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sábado, 22 de abril de 2017

OS ABANDONADOS


Certo dia,
a mão do destino,
talvez por descuido,
abandonou-o
nas mãos de uma mulher
abandonada pela sorte.
Em frente a um castelo abandonado,
ela abandonou seu filho
e depois a vida.
Passou de mãos em mãos
e deram-lhe o nome de Jorge,
nome de santo, abandonado.
Estudou em colégio interno,
de meninos abandonados.
Cresceu, sorriu, brincou,
porém seus melhores amigos
abandonaram-no.
Amou, amou, amou feito bobo
e foi abandonado pela mulher.
Hoje, no entanto,
quando a mão do destino
veio para buscá-lo,
não estava sozinho.
Havia três corpos
num terreno baldio,
abandonado,
abandonados.

Luiz Medina

sexta-feira, 15 de julho de 2016

IMAGINAÇÃO


A lua
é só um balão,
onde o guerreiro em viço,
fere mortal, o dragão.
Às vezes é queijo suíço,
às vezes, explode em paixão.
Perplexo e deslumbrado,
assim eu fico a sonhar.
Gagarin não pisou lá,
senão teria estourado.
A lua
é só um balão.
Um balão
solto no ar,
em quatro fases, risonha,
inflada na imaginação,
flutua para quem sonha
e quem não quer acordar.
A lua
é só um balão...

Luiz Medina

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CACOS


Tenho pedaços de mim espalhados por aí, levados pelo vento, pela chuva, pelo pensamento. São cacos soltos, como os de um vaso quebrado, que não colam mais. Como os de um quebra-cabeça, cujas peças desgastadas, não mais encaixam-se. Não consigo juntá-los e nem por isso me multiplico, apenas vou desaparecendo, me distanciando e a cada vez que me desiludo, mais cacos vão surgindo e vou ficando menor, menos inteiro e vou virando partículas de poeira, de lágrima, de esquecimento...

Luiz Medina

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

FOTOS E FATOS


Todo dia de manhã,
pelas bancas de jornais,
eu me perco em tantos fatos.
Às vezes, mexem demais.
Às vezes, estou Pilatos.
Com tantas notícias mistas,
entro em capa de revistas
e mergulho sem remorso.
Porém o que mais me dói
é que a moça da Playboy,
me chama e eu não posso.

Luiz Medina

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

PRISÃO


Tranquei-me
em mim
e engoli
a porta
da chave.

Luiz Medina

domingo, 9 de agosto de 2015

VERTENTES


Meu pai não tocava violão. Não ensinou-me música ou qualquer outro tipo de arte. Era um homem rude. Fora criado num batente duro, onde a aspereza era fruto de um solo árido. Um operário semianalfabeto, que trazia-me sempre restos de brinquedos e sobras das casas que ele ajudava a construir ou reformar. Era de pouco falar e olhava-me, como que pedindo desculpas. Seus olhos eram repletos de lágrimas e ternura.

Com ele foi que aprendi que o amor tem várias vertentes.

Luiz Medina