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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Descontente de todos os meus descontentamentos e de mim mesmo, gostaria de me recuperar e me orgulhar um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que exaltei, fortificai-me, sustentai-me, afastai de mim a mentira e os vapores corruptores do mundo; e Vós, Senhor meu Deus! concedei-me a graça de produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que eu não sou o último dos homens, que eu não sou inferior àqueles a quem desprezo."

Charles Baudelaire, A uma da manhã - Pequenos poemas em prosa

domingo, 5 de janeiro de 2014

A MUSA DOENTE



Que manhã trazes, ó musa em mágoas?
Teus olhos fundos de visões macabras
Em teu rosto emergem das negras águas:
A fria doida dor na qual, só, te acabas.

Que duende obsessor ou exu de encosto
Te seduziu para a euforia infame de tua turma?
Que pesadelo ainda se repete no teu rosto
Como se tragada em lodos de promíscua furna?

Tomara Deus que, voltando à boa velha forma,
Teu pensamento batuque outro ritmo
E que, nele, Jesus Cristo toque teu íntimo

Com o primitivo poema da magnânima norma,
Que no eco dos anjos soa dulcíssima cantiga
E nos campos do senhor te estende a mão amiga.

Charles Baudelaire (França, 1821/1867)
Livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski

e Roberto Prado