Mostrando postagens com marcador marly oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador marly oliveira. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

3



O sentido das coisas,
onde o achar, senão nas próprias coisas?
Ou algo está por trás
da rumorosa vida de um inseto,
da quietude da flor, do meu espanto,
vivendo-nos tranqüilo,
e cada dia que passa nos absorve um pouco?

Ou nos reabsorve apenas?
Ou já fomos num antes de nos sermos,
a que aos poucos voltamos?
Voltamos de mãos limpas, silenciosos.
O que vimos foi pouco e não bastou,
como o êxtase não basta,
e não basta a memória de ter sido.

As coisas não esplendem,
e nós somos apenas um reflexo
imperfeito do oculto,
como o rio reflete fugazmente
a delicada sombra de uma fronde,
movendo-se tão alta,
que embaixo só memória dessa altura
fosse o reflexo na água.
As coisas têm um brilho para dentro,
que lhes é inerente,
do mesmo modo que o homem tem uma alma,
e não entende, e vive
num vazio de quem a não tivera.

Ele, no entanto, que arde.
Ele, no entanto, que ama e se devota,
como o não faz um bruto,
nem ave, ainda a mais bela e delicada,
nem planta ainda a mais tenra e mais sensível,
nem nuvens, que só passam,
livres de amor, de sonhos e cuidados.

De Marly de Oliveira

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Epigrama



Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente;
e não pensar, não temer,
ser, apenas: altamente.

Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte,
com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida ou da morte.


De Marly de Oliveira

terça-feira, 24 de setembro de 2019




2.

É suave, suave a pantera,
mas se a quiserem tocar
sem a devida cautela,
logo a verão transformada
na fera que há dentro dela.
O dente de mais marfim
na negrura toda alerta,
e ser de princípio a fim
a pantera sem reservas,
o fervor, a força lúdica
da unha longa e descoberta,
o êxtase de sua fúria
sob o melindre que a fera,
em repouso, se a não tocam,
como que tem na singela
forma que não se alvoroça
por si só, antes parece,
na mansa, mansa e lustrosa
pelúcia com que se adorna,
uma viva, intensa joia.


De Marly de Oliveira

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"Invocação de Orpheu"


1.

O canto é minha explicação,
mesmo que diga o que não sei.
Sou o sentido do que se transforma,
do que resiste à petrificação

e não conheço o declínio. Ó vós que ouvis
o que vos diz Orpheu, sabei que tudo
repara o tempo, salvo a morte,
mensageira do escuro, poderosa,
que põe nos corações desde o princípio
seu germe vingador. Nenhuma Fúria
se lhe compara, nenhum sustento é eterno,
mesmo se subtraído à seiva que arde
nas veias grossas do mundo. Sois mortais
e vosso sacrifício há de ser grande,
que nada nos é dado sem o cobro
dos deuses.

Ouvi, no entanto, vós, que a ilusão
buscais sempre na vã agitação:
eu vos ensino a insubmissão do amor,
a inquietude que leva até o inferno
em vida, o êxtase, o delírio. Eu vos ensino
a dor e vos ensino a cólera,
que ela vos salve de vosso destino

menor e implacável. E vos ensino a glória.


De Marly Oliveira