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domingo, 28 de agosto de 2016

Tarde
Se sobrar algo
Depois de Tudo.
Se sobrar modo
Depois do mundo.
Se sobrar!
Falta o que eu digo:
Olhe meu tempo mudo;
Dance meu modo tíbio;
Minta meu verso lírico;
Ame meu rosto ambíguo;
Venha no fim de Tudo
Beijar-me no precipício.


Julio Urrutiaga Almada

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Atol


Não sou vogal indecifrada.
Nem consoante transeunte.
Atônita vida nauseada,
O que sou não se discute.
Não sou verbo, nem palavra,
Nem o ido ou chegado.
Luz de réstia exalada
O que sou não tem estado.

Julio Urrutiaga Almada

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Espelho quebrado


A solidão é um ciclone.
Já foi outras coisas:
A bagunça de vozes longínquas,
O perfume sem aroma algum,
Teus olhos na foto.
Eu fui outras coisas ainda:
Tu
Tu
E algum dia
Já tinha sido eu.


Julio Urrutiaga Almada do Livro Hora Tenaz

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Em um mapa sem cachorros


Em um dia fúnebre
Antes da hora
Do Mês dito Agosto
O prato do pranto
Foi a flor que chora
Frio e nunca no ponto
O meu verso é dessa
Forma: fugidio inexato
O sangue não é lágrima
Mas bóia no mesmo prato
E eu de mim tudo perdi
Ao olhar inconformado
Os dias no calendário
Rasgados e putrefatos
Para dizer do tempo: venci
E nunca de fato
Ter o tempo segurado
Umas vezes ele me prendia
Nas outras me degolava
E o sangue doce foi
Uma mesa vazia
De esperar e embaraço
Tudo o que eu antes dizia
Hoje me olha estupefato
Frangalhos meu sonho inútil
Outroras meus simulacros
Nem fingir mais eu sei
De tanto que me zombaram
E se o verso me verte algo
Me exaspera ser: enfático
Sou a metade do caminho
De um fim que nunca sabe
A que veio aonde termina
se depois de tanta armadilha
Compensa todo vil pedaço.

Julio Urrutiaga Almada In Em Um Mapa Sem Cachorros

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Via Cruzes: à Machado


“Toda cidade que dorme: merece seus pesadelos”

O desgosto enche copos
E esvazia garrafas
A dor desce logo
Arranhando as vidraças
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
A rua deserta flerta
Com meia dúzia de corpos
Talvez alguns poetas
Ou vampiros assustados
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
Brincar com os amigos
Termina em um ouvido atordoado
Nem todos que se abraçam
estão já perdoados
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
Amanheço no centro de triagem
Do inferno:
Dois olhos famintos
No álcool mergulhados
Não fica pedra sobre pedra
Na calçada
Saio dessa vida, não mais volto
Querem brincar de morrer: morram
Pareço mais preso do que solto
Os que ainda puderem me socorram.
Julio Urrutiaga Almada do livro Poemas Mal_Ditos

Instantâneo Enlace

Esperança


Que mundo de sombras este,
Onde a penumbra
Nos cobra favores.
Onde o anônimo
Nos traz dissabores.
Onde quem cala,
Nos fere com a alma,
Não comprometida.
E que depois de tanto, porém,
Sempre há o modo certo
De calar as cicatrizes.

(1999) Instantâneo Enlace

Julio Urrutiaga Almada

Ex - tratos fera


O frio que me congela,
não é o inverno.
Inverno aqui, verão,
Em outras terras.
A Terra que me preservam,
Não dá colheitas.
Colheitas são
dos que prosperam.
(1999)

Julio Urrutiaga Almada

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Angústias


Perder o nunca tido,
isso tenho perdido.
Areias, dedos, firo,
Faro, fúria, ímpeto.
Fera envolta em linho.
Feroz, em desalinho.
Choro, quando brinco.
Brinca, meu destino.
Brinca, o que há de ser,
sem ser tudo, brinca.
Brinca o desdizer.
Brinca o revelado.
Brincando, o clandestino,
lábio inflamado.
Brinca, o que não é,
pinçado entre as sombras,
caminho não nomeado,
futuro assombra,
segundos antes, de ser passado.

02/12/2005

Julio Urrutiaga Almada ,Do Livro dos Silêncios - Editora Corifeu - 2006


Leia mais no Blog Beira do Caminho:

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Modus Operandi


Se não és senhor de ti mesmo, ainda que sejas poderoso, dá-me pena e riso o teu poderio.
(Josemaría Escrivá)
Inventei outra dor. A de ontem era insuportável, estava aprisionada com
seu destino de dias memoráveis, na cela pretensa da previsibilidade. Esperada. Morrerei de uma dor amorfa e estrangeira, distinta, incoerente. Uma dor homicida, que furará com olhar de desdém, as muitas que já senti.

Julio Urrutiaga Almada do Livro Caderno de Ontem

Saia Daqui


Desde o paço da ordem
Até o largo da liberdade
Meus olhos alterados
Acaso olhos exaltem
exalarão fogo e forte
vontade
de sorver
em um picar de olhos:
o vício da imagem
A Esperança é
O trago mais
Sujo da humanidade
Com respeito aos velhos vocábulos
Com despeito aos iniciáticos
Comamos pão e ácido
Não há comida senão:
O roubo galáctico
Eles vendem nossa alma
Entregam flor de plástico
O selvagem a nos informa:
O museu fecha no sábado:
Sabático?
Eu não quero descanso
Eu não quero guarida
Eu só quero uma noite
Que vença a vida


Julio Urrutiaga Almada
do Livro O amor é um precipício do cão

domingo, 19 de julho de 2015

Poema de Tigres



01

As garras são meus olhos,
Esses que eram de qualquer outro,
E na ousadia de minha madrugada
Os instalei de súbito em meu corpo.
Olhos renascidos de não morrer
Onde a morte lhes visita a gravidade.

02

Instantâneos e profundos como a saudade:
Noturna matinal arenosa e incômoda.
Lobos aves folhas e olhar de um poço,
Labirinto circular de meus passos felinos.
O tigre dos gritos do meu corpo
Arrasto e não ouvem. Desfolho
Sem saber o intento no meu rosto.
O Meu Sorriso não tem dizer.

03

Tigres de vôos não vistos,
Não há como ver a altura do imprevisto;
Nem como fugir a fuga dos que tem sina;
Nem como ser luz do que perdeu a vista,
Sem ser brilhar e entorpecer.
Os designados nunca são inteiros
Carregam em seus passos, pés dilacerados:
as pernas e os fatos e as dores.

04

Não há destino exato para a semente no deserto.
Para implacável incerteza desperta.
Para o doer de tigres que desperto.
No tigre dói a não investida,
E assim o tempo cria em mim suas dores.

05

Se persigo veloz tudo que quero:
O fel tenho do não ter e das vontades;
Se passeio ronda a fera como fera,
A vontade que era grande me dilacera.
Sedento da fonte que não seca,
Faminto nas raízes da terra.


06

Quebro a armadilha do labirinto:
Inimigo do transitar das presas,
A prisão do desejo me encarcera.
Os gemidos solitários do secar das ervas:
São explosões inimagináveis do que se queima,
Fogo: angústia nas garras – olhos,
Captura a dor e a corrida do que vejo.

07

Não chamarei de tristes as afiadas unhas,
Nem de solitárias as vítimas da caçada.

08

Há os que praguejam seu destino.
Há os que o destino afaga e cala.
Há no círculo de luz a funda vala
Da fogueira extasiada de algo haver faltado:
Dois dias dois sábados dois olhos,
Ou a mágoa não ter evaporado,
Ou a viagem interceptada de lábios
Que queimariam a febre da fogueira.

09

Quebro nesta tarde com meu correr de tigre:
O braço da sina que me abraça.
Deixem-me por entre flores negras,
Por entre minhas não suavidades:
O tigre que sou – Só garras.
O homem que sou – Só olhos.

Julio Almada, Hora Tenaz


sexta-feira, 3 de julho de 2015

De Olho: Embriagado


Conheci Junkies on the rocks
Que tristes pareciam
Na meia-noite do mundo
Sem música e poesia
Trash on the street
E pó de nostalgia
Andei mil lábios e nem desfaleci
E quando de olhos abertos
O mundo parecendo certo
Mostrou-me o sangue, o fogo e a flor
De pronto era Alice e o país das maravilhas
Não passava e eu nem sabia
De um conto de fados
E uma cama para sempre vazia
Na última sessão de fotos
Um flash dilacerou
Meu coração cansado
Conheci Junkies on the rocks
Em ruas que não eram minhas
Em dias que me caçavam
De volta às mesmas esquinas
Quando a lua já desistia
De iluminar sagas ensandecidas
Hoje molho no pão vosso de cada dia
Minha pena de securas estarrecidas
Meu olho quase morto onze da manhã
E alguém à espreita da minha fugitiva vida
Um amor verso a verso retalhando
Minha dor na qual ninguém mais acredita
E os maus mal parando em pé
Numa solidão de viés quase comprometida
Conheci sweet and darkness
Far away my heart em plena descida
E ruas de um gosto de sal
Que o sol petrificou pra toda vida
Andando só e mal acompanhado
Quién supo hallar mi corazón alado?
Será que alguém se esqueceu mesmo de mim, depois de algum tempo haver lembrado?
Ou quem sabe aqui nos versos
Só e de Olho: embriagado
Posso dizer da vida seus mil lábios
Com línguas de fel e equívocos nos armários

Julio Urrutiaga Almada, do livro o amor é um precipício do cão

domingo, 28 de junho de 2015

Em um Mapa sem Cachorros


Em um dia fúnebre
Antes da hora
Do Mês dito Agosto
O prato do pranto
Foi a flor que chora
Frio e nunca no ponto
O meu verso é dessa
Forma: fugidio inexato
O sangue não é lágrima
Mas bóia no mesmo prato
E eu de mim tudo perdi
Ao olhar inconformado
Os dias no calendário
Rasgados e putrefatos
Para dizer do tempo: venci
E nunca de fato
Ter o tempo segurado
Umas vezes ele me prendia
Nas outras me degolava
E o sangue doce foi
Uma mesa vazia
De esperar e embaraço
Tudo o que eu antes dizia
Hoje me olha estupefato
Frangalhos meu sonho inútil
Outroras meus simulacros
Nem fingir mais eu sei
De tanto que me zombaram
E se o verso me verte algo
Me exaspera ser: enfático
Sou a metade do caminho
De um fim que nunca sabe
A que veio aonde termina
se depois de tanta armadilha
Compensa todo vil pedaço.


Julio Almada
 In Em Um Mapa Sem Cachorros

Súplica


Me ames.
Farias
o inevitável
se o amor ponderado
não fosse
o imponderável
se o amor
não fosse
o temporário
se o impossível
não fosse
o necessário
se meu sempre
não fosse
o embora.

Julio Urrutiaga Almada

sábado, 20 de junho de 2015

 “Só se ama uma mulher quando lhe tememos a pele e o cheiro”, Leio o pensamento de Antonio Maria, querendo lembrar-me do tempo – dos dias desprovidos de razão ou sentido para temê-la assim, quando nossos corpos e cheiros eram órbitas difusas, intocadas e de improvável e quase absurda condição de proximidade – e lembro ou concluo, não sei bem, senti o cheiro dela, o desespero, a sofreguidão, a morte do que eu fui antes, no exato momento em que nossos olhos se tocaram.


Julio Almada

Dança do tempo


A liberdade dela não cabia nos limites da vida de uma pessoa só.
Cabelos soltos, corpo sem excessos e excessivo no mover.
A face impenetrável. A mente desenhando na pista, o amor performático, com seu parceiro feito sob medida.
Cabelos crescendo sem direção.
As luzes intrépidas e esvoaçantes, não lhe faziam sombra. A mulher musicalmente conduzindo o desejo dissolvido em um só ritmo.
Difícil imaginar o não encontro. Bailarinos nascidos para o encontro.
Par de um tempo que não há destino que possa desfazer.

Julio Almada

E a Glória?


78 anos. Nascido no Espírito Santo. Carioca há muito. Pé mutilado e fratura no fêmur: atropelamento. Agressões familiares. Ali estava à espera de uma conciliação judicial. Filha e Pai. Genro e Sogro.
Nadir Glória, a noiva com quem não se casou.
Glória, a esposa, que o fazia sofrer e lhe rejeitava.
Maria da Glória, a mulher que o acolheu em um adultério inevitável. Ele seu primeiro homem, aos setenta anos dela e setenta e quatro dele.
Adultério?! Já não tinha mais vida conjugal com a “segunda Glória”.
Teve Bons empregos. Táxi. O terreno antes muito para seus planos futuros, tornou-se pequeno, ocupado pelas construções do Genro.
Vida de Glórias?
Segundo ele de provações, confessava segurando a bíblia, envolta pelo saco plástico.
Quase morri, contou.
Dormi dirigindo o táxi e caí barranco abaixo, as pedras prenderam o carro na entrada do rio. Eu adormecido.
O carro afundava aos poucos, umedecendo a calça.
Algum parente o havia avistado. Coincidência?
A mão de Deus, afirmava.
Isso posso contar-lhe, apesar dos lapsos de memória, mas do anjo na beira da cama, me lembro bem, sorria.
Por alguma razão ainda estou aqui e saiu andando com a perna arrastada quando o chamaram.


Julio Almada

morte da Morte e a morte da Vida


Em assuntos de amor são os loucos quem tem mais experiência. Sobre o amor, não perguntes nada aos sensatos: os sensatos amam sensatamente, o que equivale a nunca ter amado.
(Jacinto Benavente)
Não se morre de amor perdido. Simplesmente não se vive. Uma existência de raízes, na terra seca, consumidas. Aceitamos o óbvio da vida, o cíclico repetir de algo que nos entendia e é muito comum. Assim tenho visto, a recusa do mais precioso e impreciso: O imprevisto do Amor, contendo todo o tempo não percebido.


Julio Almada

Máculas


“A virtude, como os corvos,
Faz seu ninho entre ruínas.”
Anatole France

Mordida de cachorro. Queda de montanha. Acesso de raiva. Queimadura. Agressão por objeto pontiagudo. Raspões. Ação de agentes corrosivos leves. Nenhuma bala havia deixado cicatrizes no meu corpo. A artilharia do destino se muniu de projéteis mais sutis: Desespero. Solidão. Amores camaleões. Rostos fingidos. Com o tempo tornei-me colecionador de cicatrizes interiores.

Julio Almada

Um Chapéu para o Crepúsculo


“Mas o que vou dizer da Poesia?
O que vou dizer destas nuvens, deste céu?olhar,olhar,olhá-las, olhá-lo, e nada mais.Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem Tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.”
Federico Garcia Lorca

Antônio ou Bernardo ou Miguel. Não lembro seu nome. Ele escrevia um poema há 30 anos e não o havia terminado. Faltava a percepção particular do momento secreto em que a madrugada, desnuda e ousada, pretendia vestir-se de amanhecer. Os amigos o chamavam de caçador de crepúsculos. Outros de maluco mesmo. Assim, quinta para sexta ou sexta para sábado ou desde qualquer madrugada suspeita de tresloucadamente converter-se em amanhecer, podíamos ver Antônio ou Bernardo ou João- já disse que não lembro o nome dele – entretido em conversas várias, menos sobre amanheceres ou fracas luminosidades, pois os seus amigos eram loucos de outra categoria, esperava a visão do que lhe faltava, para terminar o angustiado e reluzente poema. Não sei, se por ato contumaz, dos líquidos entorpecedores – destilados, fermentados, bebidas caseiras – ou por traição abusada do próprio corpo – consciente de que esperar um amanhecer é obra de propensos suicidas ou loucos pouco confiáveis – a verdade é que, o crepúsculo era testemunha do sono desesperado daquele homem e nem ele nem eu, poderíamos dizer se Antônio, Pedro ou Miguel sonhava com ninfas de beleza inebriante, com pacotes de dinheiro ou lingotes brilhantes de ouro ou com a fraca luminosidade que precedia o amanhecer.


Julio Almada