porque sou torto, por que não fujo da luta
porque o silêncio é um estrondo de trovão na minha boca
porque do meu ócio imenso brota essa bruta labuta
que me faz gritar poesia no ouvido da vida mouca!
escrevo porque preciso dinamitar meus defeitos
fugir das frases de efeito que friso desesperado. . .
dar voz aos meus infinitos pretéritos imperfeitos
e enfeitar esse meu jeito de menino rejeitado
escrevo porque amenizo com versos minhas verdades
suavizando as saudades do que deixei de viver. . .
escrevo pra ser sem ser . . . pra suprir necessidades
ou tão só porque escrevendo me eternizo . . . sem querer.


PAULO MIRANDA BARRETO

paulomirandabarreto.wordpress.com

SAUDADES DA GUERRA



Você precisa ler Paulo Leminski
ver pinturas do Kandinsky
pôr-do-sol no Arpoador. . .
Ouvir umas baladas do Lenine
ver uns filmes do Fellini
Deus num disco voador!!!
Precisa acreditar em mim . . . Aline
andar á pé, largar a limusine
livrar-se desse mal, fazer amor!
Que a arte imita a vida e há vida em Marte!
Façamos parte, os dois, de toda parte
partamos juntos ,seja pra onde for!
Sejamos dois (ou três), além do mais
sem mais senões,poréns ou aliás. . .
Saibamos rir de nós! Sarar a dor!
Aline, por favor, seja capaz. . .
de amar-me para sempre . . . e nunca mais
me deixe em paz . . . que a paz me dá pavor.


PAULO MIRANDA BARRETO__________ 10/2015

paulomirandabarreto.wordpress.com

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Fila de Banco

Do tempo de um relógio espero
Perdido. Tão estranho entre os estranhos
O que me faz olhar para todos os lados quase severo
Sentindo-me mais um neste rebanho

PAULO MIRANDA (A Folha)