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quarta-feira, 1 de março de 2017

Espinho


Não sei se tiro o espinho
ou cutuco mais a dor
Quem foi o gênio maluco
que inventou o tal amor?
Não sei se pego meu rumo
ou me arrumo como for
sem saber se tiro o espinho
ou enfio mais a dor
Não há de ser nada, não
vai passar, diz o amigo
Imagine o que então
não dirão os inimigos
da tua cara de tonto
até gostando da dor
em vez de tirar o espinho
só tirar o espinho e pronto
Nem sei como tiro o espinho
se tiro bem devagar
ou tiro devagarinho
vendo a dor me deixar
Não sei se tiro o espinho
não sei se vou aguentar
a falta da minha dor
em troca do teu carinho
Quem foi o gênio maluco
que inventou o tal amor?

(Domingos Pellegrini)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

TEMPO DE AMORA


Quer mudar de vida
quer achar saída
quer jogar pra fora?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer um novo rumo
quer botar no prumo
quer mudar a história?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer dançar na rua
quer sentar a pua
ir pra Pirapora?
Aproveita agora
que é tempo de amora!

Quer ser passarinho
que cuida do ninho
e depois vai embora?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer geléia doce
igualzinha fosse
cozinha de outrora?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer chutar o balde
ir pro arrebalde
pescar umas horas?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer olhar estrelas
ficar na janela
estudar a aurora?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer cada minuto
como se o último
séculos afora?
Aproveita agora
que é tempo de amora!
Quer pingo nos is
quer se feliz
quer dias de glória?
Aproveita agora
que é tempo de amora!

( Domingos Pellegrini )

sábado, 3 de maio de 2014

Leminski livre!


Passei pelo tapumado prédio dos Correios, que quiseram transformar em Museu da Poesia Paulo Leminski, e dei graças porque a ideia parece que morreu.

Antes de tudo, Leminski não merece ser preso num museu, muito menos condenado a ser imobilizado e repetitivo. Ele iria detestar a ideia; diria:
Não quero virar mausoléu em museu!

Vão de novo visitar meus óculos, meus manuscritos, minhas coisas, meus textos imobilizados em cartazes e grafites, e verão os mesmos vídeos e gravações a se repetir...?!

Mas meu maior trunfo na poesia foi não ser repetitivo! Cada poema meu é um, nenhum parecido com outro ou cada um bem diferente dos outros. Não me condenem a ser repetitivo, imobilizado numa exposição que mofará, criará teias de aranha e, enfim, será o contrário de mim!

Minha vida foi um estado de constante experiência – no sentido de ousar, não de acumular juízo. E minha poesia pula da quadra para o haicai, do cult ao pop, flanando pela erudição, ligada nos sons, antenada no astral, numa saltitância entre a lógica e a mágica, com apetrechos e brinquedecos como se manejados diretamente por um Deus adolescente.

São poesias como as figuras num painel do Poty, cada uma por si, sem formar conjunto, série, combinações, nada disso! Nada combinei com a vida, tudo foi ótimo porque inevitável e irresistível,

tudo em mim foi encanto e movimento, portanto não queiram me prender num museu! Nem condenem minha poesia a se vestir de madame, com P maiúsculo, pelo amor de Zeus!

Eu e museu só temos em comum duas letras – e-u... e eu preferia algo como Oficina de Poesia Paulo Leminski, ou Oficina Leminski, ou só Oficininski ou coisa que o valha,

um nome criativo, uma pérola, não uma lápide, pois só o que já morreu vira museu – e eu escrevi para viver. Não porque me pagavam por poesia, mas porque sem poesia eu não vivia!

Então botem meu nome em coisa viva e criativa! Nem precisa ser um local, pode ser um programa de criatividade, crianças e jovens de todas as idades, até no máximo 100 anos, numa teia criativa de ações e relações com meus poemas, lendo, falando, manipulando, musicando, recriando em cartazes, em muros, em vídeos, em gravações, em teatro, em danças e brincadeiras, pois eu só me tornei Leminski porque nunca me levei a sério!

Enfim, brinquem com minha poesia e não queiram glorificar minha memória! Eu cultivei a simplicidade, dos pés à cabeça literalmente. Então: querem me erguer uma estátua? Muito bem, façam em pedra bruta uma grande réplica de minhas sandálias, para que crianças entrem dentro como em trenós, a lembrar que a maior viagem é a imaginação.

Já virei nome de pedreira mas, se querem me homenagear mais, façam uma grande réplica de meus óculos, através dos quais as pessoas possam ver o poente descalços com os pés no chão. Livres, entre o céu e a terra, como eu vivi, então não me prendam em museu!


De resto, para ser honesto, nem precisam me homenagear, só deixem minha poesia viver, que ela se vira como já devem ter notado. ADeus!”

Domingos Pellegrini
Gazeta do Povo.em 06/04/2014

Aí vem o frio!



Vai esfriar, dizia Tia Fátima lá num dia de abril, sol quente no céu azul, e ela:

Tô sentindo nos ossos... – esfregando as mãos como se já nevasse. Mas de repente pulava:

Vamos fazer pipoca! – e, como se obedecendo a um ritual que começava na panela e terminava no céu, o dia seguinte esfriava, nublava, ventava; casacos e até cachecóis saíam dos armários, botas voltavam a ver a luz do dia, cobertores eram batidos a vassoura no varal. A tudo Tia Fátima assistia triunfante, com ar de quem podia até dizer: eu não falei?

Então ela fazia dia a dia seu festival do frio. Sopas de mandioca, mandioquinha-salsa ou feijão, todas devidamente acompanhadas de torradas amanteigadas polvilhadas de queijo ralado.

Antes de dormir, gemada batida no copo com canela e cravo já moído no pilãozinho e adoçada com melado.

De manhã, café com mel, pão de centeio esquentado na chapa, ovos estrelados na frigideira sobre fatias de toucinho fritinhas (naquele tempo ainda não existia por aqui o “bacon”, esse primo travesti do toucinho).

Chá com rapadura era outra especialidade dela. Ralava a rapadura, botava no fundo do bule de ágata junto com as folhas rasgadas à mão – de hortelã, de losna, de alecrim, de mate, de goiabeira ou abacateiro, tia Fátima dizia que só urtiga não dá chá. Aí despejava água quente, esperava um tempinho e servia as xícaras, para a gente tomar “soprando e esquentando a alma”.

Lá pelo meio duma tarde batida de vento, ela chamava os sobrinhos para descascar nozes, enquanto contava histórias de reis e princesas, sapos e príncipes, anões e fadas. Jogava as cascas no fogo, “só pra ouvir o inverno estralar”. E amassava as nozes com um velho e grosso garfo de prata, depois misturava aquela massa oleosa com açúcar mascavo, para passar em torradas esquentadas na chapa do fogão a lenha; e a gente comia em gostoso silêncio, ouvindo o fragor da própria mastigação.

Mas o melhor era, lá quase na hora de deitar, comer pipoca com leite quente adoçado com mel, ouvindo histórias de assombração, de encantamentos, de Jesus menino ou do tempo em que os bichos falavam. É tudo verdade, dizia Tia Fátima:

Toda história é verdade quando a gente ri ou chora.

A gente ia dormir com o coração batendo na garganta, de terror ou de paixão, e acordava no outro dia com a voz clara de Tia Fátima cantarolando:

Tem pão de queijo querendo pular fora do forno!

Claro que Tia Fátima um dia se foi para aquele país sem inverno nem verão, mas até hoje os sobrinhos, quando bate o primeiro frio, ligamos uns para os outros:

- Colheu mandioca pra assar na brasa? Achou mel de jataí pra comer de colherinha? Comprou queijo parmesão pro bolo de fubá? Vai fazer pão com toucinho? E costelinha defumada no feijão?

Ah, no inverno dá uma baita saudade de Tia Fátima!

Domingos Pellegrini

Fonte : Gazeta do Povo . Caderno G.  20/04/2014 



sábado, 13 de abril de 2013

POLACO OCO OU RASCUNHO CASMURRO?



Domingos Pellegrini
 
Rascunho teve época nazista, com matérias que não se limitavam a comentar autores, queriam sua eliminação, como quando estampou em título garrafal: Sebastião Uchoa Leite insiste em fazer poesia: PARA COM ISSO, SEBASTIÃO! Rejeitado pela reação ética de muitos leitores, Rascunho passou a limpo essa fase, mas agora tem recaída (embora precavida porque rescaldado) com a matéria sobre Leminski.
A tentativa de “matar” Leminski tem a precaução de se armar com uma análise argumentativa e digna de Marcos Pasche, revestida porém por um tratamento editorial raivoso e despeitado. Na capa do jornal, em vez de foto do autor (como é regra do jornal), uma ilustração bisonha e um título trocadilhesco que, no afã de depreciar Leminski, deprecia o jornal: POLACO OCO. Nas páginas centrais, um título raivoso e grotesco como a ilustração que estampa: Sobraram apenas os óculos e o bigode.
Acrescente-se que sobraram também os milhares de leitores que já sabiam de cor poemas de Leminski, aos quais agora vão se somando outros milhares. O título original de Pasche decerto foi transformado em subtítulo: Toda poesia de Paulo Leminski revela uma obra datada, vazia e repetitiva. Rascunho manipulou a edição do artigo de forma a “matar” toda a obra de Leminski, enquanto o próprio articulista ressalva que sua poesia tem “brilhantes lances de criatividade”.
Cheguei a sugerir a Alice Ruiz que a poesia de Leminski, dispersa e em edições esgotadas, precisava de uma antologia, pois temia que a publicação de sua poesia integral pudesse resultar num livro de preço distante da moçada leitora. Mas a obra saiu compactada com bom preço e, assim, os leitores podem ter visão geral e suas próprias preferências, apesar das muitas baixices e inocuidades do poeta. Como, porém, seus leitores são afetivos e argutos como Leminski foi, isso não o matará, ao contrário. Ele não se queria Deus perfeito, embora, sim, se dedicasse espertamente a criar a imagem de um “pop star literário” (o que não é crime nem é anti-ético).
É engraçado (ou é desgraçante) que os mesmos que reclamam da literatura não ter mais leitores, não suportam quando algum autor faz sucesso, como aliás detestam os livros de auto-ajuda que, porém, sustentam a indústria editorial, até para que possa também publicar livros outros.
Esperemos que, na onda (que bela onda, Paulo, nós que te amamos estamos tão felizes por você) na onda do sucesso de Toda Poesia venham também a antologia, e a reedição de VIDA, contendo as biografias de Jesus, Basho, Cruz e Sousa e Trotsky, primorosas pela agudeza amorosa com que foram escritas. E que o Catatu continue a encantar quem gosta de vanguardices, e que os Ensaios Crípticos continuem a ser exemplos de visão criativa, com menos ou mais leitores mas sempre a configurar um escritor que não pode ser despeitosamente reduzido a óculos e bigode.
Leminski trouxe à poesia um frescor jovem, uma feição pop, uma aura cult, e, principalmente, uma atitude de vida, que vão continuar encantando os leitores de mente clara e coração aberto. Não será com dois títulos casmurros que matarão Leminski, embora ele esteja morrendo de rir.