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quinta-feira, 25 de junho de 2020

NO ALVO



os dados
da roleta rolam
no sentido inverso
da lógica anti-horário
há uma idiossincrasia
no vulto dessa engenharia
de ressignificações
embaralham-se as cartas
entre ágeis trapaças:
o feitiço enfeitiça o feiticeiro
não há punhos nem cartolas
a desafiar a matemática
desse cassino de signos
sinais do caos no tao do cosmos
uma catastrófica manhã
de sangue respingado
no linho do terno extremado 
façam seus jogos, senhores,
a aposta posta à prova
o mestre de cerimônia
com sua gravata de fuzis
será alvejado na testa
o jogo é suicida
o tiro, certeiro
Luis Turiba, 20.06.2020


sábado, 5 de novembro de 2016

FORA/FICA


turbo tango tenso: peso
choro trama pulso: lixo
panos tiros pedras: cerco
bombas tribos ondas: circo
saco seco silva: medo
reza rimas riscos: crespo
olhos solos selos: visgo
saques credos brilhos: cristo
voto traje margem: quente
gangue susto fisco: crime
crosta credo cruzes: misto
karma putas fritas: finge
nervos flora pele: rasgo
golpe nuvens santo: porra
grana drama culto: raso
surto stress sombra: morram
Luis Turiba

LARANJEIRA 43 – BAILE DA ONÇA


Luis Turiba

essa dança é oferenda a teus pés
dai-me a honra, oh sim, divina dama
do meu corpo bailar com tua chama
em passos cênicos de sonhos através
lá fora o Cristo esconde o olhar em nuvens
para que no baile soltemos as mandalas
e a cada rodopio o cio renasça, e se
acenda em teus lábios de onça & caça.
a luz de vela os passos reverberam
teu corpo desobedece tuas sandálias
batom vermelho reflete em teu vestido
a seda longa nas ancas a pele marca
calcinha em vão rodar perder juízos

som de piston clarineta a teus gemidos

EX TENSO


penso logo despenso
dispenso o que repenso
senso e desconfio
no que me fio tenso
- da série "Desacontecimentos Extraordinários"

Luis Turiba 

BICO DA TORRE



A sombra do bico da torre
na terra faz o ponteiro
que marca o momento preciso
da gente se amar.
São flocos de chuva que pairam
no céu de Brasília
dão na vista textura
obra de artista
São blocos caiados de branco
banhados de chuva e de luz
necessidade nesta cidade
de afeto é o que conduz
Me induzo a ficar e a pensar
que sou o céu
E a sombra do bico da torre
é A antena que marca
o momento apenas


Luis Turiba 

ORAÇÃO PARA NOSSA SENHORA DA BALA PERDIDA


Luis Turiba

Mãe,
Afaste de mim esta bala
Este dardo inflamável
Esta seta diuturna
Este terror sem rumo
Este projétil alado e raso
Pois já que elas não cessam
Que pelo menos nos errem
Rogai por nós os passantes
Os transeuntes os pedestres
Os motoristas e as crianças
E principalmente as mães
Não nos faça alvos fáceis
Desta chuva de petardo
Não nos atinja o corpo
Nem a alma nem os prantos
Que veloz, não me alcance
Que sua força não me curve
Que seu fogo não me queime
Que o acaso não me derrube
Eu que diariamente passo
Por favelas becos vielas
Por túneis curvas células
Eu que faço o bom combate
Protegei as nossas vísceras
Das emboscadas bandidas
Dos acertos entre quadrilhas
Do fogo amigo ou polícia
Só te peço oh mãe amiga
Santa do cotidiano
Poupe-nos o banho de sangue

De passagem tão insana

sábado, 1 de outubro de 2016

DeseStresseio


Stress é um aperreio
Nasce nos pés
Vem sem freio
Cresce no bigo
Corre nos veio
Inté chegar
No último fio
Dos penteio
Para domá-lo
Pare! Pense!
Puxe os arreio
Vá ao esvazeio!
Seio ou não seio?
Tudo é uma questão
De filosofeio

- Luis Turiba, em "Bala". Salvador, Bahia: P555 Edições, 2005.