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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

transiente




aquele que acende a intimidade com a escrita

que ordena uma luz depois que se apaga o relâmpago

o da primeira hora, votiva, éter antes confundido ao facho e aos seus motores

e que agora difunde uma nova sinfonia de seres despertos, mudos

entre o sono e a névoa, o perfume e a névoa

o tingimento da voz, os resíduos; tudo coberto pela fina película de orvalho

o que se enche de cuidados, mas se sabe já fora de um mundo

e se derrama sobre a primeira mancha de oceano - à costa de um litoral sem lei

um movimento deflagrado, pueril, de alvoreceres e crimes

este um mundo findo, arcaico, miragem pós-mundo

o que cultivou da raiva o milagre, o que jogou a bomba e foi dormir

os fluidos que rondam os olhos, o olfato, os buracos todos

este sal de miasmas fecundos, este amor entre spartacus, pajés, espadachins

um vulto por entre as folhagens, o metal brilhando

deste escrever sem aparas, este ressuscitar da mulher que caminha em direção a si

(Autoria: Roberta Tostes Daniel)


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

transiente




aquele que acende a intimidade com a escrita

que ordena uma luz depois que se apaga o relâmpago

o da primeira hora, votiva, éter antes confundido ao facho e aos seus motores

e que agora difunde uma nova sinfonia de seres despertos, mudos

entre o sono e a névoa, o perfume e a névoa

o tingimento da voz, os resíduos; tudo coberto pela fina película de orvalho

o que se enche de cuidados, mas se sabe já fora de um mundo

e se derrama sobre a primeira mancha de oceano - à costa de um litoral sem lei

um movimento deflagrado, pueril, de alvoreceres e crimes

este um mundo findo, arcaico, miragem pós-mundo

o que cultivou da raiva o milagre, o que jogou a bomba e foi dormir

os fluidos que rondam os olhos, o olfato, os buracos todos

este sal de miasmas fecundos, este amor entre spartacus, pajés, espadachins

um vulto por entre as folhagens, o metal brilhando

deste escrever sem aparas, este ressuscitar da mulher que caminha em direção a si

(Autoria: Roberta Tostes Daniel)

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Rarefação



É como uma tristeza
que permeia
a experiência
vaga
sensação
de romper
o círculo
a linha externa
esgarçada
em limites
de assu
jei
tamento
constante
margem
manobra em luz
de cera
nos olhos
das asas
se derretendo.
Termina
em duas quadras
leve brasa
encurtada
de um aço
que açoda
o que quer que
se considere
aço
o que quer que
se considere
único.
RTD


a sombra que faz o dervixe
enquanto dança
assanha o vento
a uma espécie de amor
pelo atraso na tontura
da fé a um passo
do esquadro da morte
a uma certeza de limbo
a sombra que faz o dervixe
enquanto roda
acelera a roda
a vida roda
o dervixe roda
na dança que faz a sombra

somos todos contingentes
índios, pastos, mosquitos
de um dervixe que roda

a sabedoria do pajé
é pai de um dervixe que roda
perto de uma árvore que se cala
na distância da cultura

imóvel o segredo da lonjura
tão perto a roda
RTD


O vento sopra e espalha meus cheiros
Danço no rastro de uma melodia
Giro-me na jira dos dervixes
Penso com o tambor do peito
Digo a melodia do desejo
Ajo onde os olhos põem minhas mãos
Invento o tempo na casca oca e úmida de uma árvore
A umidade e o tempo enrugam minha pele
Ainda que a luz me falte, me restará a voz e minha possibilidade de cantar
Chamo um novo dia na chama da vela, que quase ilumina minha noite
Evoco ancestralidades e tempestades
Toco meu terreiro com pés e mãos nus
Piso o chão sagrado com o inteiro do corpo
Diluo-me em águas e pântanos
O Pentecostes é minha língua de fogo sobre a tua pele
Eu me perfumo com o cheiro agridoce de tuas virilhas
Uma canção profética já me anunciava
Pelo amor me alinho ao cosmo de palavras e sons
Eu te busco em meus pensamentos, palavras e atos
E assim tu estás comigo

Servidão de passagem

Somos e não somos americanos.
Somos e não somos índios, africanos.
Somos, não somos: refugiados
imigrantes, minorias em rede
guetos globais.

Reféns do capitalismo
somos o capitalismo.
Somos, meu bem, seus bens
na periferia da ordem mundial.

Subjugados pela comunicação
neocomunicadores xenófobos
capitães do mato na selva de pedra
nas infovias do silício inválido.

O que deixamos de ser
é algo de abstrato
quando se pensaria concreto.

Algo delicado
de urgente para além da fibra ótica
ainda filamento, ainda Gaia
e a guardiã da memória

agridoce, ribonucleica
impulsivamente humana.

Os fantásticos arranjos da espécie
motos contínuos, perpétuos desastres
extrusão nos vidros
estrugir nas pedras, montanhas

rochosas ao amor.

--
RTD

in: Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019


A caminho da linguagem

Um homem
ponta de lança
discursa
caminha
essencia-se.
Um homem serve
para restaurar
a linguagem
a um passo da
vociferação.
Potente
lavra caída
da luz
as asas as raízes
somente
o anseio
de fincar-se
eco na paisagem
consumida
pela sombra
e o nascer
constante.
Um ser escusável
que deseja
estabelecer
premissas:
monologa com os pés.
Ao largo
um coral de vozes
lancinantes
alucinadas
move a colheita
de pergaminhos
papiros
pelas veredas escuras -
"Da seiva fria da terra
Surge dourada a árvore dos dons".
Roberta Tostes Daniel

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Wild

Sou uma rosa
despedaçada no vento
uma rosadespetalada
no vento
sou e sou e sou e
sou e sou
uma rosa de Gertrude
Stein
uma rosadesperta
uma rosa mancha o
eu.

Rosa Tostes Daniel

quarta-feira, 11 de setembro de 2019


O dia não veio,
as notícias são velhas.
Só a angústia
metralhou a tarde.

Roberta Tostes, ainda ancora o infinito, ed. Moinhos.

DO TEMPO ESPERO




Do tempo, espero
a nudez de um corpo;
transformado em espaço,
um rosto.

Imagens que deponham dias,
a estudada geografia
de um torso
exausto,

sonhando tocar
a simultânea ausência,
região do mais etéreo encontro:
eu, o tempo; tu, o espaço.

Povoaríamos a casa
com a nudez das paisagens
sem paisagens,
coexistindo no absoluto

silêncio destas memórias:
as palavras, sem palavras
as mãos de colher mentiras
no dorso da história.

Puro movimento:
percorrer o desejo;
somos, teríamos sido
a casa, farol de doenças.

E o riso que déssemos,
rasgaria o tempo, recuperando
o que talvez tenhamos sido:
simples, como a morte.

Teu corpo ou tua casa
mediriam os caminhos.
Morrer, à sombra da origem,
no teu lugar, todas as horas.

Roberta Tostes Daniel, ainda ancora o infinito, ed. Moinhos


Deixei o terreno insondável dos pássaros
acordos escusos com azuis
bicos, vermelhos, garras.
Delicadezas imaginadas
musgo e merda
selvagem que cobre o chão.
Caminho sobre selvas desossadas
guerreiros canibais, chorume
bala perdida e gás lacrimogêneo.
A indiferença assassina.
Homens sem rosto assediam
ventres metonímicos e pernas
halterofilistas.
Civilizadamente, deixamos de existir.

£

Decidi amar o que fosse:
gerações de mísseis abandonados
grotas acidentais
o cavar fundo da mina.
Encontrar estilhaços
na topografia
quero dizer
rota do cansaço.
E amar
o travestimento
da parte de quem
conserva intacta
a derme
planetária.
Isto de ser alma
é: laceração.
Roberta Tostes Daniel

Nas mãos cegas de Roberta




Porque a pintura é uma entidade mística
porque sou incapaz de refutar em cores –

a meditação em Eduardo Seiji
longos fios, desde o couro cabeludo
alçando sua ascese

despenteando-se
despertencendo.

Há um nível de sujeição que beira à indecência
por um fascínio de pura nostalgia

a ignorância do olhar colhido pelo erro
aprender in locus a heresia

requer coragem
sobre meu amor por formas puras

: a solidão do retrato de Alberta
os entre espaços de Edmar
as cores que se revelam no entardecer

de John Christian Dahl
Dresden sob a luz da lua.

Remedios Varos inventando Tilda Swilton
mulher saindo do psicanalista.

Ou a criança pastoreando azuis
sob um charco de estrelas
menino pastor de Lenbach

cuida para que
Helena Almeida não se desgarre

naquela inigualável travessia das mãos –
careca e comprida amada por cachorros

uma Jeanie Tomanek nunca levada a termo
porque se afundou em Rothko

linhagem
miragem

devir Ohtake.
RTD


TODAS AS CASAS ME VIOLARAM.



Deponho elementos ao andar.
O tempo é de desamparo, chão de rodas;
patas e estradas são flores que não vicejam.
Mas ando como se me encaminhasse ao paraíso.
Aos meus pés, a vertigem dos seixos,
a aura afogada dos rios.
O ninhal dos ventos consuma o voo
desfazendo as minhas pegadas.
Na terra em que não piso,
quero construir minha morada.

Roberta Tostes Daniel, ainda ancora o infinito, ed. Moinhos.

Diário




Detrás das horas, o perfume
blindado pelo mecanismo da
insurgência

ante a insônia, o decreto
da pausa - a mulher exala
rara vulnerabilidade

todos os dias, acender
o sofrimento
na boca do fogão

e espantar
os maus pensamentos

beber a goles profundos
o líquido viscoso
escuro

fazer dessa segregação
a proximidade luminosa
do poema

decantar arbustos
contra a escuridão

projeto anti-incêndio.


Roberta Tostes Daniel

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


todos os dias transgrido minhas promessas
com o sabor sereno de alguém que cumpre seus vícios

desdita, derrota, iminência
já não importam

tenho um lugar para o pensamento
outro para a lágrima

e uma certeza inequívoca da mistura
que alargará minhas asas
que afundará meu corpo

e eu terei os mesmos oito anos
e cairei outras dezenas de vezes
sobre meus próprios erros

a alga viva se amotinará em minhas pernas
compondo um teor de aventura na dor
que se espraiará de mim

já aos dezoito, lendo Freud
verei minhas memórias sobrepujarem Deus
quando ainda serão, muito mais, um instinto

eu serei um agora
que derrocará entre o trauma
e o desejo de absoluto

nada disso redundará no hoje
terei pequenos contornos
rondarei fluidos, friccionarei rotas

tudo para mim emborcará no pastoso
até se abrir no furor, num terror tão delicado

quanto um antúrio

Roberta Tostes Daniel


Serei apenas uma mulher de silêncio intransponível?

Remida pela umidade dos braços

possuída pela arribação

espécie avoante ao norte

da ternura

de um semiárido

alvéolo

na respiração universal.


Roberta Tostes Daniel

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Alegações




O poema fura o silêncio.
Esgota um projeto de nação.
Faccional, entope os bueiros da cidade.
O poema é esse gosto pela dinastia
falida das palavras alinhavadas pelo fel.
O poema explode a metáfora
mas insere no ritmo sua tensão maior.
É, sobretudo, iminência.
O poema perambulando na quadra da morte
desafiando o buraco causado
pelo som, vibrátil, concêntrico
dizendo-se ilharga das folhas
e percepto vegetal.
O poema é você de frente, de costas
pro silêncio continental
de um quarto de século
no spacatto e no sopro
de um bailarino enfurecido
que se tumultua ao sabor do gesto –
o poema não presta e você não presta
mas tudo nele é movimento: te concerne e te preza.

*

(2018)
RTD

Forma




Ficou um mar de sangue
Svetlana Aleksiévitch

O que tenho
o não saber
o que move
o que me desenha
o que o sofrimento petrifica
sem magia ou beleza
do que Aleksiévitch se apodera
do que Chalamóv fala
da imagem de um tempo
gigantesca vala comum
de utopia e inocência
da culpa tão terrível
de todas as histórias
ser um homem-pena
diz Flaubert
penso que me pesa
desejar como Svetlana
ser a mulher-ouvido.

*

(2018)
RTD

Anelo



Acaricio seu chorinho
de cão, pequeno gemido
em minha infância corroída

falam os ossos por detrás das cortinas
o sol deriva de alguma manhã
Setembro anela os deserdados

um sorriso perfaz o futuro
pedra de toque, duríssima
surgimos sobre monturos.

*

(2015)

RTD

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Barroca




Minha alma tem uma sombra
num poema de Gregory Corso
ou uma possibilidade da sombra
que não é teu corpo
num verso de Ana C.

Eu diria que há uma luz virulenta
como um vespeiro, iminência da invasão
fissão nuclear e águas rebentas
que arrebanho

para a luz, para as chuvas
a proteção fervorosa dos santos
envolta em velas
prestes a arder.
RTD

Inteira vivo pra dizer: nasci.


Inteira vivo pra dizer: nasci.
Planto aves e senões.
Sou agulha num palheiro.
Um feno na tarde, sob o sol.

Colhes o meu ínfimo modo de te escolher.

Me invades,
Sazonal, tão violável
Impura herbácea rasteira.

Como se um pouso
As andorinhas no meu rosto
Cultivam seus gerânios.
Eu nada sei da brotação.

Pendo pro voo
O aroma macio
Atento ao viço da moça.
Imponderável, germino.

Que mais perfume que o visgo e a gosma?

Mais profundo é existir.

*

(Ínfimo modo, junho 2010)
RTD