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terça-feira, 9 de junho de 2020

BEM NO FUNDO



Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

quinta-feira, 19 de março de 2020


Paulo Leminski, 

sorte no jogo
azar no amor
de que me serve
sorte no amor
se o amor é um jogo
e o jogo não é meu forte,
meu amor?


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.

Paulo Leminski

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Sobre literatura e sinceridade



"O primeiro personagem que o escritor cria é ele mesmo.
Só os imbecis procuram um eu atrás do texto literário. Em literatura, a própria 'sinceridade' é, apenas, uma jogada de estilo. Um escritor medíocre não consegue ser 'sincero'. Técnica, coração.
Para ser sincero é preciso dispor das técnicas que indiquem, signem, sinceridade. Sem isso, a mais pura das explosões verbais, a mais direta, a mais 'espontânea', será apenas mais uma manifestação de imperícia literária. Um amontoado de bobagens que o tempo vai se encarregar de destinar ao lixo, onde jazem as ilusões."

Paulo Lemisnki, "Ensaios e anseios crípticos".

quinta-feira, 14 de novembro de 2019


"Se tudo pode ser metáfora de qualquer coisa e qualquer coisa pode ser traduzida numa coisa qualquer, não há centro, o centro pode estar em qualquer parte, ao mesmo tempo, ou nunca estar em lugar algum. Numa cidade muito antiga, vivia uma história antiquíssima, a história de uma cidade que foi destruída pela beleza de uma mulher, Helena, mulher do rei Menelau. Naquele tempo, a beleza matava. A Medusa queria paralisar a história, a Medusa queria a pedra. Perseu queria mais, fazer a história, contar a história, ser contado pela história, esse, um dos significados possíveis da fábula de Perseu e da Medusa, diz Tirésias a Heródoto, não me pergunte mais. Saber o futuro é meu castigo, saber o fim de todas as histórias, o encontro das histórias paralelas no esquecimento infinito. Cada cidade, suas histórias. [...] Viajar é mergulhar no labirinto vertiginoso, lendas, cidades, variantes."

p.leminski, trecho de "Metaformose", sem grifo (nem hipogrifo)...

fonte : Ivã Justein Santana

quinta-feira, 24 de outubro de 2019



A quem me queima
e, queimando, reina,
valha esta teima.
Um dia, melhor me queira.

Paulo Leminski,


veloz
como a própria voz
elo e duelo
entre eu e ela
virando e revirando nós



Paulo Leminski

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

PROEMA



Não há verso,
tudo é prosa,
passos de luz
num espelho,
verso, ilusão
de ótica,
verde,
o sinal vermelho.

Coisa
feita de brisa,
de mágoa
e de calmaria,
dentro
de um tal poema,
qual poesia
pousaria?



Paulo Leminski:


TEXTOS TEXTOS TEXTOS

malditas placas fenícias
cobertas de riscos rabiscos
como me deixastes os olhos piscos
a mente torta de malícias
ciscos

Paulo Leminski

sábado, 13 de abril de 2019


"A poesia seria cúmplice, desde o começo, desse sentimento que se chama amor. Eu acho que é uma coisa perfeitamente lógica, natural, porque a poesia, se vocês olharem bem, ela é o amor entre os sons e os sentimentos. Ela já é na sua substância, intrinsecamente, ela já é amor, já é aproximação, no sentido que é amor entre os sons e os sentidos, num sentido que a prosa não é. É por isso que a poesia não morre."
Paulo Leminski, em 1987.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Nem tudo na vida é perfume
Por onde passa a carroça
sempre fica um rastro de estrume

Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.


- P. Leminski

sábado, 21 de outubro de 2017

A quem me queima
e, queimando, reina,
valha esta teima.

Um dia, melhor me queira.

Paulo Leminski
veloz
como a própria voz
elo e duelo
entre eu e ela

virando e revirando nós

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

SUPRASUMOS DA QUINTESSÊNCIA

(fragmento )

O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
tem ultrasentido

Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu inframistério.



  Paulo Leminski, 


sorte no jogo
azar no amor
de que me serve
sorte no amor
se o amor é um jogo
e o jogo não é meu forte,

meu amor?

Paulo Leminski

MERDA E OURO


Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam padres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.



  Leminski, 

sábado, 10 de junho de 2017

HAI
Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.

Paulo Leminski

quinta-feira, 30 de março de 2017

PAROLE IN LIBERTÀ, OSTINATO RIGORE


Grande descoberta da linguística do século XX foi a da função poética da linguagem, por Roman Jakobson. Isto quer dizer que todo mundo que fala é poeta. A poesia é uma propriedade essencial da linguagem, não um arbítrio nem uma fantasia de poetas e literatos.
Todos os povos praticam a função poética. Todas as pessoas no seu dia a dia frequentemente utilizam a função poética. Essa função poética se manifesta quando a linguagem, em vez de se referir ao real, se volta sobre si mesma, como nos trocadilhos, nos jogos de palavra, no uso de rimas, enfim, em todos os momentos quando a linguagem se descola do princípio da realidade e passa a servir ao princípio do prazer.
Só por isso a poesia é a linguagem do desvio, da infração, do erro. Por isso, os poetas são loucos, eles produzem a loucura da linguagem. Por isso, poesia não é literatura, é música, é pintura, é desenho, é imagem, é orgasmo de linguagem.
Poesia é a liberdade da minha linguagem.
A máquina que em nós gera provérbios é a mesma que gera poemas.
Comer e coçar é só começar.
Quem cansa não me alcança.
Mateus, Mateus, primeiro os meus.
Quem vai embora não embolora.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Paulo Leminski.
Jornal Nicolau, n. 18, Curitiba, Secretaria de Estado da Cultura-PR, dez. 1988.

sábado, 19 de novembro de 2016

Morrer


faz bem à vista e ao baço
Melhora o
ritmo do pulso
E clareia
a alma Morrer de vez
em quando
É a única
coisa que me acalma.
— Paulo Lemiski


quarta-feira, 27 de julho de 2016

A uma carta pluma...
a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você
.

- Paulo Leminski, do livro "O ex-estranho". São Paulo: Iluminuras, 1996