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sábado, 2 de março de 2019

ELO




Meu corpo cansado segue por caminho ermo
à deriva no espaço, que lhe consome inteiro,
espreitando pelos becos da noite o seu termo
no trajeto de um tempo que lhe é certeiro.

Segue à procura do elo que não se fecha nunca
e a buscar estrelas na escuridão da noite,
na imensidão que lhe reveste a alma
de culpas e dores que lhe servem de açoite.

Meu eu_indivisível elo entre a mente e o corpo
insistindo na fadiga das horas marcadas a ferro
que tangencia a pele,deixando rastros,
e fragmentos da prisão d'alma em que me encerro.

Esse corpo que se funde aos meus instintos
como palco de prazeres amenos e profanos
sobrevive na junção exata do todo inseparável
e ao universal dilema do existir humano.

MARCIA TIGANI_



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

desafiando a terra ardente




E é na calada da madrugada morna
que seus botões insistem em surgir
e despontam insolentes
por entre os espinhos intrincados
do mandacaru ainda dormente.

Dura uma noite só a branca flor
e ao alvorecer murcha deixando a certeza
da chegada da chuva benfazeja
sempre que nascem as primeiras flores brancas
do subversivo mandacaru.

É festa na aridez do sertão:
esperança renascida com o vento quente e seco
e descortinando o vale vermelho da terra trincando sob os pés,
segue a boiada na ansiosa espera da agua salvadora
enquanto altaneiro ,o fruto violeta da planta espinhosa
é alimento do gado e dos homens de pés no chão

E como o sertanejo,resistente aos embates e ás intempéries
o mandacaru insiste:é a vida que vai driblando a morte
que espreita por entre as sombras do deserto de meu Deus.
Vida renascida por entre espinhos,do cactus verde e arisco
na forma de flor ,quase amor,prenuncio de melhor sorte.

Sonho com as aguas cristalinas do Velho Chico,
sonho com a agua que vertendo do céu em enxurrada,
é o aviso de que Deus ouviu as preces das mulheres da caatinga,
e na estação chuvosa há espaço para risos e bem-aventurança,
e desafiando céu e mar de areia fumegante ,
que não esmoreça jamais
nossa E-S-P-E-R-A-N-ÇA!

Marcia Tigani_ novembro 2010


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

EPITÁFIO




Aqui jaz um coração petrificado,
que um dia sobreviveu à chuva e à borrasca da noite
para encontrar pela manhã a derradeira curva da estrada ,
a escaldante areia a lhe queimar os pés
a sêde atávica saciada em agua turva
e à amores fugidios e improváveis.

Aqui jaz um rosto amímico e sem cor,
que um dia chorou,sorriu,odiou e partiu,
e por vales inconstantes vagou ,
até que na secura interminável das horas,
nunca mais sorriu.

Aqui jaz um corpo fatigado,levado pelas ondas do mar
exausto de tanta espera ,repleto de desejos profanos
tendo a pele forjada à brasa da paixão,
tal como invólucro lacrado de prazeres mundanos .

Aqui jaz duas mãos ríjas e envelhecidas,
que ergueram paredes
fizeram telhados,araram a terra,
deram de pastar aos animais ,adubaram plantas
e depois de fecharem-se em prece ,
fizeram a guerra.

Aqui jaz uma alma aflita,
que um dia habitou olhos,boca e sentimento ,
que criou pinturas e compôs melodias,
escreveu seus poemas e histórias,
representadas nos palcos da vida
e que num dia qualquer de verão, enfim voou.

Aqui jaz um homem inteiro,que tambem foi menino,
com seus inícios,meio e fim,
começos , tropeços,
fantasias e recomeços,
que um dia foi estrela ardente,
e noutros sombra de mim..

MARCIA TIGANI


sábado, 30 de setembro de 2017

RELICÁRIO



Traga-me resquícios do teu passado
para que eu prove somente o necessário
das lembranças que guardaste
nesse teu íntimo e sagrado relicário.
Mostra-me, pedacinho por pedacinho,
segredos de alcova em diário,
para que eu sinta o proibido gosto
de conhecer as entranhas de teu santuário.
Em troca, mostrar-te-ei os carnais prazeres
e já sem nenhum recato,muito ao contrário,
deixarei que toques atraves do meu decote mil vezes,
sentindo seios que te desejam , sem qualquer temerário .
E, acendendo em nós aquela ideia profana
não teças mais nenhum comentário:
ama-me no chão,na rua, na cama
sem fazeres registro da entrega ,nesse teu breviário.
E então,, serei eternamente tua caça
e tu, como meu bom proprietário
cubra-me de tudo o que lasciva me faça
virar erótica lembrança nesse teu relicário.

Marcia Tigani_março 2011