Mostrando postagens com marcador josé regio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador josé regio. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de outubro de 2017

DESFOLHARAM-SE as rosas


DESFOLHARAM-SE as rosas
Antes do amanhrcer.
Desço ao quintal...Que rosas
Hei-de colher?!

O céu parece um muro.
No entanto, amanheceu.
Amanheceu escuro...
Que é das estrelas?que é do céu?

Calou-se o rouxinol.
Calou-se o rouxinol na ramaria.
Prefere a lua ao sol...
Mas veio sol?! Mas isto é dia?!

Mas, já murchas as rosas, apagados
Os astros nos céus baços,
Os rouxinois calados,
E arranha-céus, cimentos, aços,
Como destino
Desta cidade imensa,

Que poderei eu dar ao meu menino
Que vai nascer?
Pois nisto ninguém pensa,
Que ele tem de brincar para crescer?!


 De: José Régio

SONETO DE CIRCUNSTÂNCIA

...de José Régio

Os semideuses são boxeurs, ciclistas,
Futebolistas ou chauffeurs; e Deus,
Com semideuses tais,deserta uns céus
Que a ninguém, já, lograva dar nas vistas.

Para salvar o mundo, há um rol de listas
De provérbios arianos e judeus;
Mas ninguém quer ser salvo! E os vãos troféus
Bolorecem nas mãos propagandistas.

Aristo, demo-cratas e mais cratas
Vão, de atómicas bombas na algibeira,
Contratar paz com artes diplomatas.

O amor dispensa as setas e a seteira.
E em tal progresso, os santos da Reacção
Masturbam-se na imensa solidão...





De: José Régio

Não me peças esmola, que sou pobre,
E avaro do meu pouco,
Se mo pedem!
Não me tragas esmola, que sou rico,
Se penso na miséria
Que poderias dar-me!
Dar-te-ei sem que mo peças.
Dai-me sem que eu saiba.
Expulsei os mendigos do meu Reino!
Cá, só o amor gratuito.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cântico Negro


 
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
 
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
 
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
 
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
 
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
 
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
 
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
 
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
 
 
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
 
José Regio