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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Três noites


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As duas irmãs negras entram em casa e logo fico confuso. O amigo está com qual delas? São lindas e muito parecidas, com longos, imponentes dreads. Mostro os quartos (um), o banheiro (só usem se muito necessário), a cozinha e o escritório (cozinha-escritório). Chegamos à biblioteca, onde realizo o meu número particular. Uma das irmãs me ouve atentamente, enquanto a outra mexe em dois exemplares, demonstrando nítida preguiça de estar ali. Ela volta pra sala. Animo-me com questões de ordem teatral e até mostro à moça que ficou uns textos de quando eu era criança e dizia que A Lista de Schindler era um filme impactante. (Aliás, lá por três horas da manhã farei uma piada muito ruim com essa temática.)

Quando também volto à sala, sento-me no chão, perto da porta, e a irmã de ouvidos atentos senta no colo do amigo, o que gera um evento esclarecedor. A irmã mais nova, detentora de oito tatuagens – contei depois, uma a uma –, senta ao meu lado e pergunta se também não acredito em nada, encostando arbitrariamente a mão esquerda em minha perna. Pergunto se é canhota. A irmã de ouvidos atentos troca a música no computador e avisa que fará uma performance de “Single Lady”, da Beyoncé.

*

Digo que ela pode ter razão em me odiar, mas não de me odiar pelos motivos errados – marque aqui meia hora em que peço desculpas pelo saco de vacilos. Ela afirma, então, que não me odeia, já odiou, mas não odeia, sendo, segundo ela, incapaz da função de armazenamento de rancor. Abraço-a e reitero o quanto gosto dela, levando a amiga ao lado – elas se beijam de tempos em tempos, o que é muito lúdico – a fazer um “óUn…”.

Estamos na sétima cerveja de Largo da Ordem mais cheio do que o normal, eventos em sucessão como a) Aparição e desaparição do ex-namorado dela; b) As duas amigas se abraçando com galhardia; c) Versão pitoresca de “Hang Up”, da Madonna. Diva; d) Passeio metropolitano para melhor efetivação de nossa teoria do sentimento.

Está amanhecendo.

*

Buscamos as duas amigas em casa, cada qual munido com uma caixinha de cerveja. Elas entram no carro. Estão alegres e nós bem dispostos. Chegamos em minha casa e, entre imitações de Marília Gabriela e da abertura em português de The Walking Dead, demonstramos com eficácia os nosso bons augúrios pelas amigas. O casal mais antigo, doravante denominado Casal 1, inicia um périplo afetivo na biblioteca. Permaneço na sala com a amiga da amiga, num entendimento muito saudável, já que somos da mesma cidade.

Eis que estamos reconhecendo o quarto. Como está muito calor, resolvemos ficar mais à vontade. O Casal 1 resolve ser uma boa ideia invadir o nosso quarto, todos sem roupas. A minha companheira fica bem abalada com essa decisão, que ela julga ter sido planejada com muita antecedência, e passa a xingar todo mundo. Sou especialmente classificado como pervertido.

Ela se veste rapidamente, abre a porta e vai embora, não sem antes dizer:

– Por que vocês são assim?


 Daniel Zanella . Cenas urbanas. Gazeta do povo .19/11/2015

domingo, 26 de julho de 2015

Alguns poemas


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Pequena reunião em família. Parece que andei exagerando numa das festas da semana. A vizinhança, no caso, a família mesmo, reclamou do comportamento um pouco inadequado de uma das mulheres que andou frequentando meu estabelecimento noturno. De fato, ela fez uso peculiar e ostensivo da palavra cachorro.

Domingo é dia de pensar nos desdobramentos da noite de sábado ou na criação dos pecados que a segunda-feira irá pagar – você conhece a anedota do Chico Buarque com o Paulo Vanzolini? Está no processo de composição de Ode aos Ratos. Outra hora conto. Ou nem.

Comecei a ler Big Loira e Outras Histórias de Nova York. Dorothy Parker mita demais. A grande escritora da vida literária norte-americana dos anos 1920 e 1930 sabia como ninguém escrever sobre a própria corrosão emocional, sem esquecer-se do que realmente é importante: divertir-se às custas da ruindade alheia. – ela sabia viver. Acerca de uma interpretação de Katherine Hepburn numa peça: “Ela cobre todo o escopo de emoções – de A a B”.

Farei uma reclamação agora. As corridas de Fórmula 1 não deviam começar tão cedo. Mas é necessário reconhecer que hoje a coisa foi bruta. Quanta confusão e desinteligência, apesar do anticlímax pairando sobre o autódromo por conta da morte de Jules Bianchi. [Esse por conta é feio demais, não?] Enquanto confiro a classificação do campeonato, surge um link na minha timeline: Por que você não deveria namorar um escritor? 2015 é uma cruza do pior do Goethe com o pior do Tinder. E o que você acha de web-seminários?

Antes de almoçar, alguns poemas de Dorothy Parker – ah, essa mulher…



[Prometi a mim mesmo que um dia terminaria uma crônica em reticência. Acho importante ter esse marco na carreira. Que carreira?]



DE PROFUNDIS

Ah, pois então é utopia

Esperar um homem nesta vida

Que não relate, em suave tom,

Histórias das mulheres com quem deitou?



COINCIDÊNCIA INFELIZ

Quando você jurar lhe pertencer,

Arrepiada e tinindo,

E ele jurar seu amor ser

Imortal, infindo –

Moça, é bom escrever:

Um de vocês está mentindo.



A FALHA DO PAGANISMO

Beba e dance e ria até anoitecer,

Amor, e toda a madrugada atravesse.

Porque amanhã podemos morrer!


(Mas, ai, isso nunca acontece.)

Gazeta do Povo.Zanella, Daniel in  Cenas Urbanas ....

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

 [Hoje não tem crônica confessional, não lamentarei a mulher que não me ama, não vou reclamar do meu time porque irei responder tardiamente Xico Sá sobre qual seria meu jornal de notícias dos sonhos.]
A crônica do Cenas Urbanas, do Zanella, de hoje:


[Escrever crônicas é o ato de reescrever o mesmo texto sob diversas óticas, a sina de viajar sem sair do lugar.
Na minha vida afetiva, sempre que tive de falar, fui ainda pior, sumindo da vida de algumas mulheres de maneira pouco ortodoxa, fugindo de amigos ao primeiro sinal de fumaça, gaguejando em braços a incomunicação que me transpassa desde que escrevi a primeira carta.
Quarta-feira foi meu último dia de aula na universidade e ainda busco alguma ressonância que diga para onde vou e se pararei de abrir estradas que levam a nada.
Fiquei dez dias sem escrever, apenas afogando-me de meu passado. Busquei não pensar muito na falta que sentirei de algumas pessoas que me marcaram muito nestes últimos quatro anos porque tenho medo de ser em corpo o relógio parado da estação de O Curioso Caso de Benjamin Button.
De algum modo arbitrário, a volta do Cenas Urbanas hoje, após dez dias, é o percurso comum de meus passos - amores e cachaça - , mas também uma nova demarcação da sombra incógnita do que vi - podem acreditar em mim - e do que virá.]

 by Daniel Zanella

sábado, 23 de novembro de 2013

Pequenas crônicas do cotidiano de Curitiba

Cenas urbanas ...Daniel Zanella ...gazeta do povo ...15/11/13
Mirante da morte
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Meu amigo diz-me, às avessas do centenário do Poetinha, que nenhum escritor e estudioso sério deve levar Vinicius de Moraes muito em conta. Penso, com meu copo meio cheio e cobiçando duas moças que se beijam no lado de fora do bar, o que eu tenho de seriedade pra ofertar.

*

1h59 e a noite de sábado não se recorda de mim: estou aqui, solenemente só, pensando em você. Viver numa casa de habitante único é como ter um relógio de pulso que não se rememora, encravado para sempre na mesma hora – penso em como te mostrar, minha casa, a esta rainha africana de mãos agitadas e delicadas. Com qual coração ela tocará suas fibras quando começar a chover forte e o teto ameaçar desabar de sonhos?

*

Achei que a morte daria um bom tema de aula. Reli alguns trechos de A Divina Comédia, conferi as estatísticas recentes de mortes violentas na Vila Verde, revi alguns quadros do Salvador Dali, transpassei minhas memórias e parti à sala, que, na verdade, é uma edícula que se traveste de capela mortuária também. Inclusive, no fim de semana teve velório. Na segunda-feira o chão estava vestido de líquidos que vazaram dos caixões e tinha um cachorro decapitado na porta de entrada. Perguntei aos adolescentes de suas primeiras lembranças. Um menino disse ser a morte do tio. Outra comentou o atropelamento do cachorro. Um afirmou a morte da mãe, aos dois anos. Outra o aborto de seu primeiro filho, aos 12 anos.

*

Poderia te contar de meu dia, meu amor, mas, ode à ausência, por todos os lugares que percorri apenas deixei vestígios de quem inexistiu, como um pássaro morto à luz do dia. Hoje não me pertenci e entreguei meu corpo ao ato de quebrar, juntar e suturar-me calmamente em minhas melhores agulhas. Deixe-me vestir seus óculos para enxergar-me ao menos uma vez na vida, conte-me de seu passado até aquilo que você não fez, a nossa história é repleta de pequenos assassinatos, impérios que caíram em ruas sem saída, mágoas que jantamos antes das visitas chegarem e comentarem a nova mobília de nossos abraços.

*

Conheci a obra do paulistano Rafael Altério e estou narcotizado numa canção chamada Quando o galo cantar, do álbum Santo de Casa. Ouça, ouça, é incrível – ele anda com uma gente da estirpe de Jane Duboc, Toninho Ferragucci, André Mehmari…  A grande canção deste trabalho é, sem dúvida, Dio Zambi, dele com Celso Viáfora, que relata o processo semelhante à escravidão por qual passaram os imigrantes italianos após a alforria dos negros no Brasil.

*

Não gostei do show do Lenine na Corrente Cultural, uma barulheira eletrônica descomunal, atraso de quase uma hora, um anão contando piadas ruins para entreter o público. Talvez seja um sintoma de velhice, mas ando sem paciência com shows abertos, sem esferografia. É impossível ter qualquer relação artística com a música quando mal se consegue ouvir o que o sujeito canta. Entendo ser assim, entendo, mas não é pra mim. [Também preciso urgentemente estudar mais sobre música para poder te escrever o que mais foi mal neste show, estudar para traduzir tecnicamente o que foi evidente em meu coração.]

*

Lembro-me de Verlaine e me lembro de você e me escoo neste poema dele, que não lembro o nome e é mais ou menos assim:

Tenho muitas vezes este sonho estranho e penetrante

De uma mulher que amo e me ame

E que não é, de cada vez, nem completamente, a mesma

E me ama e me compreende

Seu nome? Lembro que é doce e sonoro

Como o dos seres amados que a vida exilou



Eu só queria que você estivesse aqui.

*



Talvez todo mundo saiba da bela crônica que Rubem Braga escreveu sobre um ano da morte de Vinicius de Morais, em 1980. Chama-se Recado de Primavera e também batiza a coletânea de 1984. Gosto mesmo desse livro, o mais coeso de toda a trajetória braguiana. Tem uma história muito boa do Poetinha:

O pombo

Vinícius de Moraes contava ter ouvido de uma sua tia-avó, senhora idosa muito boazinha, que um dia ela estava na sala de jantar, em sua casa do interior, quando um lindo pombo pousou na janela. A senhora foi se aproximando devagar e conseguiu pegar a ave. Viu então que em uma das patas havia um anel metálico onde estavam escritas umas coisas.
— Era um pombo-correio, titia. Pois é. Era muito bonitinho e mansinho mesmo. Eu gosto muito de pombo.

— E o que foi que a senhora fez?

A senhora olhou Vinícius com ar de surpresa, como se a pergunta lhe parecesse pueril:

— Comi, uai.




É bem como diz Braga, nós vamos ficando por aqui, vigiando as ondas, o mar, os pássaros, lidando com nossas febres amorosas.

domingo, 17 de novembro de 2013

Mar e Pó

acordei e meu corpo se esvaía em pó.Levantei,
sacudi-me e a brisa da janela aberta anunciava o
meu fim:eu estava ventando.De todas as mortes
que erigi, a mais simples veio me acudir, morrer de
sair aos poucos de mim.

Então, despontei de casa, atravessei duas
quadras de sol e cheguei à praia.Pus meus pés
delicadamente na água. Ao longe,avistei um barco.
Não tive tempo de acenar porque uma onda veio e
me corporificou ao infinito de seu mar.

Daniel Zanella.

Jornal Relevo. Novembro 2013