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domingo, 20 de agosto de 2017

UM HOMEM


nisto resulta - inflar as tripas com
tanto silêncio;
e ter o peito fechado
na redoma.
há tanto de ti morrendo lá fora
que chega ser impossível dormir
com um
cadáver desse.

Dom Jorge

sexta-feira, 7 de julho de 2017

SEM ESPELHO


gosto
de poemas assim, sem imagens
*
mas suplicam
q'eu ponha um manicômio aceso,
ou um pônei
que mais se assemelha a um corcel
caído dos cascos.
*
gosto
de poemas assim, sem imagens
*
desses
quando o vento abre levemente a porta
e só pela claridade
pensamos ver
quem é.

Dom Jorge

sábado, 17 de junho de 2017

1933, francine


a neve já foi mais branca - pouco cinza,
é verdade, desde que te apregoaram uma
estrela. ainda tenho a pedra que carreguei
junto com um punhado de arroz e um laço
de nossa mãe. 1933 e já se dizia em erguer
os portões; em arrancar nossos dentes de
ouro e nossos pares de sapatos. depois era
só enterrar estrela por cima de estrela. desde
lá, os pianos temiam perder os dentes...
pensávamos nunca poder deitar uma pedra na
tampa de um querido túmulo - até eu, francine.
até eu.
mas em breve o trem irá esmagar a neve contra
os trilhos. e da janela deste vagão não entra
sequer uma magra réstia de luz: é possível que
tenham posto o sol dentro de um feio pijama.

Dom Jorge

sexta-feira, 31 de março de 2017

ENCHENTE


a casa ilhada,
40’ de chuva
- outra vez
perdemos, maria.
mas não chore,
porque há olhos tão
secos que sequer
existem
- como os meus.
e há casas
tão desertas que sequer
podem morrer
como a nossa, maria.
vem. retira dos bolsos
essas pedras.

Dom Jorge

quinta-feira, 2 de março de 2017

MICRO-ONDAS


um corpo envolto em pneus
queima -
a carne, a violência,
e o sangue
de fato se assemelham
ao fogo.
em teu país, não sabes:
se incineram inimigos
em lixões; e os devolvem
ao silêncio, como fósforos
apagados.
tanta sombra assim
faz da morte pública;
tanto cinza assim
faz do céu fumaça.
e a carne, a violência,
e o sangue
de fato se assemelham
ao fogo - doem e queimam.
mas é noite. corpo-apagou.
a mãe-da-lua é um pássaro feio
e de hábitos noturnos, dizem.
único capaz
de sobrevoar a arcada dentária
deste poema
em chamas.

Dom Jorge

sábado, 25 de fevereiro de 2017

ULTIMATO


e a vidraça
não teme a destreza
da pedra;
nem mesmo um guerreiro vacila
em face à sombra
que lhe reserva
à lápide.
um grito de dor,
veja bem, é espinho repartido
no mundo - não finda,
e nada receia também.
de morte de estrelas,
bem sabemos. são suaves,
não são?
mas o coração, entulhado, escurece;
nunca se sabe
se em vão.
e não é a leveza
o que basta
quando nossos anjos
se atiram contra um trem
de carga?

Dom Jorge