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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR
DO TRABALHADOR
tudo o que não tenho é seu
DO BANQUEIRO
tudo o que tenho é seu
DO LADRÃO
tudo o que terei é seu
DO ESCRITOR
de tudo o que é seu algo é meu.


Ademir Demarchi, em “Pirão de Sereia”, Realejo, Santos.

PIRÃO DE SEREIA


Navegando ao léu
ouvi [ ] límpido
o canto sibilino da sereia
vislumbrei no desmedido meu destino
e enveredei então pelas brumas
como se entranhasse pelos céus
encantado, já não era eu, mas deus
entreguei-ma à cegueira de todos os sentidos
apaixonado extasiado entesado
pela umidade brilhante das escamas
pelos olhos azuis por onde se mergulhava no oceano
pelos volteios voluptuosos e serpenteantes do seu corpo
pela gosma marinha que me siderava
pelas mãos boca narinas
ávido busquei com a lábia língua
uma ostra nela e inteiramente
humano não achei sua vagina
estanquei no descaminho
diante do interdito para o abismo sonhado
e frustrado com o irredutível mas ávido de amor
comi a sereia e a roí inteira até as brânquias
e brânqueos ossos que me restaram às mãos fosforescentes
para iluminar a noite de meu caminho de retorno até aqui:


Ademir Demarchi, in Pirão de Sereia, Realejo, Santos, 2012.

O Ciclone de Théophile


[a.d.]

O ciclone embora Théophile lhe seja surdo
Também ameaça-me os camafeus
Assim mesmo porém o amo
Terrificante e belo a espiralar-me o
peito
Em sua sina de profícuo signo
Lar agradável, oásis da pira arte
A anular todas as coisas vis

Apesar das quais a palavra arde.

A BOTIJA


[a.d.]

de uma botija seca
já ornada pelo tempo
quando nada mais dela se espera
um líquido bocejo a anima
e se derrama com a brisa
que sopra e nela penetra e canta


sábado, 11 de janeiro de 2014

Poemas recolhidos de Ademir Demarchi:

Poemas recolhidos de Ademir Demarchi:

A)
passeio distraído
por entre túmulos

às vezes noto perdido

alguém que carrega
o próprio corpo

por sobre os ossos
de todos os mortos

B)
os profetas
já não vivem isolados

nem se perdem do mundo
como outrora

falantes
até parecem curados
embora proliferem desertos
de indiferença calada

(em “Volúpias”, Sereia Ca(n)tadora - Santos/Campinas, 2011)


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Preceitos da Dúvida

O poema é o ácido
sobre o absoluto.

Ademir Demarchi
A arte é a secreção
 do onírico.

Ademir Demarchi