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terça-feira, 9 de junho de 2020


a mosca azul não era sorte
era o abutre sobre o teu cadáver
de que me adiantam as janelas
se velo o féretro que me escampa

só me resta do caixão fechar a tampa

a trampa tácita da tua partida
um dia cinza pós apocalíptico
aqui o que me resta é a paz do rito
a tua alma que paira empoleirada

& eu que me deito e medito neste nada

William Teca


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

eu já havia passeado de samu diversas vezes - com meu pai (que já bateu as botas) e com minha mãe (que está bem viva, mas, por conta de um trauma na coluna, usa um colete parecido com o do homem de ferro, que ela obviamente detesta); pois é, agora foi a minha vez. por questões que o decoro me impede de contar em pormenores, fraturei algumas costelas do lado esquerdo - o que me fez acordar cantando "love hurts", do nazareth, com propriedade, porque o coração dói junto. mas isso não é o pior, além de não poder usar o lado esquerdo, sou obrigado a beber em pé, porque as duas injeções que tomei nas duas bandas da bunda, me impedem de ficar sentado; como diria darwin, a humanidade evolui por necessidade, eu evoluí, agoro bebo e fumo em pé, apoiado apenas no lado direito do corpo, e confesso que a parede é a melhor amiga do homem.

William Teca

da série sinistros insones - dedicado a jorge barbosa filho (vulgo badalhoca bitch)

ipsis litteris
(para quem nunca ouviu "gimme shelter", dos stones - a plenos pulmões)

algumas vezes a humana criatura
se encrua e manda pra dentro oito lexotans
com uma boa dose de destilado cultural nacional

após a metade do cigarro
se sente o efeito e o afago
no fígado nas costelas e no peito

há que se tentar matar
o baixo
o violão
a guitarra
a mulher amada
e dizer coisas engronhadas
que parecem piadas

daí nada melhor que um chutão no peito
catar cavacos é um ótimo exercício para acadêmicos
além é claro da boa poesia de hegel

jeová se vinga
mas o diabo garante bons momentos
eu não sigo a vida ela que me siga

William Tecca 

domingo, 1 de janeiro de 2017

William Teca


na minha escala de ressaca - que vai de um a cinco, acordei com uma nível três. o rádio da vizinha toca "jesus cristo eu estou aqui", na dúvida entre o café e a cerveja, optei pela segunda - seria um esforço hercúleo fazer café, enquanto isso, me pergunto por que razão há três carteiras de cigarro abertas.
William Teca


a felicidade é um pernil no forno - que pururucarei, com um purezinho e arroz com cardamomo, uns legumes, a geladeira cheia de cerveja, a cidra cereser, no mais, após um ano difícil, rogo que todos sejamos pessoas melhores, no ano que vem. beijocas cordiais meus caríssimos. e segue o baile.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

William Teca

se eu ganhar na mega sena, darei video games para os filhos de todos os meus vizinhos (ao menos eles ficarão berrando em frente a uma televisão, ao invés de berrarem em frente a minha janela) - deve ser mais barato do que um matador profissional. por que razão uma criatura resolve se reproduzir, se é incapaz de cuidar da própria prole (e nem adianta reclamar porque eles parecem ter a mesma idade mental dos filhos)? enquanto tal dia não chega, vou pegar umas camisinhas no posto de saúde e distribuir por aqui, ao menos pra tentar evitar que se reproduzam mais.
Sob o colchão mofado acorda como quem se livra de afogar-se
o morador da pensão olha no olho da lanterna
o cano de uma arma.


domingo, 13 de novembro de 2016

reflexões reflexivas v

é possível que minhas crises existenciais se devam ao nome que tenho, eu não deveria me chamar como me chamo (fato que normalmente me gera problemas, porque é muito comum as pessoas errarem a grafia, nas mais criativas corruptelas), meu nome era pra ser "francisco valentim" - os nomes de ambos os meus avôs, mas num rompante, meu pai fugiu do combinado com a senhora minha mãe e voilá, me registrou com a inusitada alcunha de "william crosué de oliveira teca", com a qual, em parte pela convivência, já me acostumei; contudo, nas várias esferas superiores e inexplicáveis à inteligência humana, deve haver alguma tensão entre meus nomes (o que é e o que deveria ser), o que causa uma certa bipolaridade na minha persona. não posso deixar de pensar na hipotética possibilidade: "e se eu me chamasse francisco? seria uma rima ou seria uma solução?".


William Teca

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

William Teca


a patroa viu uma receita de cookies e resolveu fazer, pois bem, fomos ao mercado; lentamente, enquanto pegávamos os ingredientes, fazíamos as contas (lentamente, porque somos de humanas - caíam zeros e faltavam dedos). constatamos que com a grana pra fazer as bolachas, dava pra comprar uma porrada de pacotes prontos (o açúcar mascavo custa praticamente os olhos da cara) - sem contar que eu não precisaria limpar a cozinha. cozinhar em casa já foi mais barato - ser gourmet é coisa de rico.

master tese

William Teca


o orientador se aproxima da bancada (sotaque francês, pós-doc da sorbonne):
"o que é que você está fazendo?"
"uma tese sobre herberto helder, chef."
"e está usando o quê?"
"vou usar um pouco de heidegger, uma pitada de hegel e nietzsche pra acrescentar alguma rebeldia."
"nenhum derridá, nancy, deleuze?"
"não me dou muito bem com eles, chef."
"você sabe que filósofos franceses caem bem em tese?!"
"sei sim, chef."
"mesmo assim, não vai usar?!"
"prefiro não arriscar, chef."
"hum...e isso aqui o que é?"
"são as citações, chef."
"tudo isso de citações?"
"é pra dar mais sabor, chef."
"e já está encaminhado?"
"quase tudo chef, a introdução está pronta, alguns capitulos já saíram do forno e os outros estão marinando."
"e você acha que vai dar tempo?"
"espero que sim, chef."

"vamos ver, vamos ver; tese sem franceses, nunca vi isso."

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

às vezes fico aqui filosofando sobre como irei morrer, tenho dúvidas se será avc, dpoc ou ataque cardíaco. certamente não será rápido e nem indolor, a morte não é bonita. a única certeza é que não me converterei ao cristianismo - e nem doarei meus livros à biblioteca. a pior coisa é o altruísmo e a hipocrisia, ainda mais depois de morto. fiquei pensando nisso, porque nunca vi uma quantidade tão grande de gente que conheço se convertendo, parando de beber, fumar e usando "jesus" e "deus" como pontuação, ser bom não tem nada ver com isso e deus, menos ainda. no meu enterro quero que toque ramones, num cover do maxixe machine.
William Teca

domingo, 4 de setembro de 2016

William Teca


estou padecendo de um drama: moral, ético, físico, afetivo, intelectual, sobrenatural - digno de uma mesa branca ou um galho de arruda ou um exorcismo. há uns dias, resolvi fazer uma seleção de rock terceira divisão, no spotify (pra tirar um sarro e afins), não sei porque cargas de água, não consigo me livrar de "fogath", "nazareth", "bto" etc et al...e eu sofro. minhas manhãs começam com "hair of the dog" e meu dia termina com "hold back the water"; eu já tentei jazz, hendrix e até bach...mas, nada faz sentido. haverá cura para o rock farofa? ou estou condenado ao som de vila e terei que comprar um maverick e beber "sete colinas"? os deuses me castigaram.

sábado, 20 de agosto de 2016

durante boa parte da minha vida, fui, inexplicavelmente, um ímã pra gente maluca, tanto, que acabei por me acostumar com elas. no fundo gosto de gente doida, gente doida tende a ser contundente, e a contundência me agrada, sobretudo neste vale de lágrimas mornas que habitamos. água morna porque virou moda você sempre dourar a pílula, colocar panos quentes, não desagradar os partidários do que se costuma chamar de "politicamente correto" - ou a patrulhinha ideológica te pega e aponta com o dedo. outrora, creio eu, esse papo de "politicamente correto", essa linguagem morna e essa patrulha toda sobre o que falar e como falar era uma conversinha daqueles gatopardais que buscavam a manutenção do dito "status quo", hoje, pasme, é a técnica narrativa por excelência de qualquer um que queira ser bem quisto e combater o "status quo". por conta disso, tenho considerado bem mais interessantes os textos de meus amigos da direita (palavra cujo sentido é um abacaxi, porque se você critica ou questiona qualquer, mas qualquer mesmo, coisa que contrarie a apostila do partido, você é peremptoriamente taxado de coxinha, burro, temerista, racista, homofóbico e mais um monte de tranqueira vocabular que desconheço) do que meus camaradas partidopanfletários da - ó - ""esquerda"" (isso mesmo, com duplas aspas). então, entre o senso comum da cerveja artesanal e do hambúrguer vegano, fico com o rollmops e o traçado - melhor cozinhar o galo e sair com um sincero bafo de cebola com sardinha, do que disfarcá-lo com um odorífico drops de cereja.


William Teca 

terça-feira, 26 de julho de 2016



escrever não é lá um bicho de sete cabeças, é necessário sim alguma dose de técnica, alguma cultura, ler uma dúzia de autores que prestem e voilá: o resto é perfumaria. escritores são uma raça insuportável, eu conheço alguns, mas só me relaciono com eles porque são meus amigos e falam de tudo, menos literatura. quando vejo gente tendo tremeliques de inspiração me dá nos nervos, toda aquela coisa de crise existencial, "ver o mundo com um olhar único" - a vá! fazer literatura (ó) se resume a sentar o rabo e escrever, o trabalho é mais braçal do que intelectual; quando você pega a coisa editada, bonitinha, cheirando a tinta, parece que é fruto de alguma dimensão divina, pois não é, muitas vezes e só fruto da necessidade de pagar as contas, frustração e ressacas (e de um bom editor, aliás, uma figura que trabalha pacas). o problema é o cultismo desse clube - embora, haja muitas facas nas costas, ficam todos como pombos com olhares espantados dando voltas ao redor das pombinhas para comê-las. egoísmo, hedonismo e o desejo de virar tese de alguma universitária gostosinha e ter um lançamento cheio de mortais puxa sacos ao redor; só que isso não é lá muito de bom tom dizer, porque as pessoas se ressentem, pois, o mais marginal dos escritores, ainda que fale o contrário, guarda dentro de si uma moral cristã bem lavadinha e engomadinha - ecce homo.

William Teca

domingo, 26 de junho de 2016

estive aqui pensando em escrever um texto sobre a importância do cu - isso mesmo, cu, sem acento; depois, julguei que, talvez, não seria de bom tom e eu poderia ser denunciado ao facebodoque - por mais que o cu seja uma questão ontológica: todo mundo tem, e quem tem tem medo (aquele terror de que fala o espinosa); kantianamente falando podemos agrupar cus em vários paradigmas, os quais eu não vou citar, me limitarei ao cu sujo. pois bem, o cu sujo é a eminência parda social, e dispensa descrições aprimoradas, sobretudo porque ninguém cuida do próprio ou porque não é seu - é alheio - ou por fazer de conta que não lhe pertence. na idiossincrasia do cu, há que se notar, a personalidade peculiar, principalmente em termos de generosidade, o cu dá e se dá, raramente recebe, não entremos nos termos. mas, o problema jaz no cu alheio, inusitadamente, há pessoas que se preocupam mais com o cu alheio do que com o seu próprio - o que me lembra um poema do françoise villon. no prosseguimento de minhas investigações, cuidarei do meu próprio cu e aconselho que você cuide do seu.

William Teca

domingo, 8 de maio de 2016

para Jorge Barbosa Filho ou vulgo "badalhoca bitch".


gozar dez vezes eu não consigo mais, creio que meu tempo com as putas também passou - eu não gosto delas e elas não gostam de mim; nesse ínterim, a poesia segue. e, mais cedo ou mais tarde, viramos mercenários, seja por ter que dar aula nas uniesquinas puquianas, para ninfetas intelectualoides, ou fazer o eterno freela, pra ganhar o dindin da cerveja. a coisa ainda fica pior, porque poesia é algo que ninguém lê, ninguém partilha e, por si, ninguém consome. a questão é: você pode ser um fodido tomando uísque ou conhaque vagabundo. eu, preferi ser putinha. mas, ainda não deu pra comprar caviar.


William Teca 

domingo, 10 de abril de 2016

tensos meus olhos encaram
o desejo de partir e ir morrer
de rir de minha comédia privada
a cada dia a vida dá uma descarga
se eu pudesse rir sem chorar
se eu pudesse ser sem estar
ora se eu pudesse a posse a pose
um close up um up um enfarto
mas nada é puro acaso se
eu faço o que faço eu largo
da minha mão não saem traços
se tenho engulho da vida a vida

é cara e o conhaque barato

William Teca

sexta-feira, 25 de março de 2016

William Teca


faz umas três semanas que chegou a coisa preta - vulgo o gato - agora estamos aqui ouvindo led zeppelin que, ao lado de bach, é um dos sons prediletos do felino. ainda tenho dúvidas se ele gosta de mim ou se gosta mesmo dos agudos do robert plant. o que sei é que o meu pequeno mundo caseiro deu uma guinada. a vida é definitivamente melhor com um bicho. e quando tenho dúvidas, se cito o derrida, o gato responde: "nãããooo"; pois é, sigo a filosofia felina - assim caminha a tese, assim caminho eu.

domingo, 6 de março de 2016

da série: breves poemas em tempos de revolução
acendo um cigarro
eu e o gato olhamos
pela janela e bebo aquela
que matou o guarda belo
penso se o gato morrerá
de câncer ou outra querela
enquanto isso a grama cresce
e o sol emudece meus olhos
o gato mia a pia pinga e aprendo

a espreguiçar meus ossos

william teca.tecatatau

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016



"a poetisa declama suas poesias", toda vez que, por algum augúrio do destino, me deparo com uma oração como essa, sou tomado de um tremor indômito, me dá até vertigem e tenho vontade de destilar uma catadupa de adjetivos - tamanha minha emoção; cheiro o gorjeio dos sabiás, ouço o olor das flores de laranjeira, o orvalho ressoa nas minhas orelhas e o som de harpas divinas escorre de meus olhos; chego a ver o gramadão verde e cheio de gente sorrindo - como na propaganda do banco itaú, que deve ser o céu - e até penso em acender uma vela pela alma de graciliano ramos.

William Teca

sábado, 6 de fevereiro de 2016

o gato lunar lunava
era uma gambiarra
olhos rabo e orelhas
de diversas cepas combinadas

o gato lunar era noir
e ria como quem se coçava
na rima antilírica da madrugada
o gato lunar miava

a cabrocha fidedigna da noitada
o gato lunar até procurava
mas cortaram seu piupiu
então o gato noir não fazia nada
 William Teca