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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Tenho sido entregue
às mais escuras
das noites mudas.
Que posso eu?
No entre desses espinhos?
Ando tão baixo
quanto as formigas
mas se arbusto não sou
por que tenho vivido
eu coberta de espinhos?
Da queda fez-se um ninho
maceradas folhas de sombra
abrigam o meu corpo.
É o esquecimento da terra.
Mas por que, por que
vesti-me de espinhos?
Si soy el temblor, o lugar
onde o trovão diz
EU é o meu peito
alargado.

 JÚLIA DE CARVALHO HANSEN, poeta paulistana, graduou-se em letras pela USP e é mestre em estudos portugueses pela Universidade nova de Lisboa. Seu primeiro livro , Cantos de Estima, (2009) teve duas edições de materiais, tamanhos e tiragens diferentes. Publicou também Alforria Blues ou Poemas do Destino do Mar,(2013 ) e O túnel e o acordeom (2013). Júlia De Carvalho Hansen está na 85 postagem da série AS MULHERES POETAS...

Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=49266

terça-feira, 3 de setembro de 2013

I



Como não sei onde vamos morrer
por baixo de um lençol branco
só vejo nas minhas unhas um pouco sujas
a limpeza áspera das tuas mãos.

Em outra vida talvez fôssemos nômades
estrelas cadentes
ou o coral que levanta das tuas cartas
os meus pontos-finais de areia
a água resolvida e encruzilhada.

À sombra da figueira brava que sobe pelas tuas costas
cresce um blues furioso, uma flor
a quem alguém chama pelo nome do futuro.

Como um deus judeu
de cem mil nomes em segredo
ou um vazio mais pleno do que turvo
o que ainda não veio
se faz de face

sorri, sugerindo o que mostra
e estende a palma aberta
trouxeste o que me falta?
Todo o meu corpo está calmo
olho ao outro como se visitasse um aquário
entre as anêmonas do vir a ser
a vida sem lógica sentimental dos peixes.

As pontas dos meus dedos rangem umas sobre as outras
e só percebo esta denúncia.

Júlia Hansen