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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ANTES QUE SEJA TARDE


Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver.
Não que o mundo dependa de uma só pessoa pra ser melhor, mas se o medo não fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a humanidade.
Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.
Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas e nos assustam nos semáforos com armas na mão. Nos pedem esmolas amontoadas em escolas que não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa subjugar a outra apenas pela cor da sua pele?
Do seu cabelo? Um poema é quase nada disso tudo.
Sou um covarde diante da violência contra a mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50000 deles arrancados à bala do nosso pacífico país.
O que dizer da violência contra os homossexuais e mendigos que são apedrejados nas calçadas das avenidas elegantes?
E se tivesse mais fé na minha humanidade de maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro, sou tão covarde que nem religião tenho, e minhas mãos que não rezam, já que estão abertas, poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam todas elas, mas eu que não tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de produzir esse milagre... de repartir o pão.
E porque os índios estão tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu coração, não me importo que lhes tirem suas terras, sua alma, seus rios... E analfabeto de solidariedade não sei ler sinais de fumaça, eles fazendo guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se tivesse um nome indígena seria “cachorro medroso”.
Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por aí, não concordaria em aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando em busca de terra, ou morando em barracos de madeiras indignas pendurados nos morros, ou na beira de córregos.
Não nasci na favela, mas meu coração é de madeira, fraco.
A lei condena um homem comum que rouba outro homem comum e o enterra na masmorra moderna, mas nada faz contra aquele político corrupto que rouba milhares de pessoas apenas com uma caneta, ou duas, e que de quatro em quatro anos a gente aperta-lhes a mão, quando na verdade devíamos cuspir-lhes na cara.
E eu como um juiz sem martelo não faço nada além de condená-lo ao meu não voto. É pouco, já que sei onde eles se entocam.
A lei é cega, mas acho que lhe fizeram transplante de órgãos numa dessas votações secretas.
Assisto a falência da educação e o massacre contra os professores e sei que muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança máxima.
Fico em silêncio quando a multidão desinformada pede redução da maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos nossas crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12, até que não tenhamos mais crianças nas ruas.
E elas, as ruas, serão tão seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os brinquedos serão visitados nos museus.
Estão cortando as árvores e aceito a cara-de-pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado está nas minhas mãos. Depois fico abraçando o lago poluído quando na verdade deveria estar mergulhado nele, assim como os peixes mortos.
Pagos os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é essa tal “consciência tranqüila” que está acabando com o mundo.
Calado assisto a falsa democracia deste país ilegal, sem alvará de funcionamento e sem licença pra ser pátria, e me emociono com o hino nacional cantado antes do jogo da seleção na copa do mundo.
Perdoe-me por apenas ser poeta, e ter apenas poemas como arma, ainda que ninguém me diga, sei que isso é muito pouco, quase nada.
O sangue que pulsa na veia tinha que estar nos olhos.
O Mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que tem atitude.
Se não posso mudar o mundo deveria a mudar a mim mesmo.
Acho que é isso que vou fazer agora.
Antes que seja tarde.

SERGIO VAZ

*do livro #floresdealvenaria Global Editora


sábado, 13 de agosto de 2016

Felicidade?


Disse o mais tolo:
“Felicidade não existe".
O intelectual:
“Não no sentido lato".
O empresário:
“Desde que haja lucro".
O operário:
“Sem emprego, nem pensar".
O cientista:
“Ainda será descoberta".
O místico:
“Está escrito nas estrelas".
O político:
“Poder".
A igreja:
“Sem tristeza? impossível … (Amém)“.
O poeta riu de todos, e foi feliz por alguns minutos.
Sérgio Vaz

*do livro "Colecionador de pedras" Global Editora

terça-feira, 19 de julho de 2016

FÁBRICA DOS SONHOS


Admite-se sonhadores:
Não precisa ter curso superior, mas elevado, em qualquer grau
Pouco importa a idade, mas tem que ter a alegria de uma criança
Experiência em PAZ e Harmonia
Disposição pra lutar
2 fotos 3x4 Sorrindo ou gargalhando
Não aceitamos cópia do coração, só o original
Tem que saber amar, beijar e abraçar
Noções de contabilidade (tem que contar estrelas)
Boa aparência: despido de qualquer preconceito
Tem que gostar de poesia escrita, falada e vivida
Nem precisa saber rimar
Pode ser triste, fraco, mas sem covardia
Horário: da hora que quiser até a hora que tiver afim
Sexta-básica todos os dias
Ticket-amizade
Plano de saúde espiritual
e vale-teletransporte
*se tiver essas qualidades, não precisa enviar currículo, a gente te acha

SERGIO VAZ

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sonhei que Deus - todo pequeno gesto de amor-
não frequentava igrejas, livros ou estátuas.
Apenas corações...
Só corações.

sergio vaz

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Amor bandido
é quando alguém que não te ama,
rouba teu coração
e não devolve.

sergio vaz

sábado, 6 de julho de 2013

FELICIDADE



A felicidade era um lugar estranho:
Lá,
os meninos
após a chuva
comiam o arco-íris
e saíam coloridos pela rua
jogando futebol,
o futuro era decidido no par ou ímpar
e o passado simplesmente não existia.

Sérgio Vaz


*Do livro "Literatura, pão e poesia" Global Editora

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A ÚLTIMA DOSE




Só depois do último copo
De carregar a última cruz
De discutir o único voto
E de apagar a última luz.
Só depois da saideira
Da última canção
De arrancar a última nota
Da carteira e do violão.
Só depois da última dose
De sorrir o último sarro
E de amargar a última cirrose.
Só depois do último gol
De sambar com a única dama
Ser tema do último show
E de pendurar a última Brahma.
Só depois de extorquir a última graça
De relembrar a última festa
De esquecer a última desgraça
E de esperar pela próxima sexta.
Só depois de cerrar a última porta
De trançar numa única perna
De girar os olhos na última volta
E de beijar a última brasa
É que eu vou me perguntar
Se estou indo pra casa
Ou se estou saindo do lar.

Sérgio Vaz

domingo, 7 de abril de 2013

UM SONHO



Ontem eu sonhei o teu sonho.
Sonhei que os soldados,
cantando e dançando,
libertando-se de todo mal,
surgiam de todos os lugares
para velar o funeral
de todo arsenal
das ogivas nucleares.

No sonho,
os homens não eram escravos
nem de si, nem dos outros,
tampouco das cores,
pois o dinheiro
havia sido morto
no combate com o amor.

As crianças,
cravo e canela,
dançavam com as flores,
como não tinham fome
caçavam estrelas
e quando cansadas
tornavam-se nelas!

Sonhei
que as mulheres e os homens
não tinham coisas, mas sentimentos,
e em sinal de alegria,
plantavam suas orações
não de mãos espalmadas,
mas de braços dados
com o milagre do dia.

E Deus - todo pequeno gesto de amor -
não frequentava igrejas,
livros ou estátuas,
apenas corações…

Ontem,
sonhei o teu sonho
sem saber que também era o meu.

SERGIO VAZ