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terça-feira, 12 de novembro de 2019

DESPERTAR EM PARATY



Um homem desperta sozinho
antes da manhã levar a noite.
Lá fora um galo grita
também sozinho.
Um outro galo responde.
E outro atende o chamado.

E antes que a manhã descubra
as sombras existentes na alma
das noites, o poeta se levanta.
Vai ouvir a sinfonia dos galos.
É ela que acorda o sol

e o canto preso na garganta.


Rubens Jardim

segunda-feira, 28 de outubro de 2019


Desço as escadas do sagrado
para celebrar meus demônios.
E eles estão na janela de uma
casa na rua Cristiano Viana.
Foi ali que Nanau caiu da janela
e morreu.

Quero eliminar aquela rua
da minha vida. Quero apagar
essa dor resistente até hoje.
Mas a rua retorna,a janela não fecha.
E Nanau reaparece: no muro,
no quintal, na sala, no quarto.

Escrevo pra trazer você de volta
pra driblar essa tragédia instalada
em mim em dezembro de 1954
talvez pra salvar os destroços
do teu transitório pertencimento.

Rubens Jardim


sábado, 29 de dezembro de 2018




O que há em mim
é a lenta preparação
do que há em ti
sombra segada
sangrada
e sagrada
até nos olhos dos meninos
que nasceram sem olhos

vidência única
(vide o verso)

visão múltipla
(vede o anverso)

e tudo que está
do outro lado
do espelho.

(do livrinho Espelho Riscado, 1978)

Rubens Jardim

PIETÁ




Tão longe do meu olhar
fechada em si
e a si mesma devotada
a pedra, na Pietá
adentra o gesto
adensa a face
no apedrar-se da luz
no apiedar-se da pedra

(Poeminha escrito em Roma/outono de 2006 e publicado no livro Cantares da Paixão,2008))

Rubens Jardim

A MORTE NA AVENIDA




O morto na avenida
está livre da sepultura.

Não sei se é desaforo
ficar assim estendido

no chão. Mas a morte
é a quebra de protocolo,

a entrega de uma carta
endereçada ao nada.


 Rubens Jardim

(Fiz esse poema já faz tempo,uns 7 anos. Ele não me deixa esquecer que somos pó, poeira. Enfim: o que somos nós!!!



BAGAGEM




Na mochila
ou na valise
a rigidez
das fronteiras
é uma ordem.

Desobedeça!


Rubens Jardim

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O INVISÍVEL POEMA




Aqui se cruzam os caminhos
de épocas remotas e atuais.
Neste espaço finco os beirais
desta casa onírica.Meu ninho

é esta escrita em pergaminho.
São as fantasmagorias banais,
os sons obsessivos das vogais
e as libações efêmeras do vinho.

Não falo de casas em burburinho,
nem de monumentos e catedrais.
Registro, apenas, nesta escrivaninha

o invisível poema em redemoinho,
capturando o lido e o olvido e os ais
escutados na partição dos caminhos
Rubens Jardim


Em que mar de marias
consumou-se o silêncio?
Resposta inaudível
com-sumida porta
onde os tatos removem
a desmemória das madeiras.
Ruídoído
na rua que me deixavas
quando as chaves percursavam as fechaduras.
Abrilonoturno:brilho de setas
onde o incerto com-funde
tez inter rogada, entre tez,
entre tê-la e retê-la
-- nas telas, onde?
Não. Eu te albo em mim
álbum-mina
dos álbuns.

Rubens Jardim

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

CONCERTO PRA VIOLINO DE Tchaikovsky




Não sabia o nome dessas coisas
só sabia sentir os sons
a voz do violino gritando,
a orquestra respondendo
e meu pai exaltado, em pé,
dividindo comigo seu encantamento.

A primeira vez foi na infância.
A última foi na sua cremação.

Entre uma e outra a falta
o buraco, a voz ausente

e essa saudade sem cura
Rubens Jardim

quinta-feira, 13 de julho de 2017

NAUFRÁGIO

Rubens Jardim

Como se eu estivesse mais sozinho
Do que estou e minha casa não tivesse
Espelho. Sem ser reconhecido, nem
Por mim mesmo, atravesso o tempo
Da indigência, de mãos dadas com
Heidegger. A mulher amada, ausente,
Cria um buraco maior que a cratera
Do metrô, linha amarela, em Pinheiros.
Minha cidade não é mais minha cidade:
Lugar de moradia. Todas as casas onde vivi
Desapareceram do mapa. Ninguém mais
Dá a mínima atenção pra essas coisas.
E eu fico apalpando frutos derrubados,
Caminhos percorridos. E eu naufragado.


(Poema publicado na ótima revista Alagunas, em janeiro deste ano.Não me lembrava dele e nem dessa baixo astral.Mas como diz o Rosa, “A gente se esquece --e as coisas lembram da gente.”)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

AMOR É PERDIÇÃO

Procuro entender os sinais
da tua ausência: teus sapatos
imóveis no guarda-roupa,
tuas calcinhas indiscretas
na gaveta.
Busco compreender essa falta
e aceitar essa carência.
Mas olho para os lados
e não decifro nenhum
dos teus inquestionáveis
enigmas.
O amor é a perdição de achar.



 Rubens Jardim

sábado, 24 de junho de 2017

Pode parecer delirante, puro devaneio, mas venho prognosticando o desaparecimento do chamado mundo interior dentro de alguns anos.Uma alucinação? Uma visão? Pode ser, é claro. No entanto, não estou sozinho nessas maluquices. Afinal, muito já se falou e se escreveu sobre questões estranhas e impertinentes.Um dos objetivos da alquimia, por exemplo,era transformar metais inferiores em ouro.Outro era descobrir o elixir da longa vida que curaria todas as doenças.
Portanto, não me falta atrevimento e ignorância nessa sugestão mencionada no início.E para reforçar aquela ideia encontrei, em releitura de Bachelard, alguns textos que podem clarear e enriquecer meu prognóstico. Um deles , o que trata da casa natal e a casa onírica, o autor confessa : "Eu não sonho em Paris, neste cubo geométrico, neste alvéolo de cimento, neste quarto com venezianas de ferro tão hostis à matéria noturna.Quando os sonhos me são propícios, vou para longe, numa casa na Champagne, ou nalgumas casas onde se condensam os mistérios da felicidade".
Mais adiante, Bachelard diz: "De resto, colocando-nos no mero ponto de vista da vida que sobe e desce em nós, percebemos bem que viver num andar é viver bloqueado. Uma casa sem sótão é uma casa onde se sublima mal; uma casa sem porão é uma morada sem arquétipos".
E Kafka,citado por Max Brod, morou numa casinha de quarto, cozinha e sótão erguida sobre a terra, em Praga, na Alchymistengasse. E escreveu o que segue: "É um sentimento muito particular o de ter sua casa, de poder fechar para o mundo a porta não de seu quarto, não de seu apartamento, mas simplesmente a de sua casa; de pisar diretamente, ao sair, a neve que cobre a rua silenciosa..."
Minha suposição é que o novo jeito de morar também deve estar contribuindo para esse fenômeno de horizontalização e falta de reflexão acelerada pelos avanços tecnológicos. A velocidade vertiginosa e a multiplicidade sedutora dos celulares, também colaboram nesse espécie de apagamento da interioridade. Ou pelo menos diminuem a capacidade reflexiva, a percepção do estar-aí e uma porção de coisas semelhantes.
Como sou velho e vivi todos esses períodos de transformações, fico assustado quando vejo as pessoas, no metrô e em ônibus, envolvidas com esses aparelhinhos, sem se dar conta do mundo real em sua volta.

Rubens Jardim

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Que é o Poeta

“Que é o Poeta
senão o burlador das fronteiras da vida,
o constante fugitivo das dimensões do mundo,
o prodigioso funâmbulo, a dançar em cascatas e
labaredas?...
...o ouvido que melhor ouve o apagado e esquecido,
e recolhe sua informulada queixa e seu cântico
longínquo;
--o ôlho que mais longe avista,
até onde as formas ainda são simples esquemas,
onde tudo que parece o mais simples
se desdobra e entrelaça em trama profunda.
Sem ser Deus, nem profeta, nem sábio,
mas tudo isso, imperfeitamente e amargamente,
porque é apenas um Poeta.
Tudo tão claro, para ele, nos reinos do impossível,
e, fora dele, só obstáculos.”
(Trechos de um poema da Cecília Meireles para Jorge de Lima morto)

“Quem poderá explicar a origem de um poeta, esse raro inconcebível entre os homens, que faz renascer a língua com tanta perfeição como se nunca tivesse sido desvirtuada por milhões de lábios e destruída por milhões de letras até que ele, o único, com olhos perscrutadores, mirasse todas as coisas passadas e futuras com olhar elevado, envolvido em cores de aurora...

(trecho de Stefan Zweig em Despedida de Rilke, Munique)

‘Poeta é quem cria, independente de qualquer forma literária, o poema, esse organismo verbal que é um ponto de encontro entre a poesia e o homem”

(fiz uma pequena alteração em texto de Octavio Paz, em O Arco e a Lira)


Fonte : Rubens Jardim

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Rubens Jardim

A poesia é mesmo a mais terrível inocência e, quem sabe, a mais temível curiosidade.
É fato, todo poeta tem alguma coisa de criança --deslumbrada. Ou assustada. Talvez seja esse componente infantil que faça com que ele perceba aquilo que passou despercebido. Talvez seja isso, também, que faça com que ele resista ao entretenimento massificante e as mesmices apaziguadoras. E porque a poesia é e sempre será uma esperança de resistência, o poeta tenta desenterrar esses ossos do seu ofício.Tenta desentranhar a força desestabilizadora da palavra. Sua luta é contra a crise da vida do espírito, contra a fuga dos deuses, a destruição da terra, a massificação do homem e a primazia da mediocridade. Sua luta é com a palavra, com o silêncio --e com a busca do sentido real das coisas--se é que existe algum sentido real. De qualquer jeito, o poeta acaba envolvido com a sua versão da esperança que é ter um compromisso ético com a sociedade e com a vida em todas as suas manifestações.(trecho de uma palestra feita em São Matheus, 2010)


sábado, 28 de maio de 2016

Fragmentos


I
Minha alma é pequena
e minha memória menor ainda.
Não fosse isso estaria mais perto
daquilo que me corrói:
o leite derramado.
II
Não vou me encontrar
se não encontrar em outra parte
A parte de mim que não responde:
Grito soterrado.
III
Já tentei acertar contas
com Deus e o Diabo
E as terras do sol.
Mas minha dívida
é comigo mesmo.
IV
Julgador e julgado
Réu e juiz
Não há farsa
nessa trama
Mas haverá proclamas?

- Rubens Jardim, em "em "página do autor". 2014.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Flagrante


O morto na avenida
está livre da sepultura.
Não sei se é desaforo
ficar assim estendido
no chão. Mas a morte
é a quebra de protocolo,
a entrega de uma carta
endereçada ao nada.

- Rubens Jardim, em "Fora da estante - Rubens Jardim". Coleção Poesia Viva. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 2012.

domingo, 21 de junho de 2015

PEQUENOS EXERCÍCIOS FUTEBOLÍSTICOS


COPA DE 50
O apito final não põe fim
ao desamparo. O silêncio
cortou a língua do Brasil.

COPA DE 2014
Imagine na Copa: aeroportos,
estádios, manifestações.Cães
Ladram mas a caravana passa

BRASILxMÉXICO
Passe certo. Passe errado.
A bola rola e não me olha

Zero a zero. Que merda!!!

Rubens Jardim

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Todas as coisas sozinhas
Um cinzeiro
Um prato
Um copo
Um corpo
São uma tragédia.
Não aquela, dos gregos:
Ésquilo, Eurípedes, Sofócles.
Mas quando um cinzeiro
Não é limpo, quando um
Prato não é lavado,
Quando um copo é abandonado
E um corpo não é celebrado
Indícios da tragédia são mostrados.
E é por isso que os deuses fecham suas bocas
e são silenciosos como um quadro.
Por acaso, você já viu
Ou sentiu em uma casa abandonada
A manifestação do pó?
Já passaste a mão em uma colher
No dia seguinte? Já tiveste a emoção
De lavar os talheres de uma noite
De celebração?
E tudo isso é noite. Tudo isso é névoa.
Tudo isso é neblina.
E se elas ficam ali é para
mostrar isso: a boca fechada dos deuses.
Intocáveis ou intocadas
Todas as coisas testemunham
O esquecimento:
Esse cimento que não constrói
Nenhum berço, nenhuma casa
Nenhuma partilha.
E lembrar é muito mais do que trazer
É muito mais do que atravessar
Ou ser atravessado
Lembrar é construir de novo
O ovo
O nascimento
As perdidas asas
a rua da infância
e um deus que fala com a gente.

Rubens jardim

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014


as coisas, todas as coisas grudam em mim
que nem chiclete. e eu me desprendo delas
--da materialidade delas, da forma, da cor,
do peso. ou da leveza insustentável: pluma
de ganso no inverno. mas não consigo me livrar
do ressoar do sino, nem da minha sina de guardar

minha alma é um galpão lotado de ausências!

Rubens Jardim

QUASE UMA LAMENTAÇÃO


Desta vez você não escapa
Nem pela porta da palavra
Nem pelo alfabeto represado
E não adianta revolver a terra
Nem abandonar o prato feito
As águas e os sôbolos rios
Já passaram por Babilônia
E os poemas que ficaram
Enterrados em mim
Não são os mesmos que
Ficaram enterrados em ti.
E não adianta perguntar
Se aqui é Babilônia, Sião
Ou qualquer outro lugar.
Vejo-me diante de fevereiro
O mais curto dos meses
Desconcertado de ventura.
Minha pena não é o desterro
Mas o discreto esquecimento
Dos caminhos percorridos.
A impermanência de tudo
Mostra que a vida é um jogo
De azar.
E minha alma é pequena,
Tão pequena
Que não cabem nela
Nem a Vila Itambé
Nem a minha mãe desfigurada
E nunca vai caber o mundo,
O vasto mundo

Essa imundície capetalista!

Rubens jardim