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terça-feira, 27 de março de 2018

Os filhos do Corno de África




A terra é a minha cama
e o corpo humilhado da minha mãe, a cabeceira
à noite os bichos
escoram-me do frio e comem outros bichos
que nutrem a minha carne podre
não sei o que é um sorriso
nunca conheci outra vida se não esta

Somos tantos
deitados na mesma cama
já não me levanto
a astenia das minhas pernas
já não seguram o meu corpo
às vezes a minha mãe
mete-me um punhado de farinha na boca
para que a fome não me coma

Não sei se sou criança ou menino
aqui somos todos iguais
não existe idades nem formas
as dores vão deformando
as formas do meu corpo
e o medo assombra-me a sombra
que se cala por baixo de mim

Se pensam que nos matam enganam-se…
…Mutilam-nos

Os ossos desfazem-se lentamente
os dentes cravam a terra
tentam libar água das noites húmidas

Todos os dias adormecem milhares
na boca do inferno

Por mais que os poetas destilem
os cantores clamem
os pintores nos esbocem
jamais alguém conseguirá
abrir as portas da galeria horrenda
e expor o massacre da morte
que nos engole em jejum

Conceição Bernardino


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

lágrimas de dois gumes



A noite descia suavemente sobre os meus pés dormentes, de tanto caminhar em vitrinas pardas, agasalhadas pela nudez de manequins que se passeavam em suspiros de glamour.
Não conseguia deixar de pensar naqueles corpos entrelaçados uns nos outros, como se fossem heras a trepar pelas minhas pernas febris de desejo em tons verdejantes de seda pura. Tinha fome do meu corpo ou de outro corpo qualquer, que apenas me tocasse com luvas de pelica, delicadas sonatas num negro piano de cuada.
Toquei-me, e, as pautas escritas em folhas brancas deslizavam em gestos harmoniosos o romper da aurora, o prazer aumentava com a mesma fúria das mãos que saciavam o estremecer das teclas, que se rompiam em orgias de cor preta e branca.
Caí num êxtase selvagem de palmas destiladas, deitada num palco onde as cortinas se fecharam num correr purpúreo de incenso mort du petit Jasmin.
Quando acordei as árvores enroupavam o meu corpo desfolhado, estava submersa em lágrimas de dois gumes num banco de jardim.
O tempo tinha-se esquecido da madame coquet…Olhei de novo as vitrinas, não passavam de folhas de jornal amareladas, lacradas por letras crescentes…” Pour la vente”.

Conceição Bernardino


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

[De que cor é a morte?]



Vou refinando a morte
Sem suster a respiração
Qualquer uma me serve
Anui-me como uma luva

Tenho as medidas certas
E os olhos revirados,
Divididos ao meio, urdidos
Por linhas descontínuas

[De que cor é a morte?]

Pintá-la-ei de frutos
Silvestres, quem sabe
De álcool com amoras
À mistura, ou de rosas
Murchas sem pétalas

Mas tudo bem,
Deixem-se de merdas
Eu também já estive
Morta antes de nascer


Conceição Bernardino

sábado, 26 de agosto de 2017

Liberdade corrupta


Dou-me ao riso das marionetas
e às carcaças das tartarugas
sem medo da chuva obliqua
que permeia o meu corpo solitário

Deixo a porta aberta, a algazarra
das crianças que brincam na rua
humaniza-me a esperança de outras
que morrem de pistola na mão,
e o pião roda, roda, roda…
o fio queima o olhar
das que fazem tapetes
sem sol, sem noite, sem hora.

Não me acordes amanhã
e se por acaso eu acordar
mente-me, diz que O’Neill
ainda está vivo.


Conceição Bernardino

Passos que já não oiço



Sentada no banco deste jardim
carrego as folhas amareladas,
descansam nas minhas mãos
tão enrugadas como o meu olhar.

Já fui moçoila graciosa…

Resta-me agora
este perpétuo jardim
onde os sorrisos se calam
na nudez das árvores,
onde o fado se chora tão bem
nos passos que já não oiço
nem no frio que já não sinto.

Guardo as minhas lembranças
no relento que me agasalha
e quando a saudade me trai
reparto-a com o meu fiel companheiro,
o copo, que me acompanha
em tragos de solidão.


Conceição Bernardino

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ainda que eu morresse hoje

escondo-me de ti nas pálpebras adormecidas da terra
no arame farpado onde cravo a minha dor
na cúpula forjada de um céu inquisidor,
ainda que eu morresse hoje calarias o despotismo
como um abutre esfomeado
que vai saciando a carne
penetrando-a impiedosamente

escondo-me de ti sem despudor
e alimento-me da carne crua
com a mesma crueza que te alimentas de mim;
- agora vem!
enquanto rezo...Salvé-Rainha


Conceição Bernardino

Retalhos I



Hoje o sono profundo borda-me as pestanas com fios de linho, que guardo em retalhos seminus num retrato amarelecido de uma qualquer saudade, cuspida num prado onde o repouso se esqueceu de ti. Nunca me vesti de negro nem o negro se vestiu de mim, apenas disse-te:
- Até já.
Sabia que te traria comigo nas palavras mais amargas, na rudeza inconsciente de uma menina que tinha medo do monólogo das sombras. Das janelas trancadas da minha infértil insegurança, por ainda saber-te vivo na minha carne, impregnada de impressões digitais, tão mórbida como a terra prometida.
O mundo sonhador era tão solitário como um quadrado sem lados…


Conceição Bernardino