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terça-feira, 9 de junho de 2020

as horas




● ?posso te pedir uma coisa ●
● a escuridão ta doida demais com tudo isso ●
● esteiras de tanque passos tiros gritos silencios ●
● nos furam como espinhos de cactos secos ●
● temos bastante vinho o q conversar e recordar ●
● temos ideias do nosso horror e devemos calar ●
● ?posso te pedir q fique comigo so agora ●

● nada podemos ver alem das vidraças ●
● mas com certeza ha mortos em todos os lados ●
● ha paredes desabadas casas destruidas ●
● fogo grosseiro em tudo q nos rodeia e esmaga ●
● temos pão temos vinho queijos e ovos duros ●
● ate musica se bem q devamos fazer silencio ●
● ?posso te pedir q fique comigo essa noite ●

● sim recitaremos no escuro o canto 8 12 e 34 ●
● no q nosso mundo se transtornou e nos rasga ●
● eu bem docemente no teu ouvido como se fosse ●
● pra ser assim mesmo não sendo aquela beleza ●
● q nos exaltava na luz do sol e cheiro de mangue ●
● so não posso falar alto nem podemos rir não ●
● ?posso te pedir q fique comigo nessa vereda ●

● ouve a historia de bal shem q invocava deus ●
● morrendo disse o lugar e como arder a madeira ●
● como orar e deus viria e a segunda geração ●
● esqueceu o fogo a terceira esqueceu o lugar ●
● na quarta geração ninguem lembrava nada ●
● ninguem jamais viu deus nem mesmo bal shem ●
● ?posso te pedir q fique comigo nessa solidão ●

● vc ja sabe q não voltaremos as estrelas a morte ●
● essa sim sabe dançar sabe cantar e se alegrar ●
● sabe tudo q esquecemos tudo q nem sabemos ●
● se fomos um dia e apenas sonhamos q sim ●
● sabendo q esse sim não basta e rosnamos sim ●
● vc sabe no q nos tornamos eu choro sossozinha ●
● ?posso te pedir q fique comigo de mãos dadas ●

● a calma vem como laminas polidas pelo tempo ●
● se não fossem as vidraças ja tariamos fatiados ●
● sem esse piano praonde olhamos imaginando ●
● todas as nossas musicas sem poder tocar ●
● alem do vinho temos conhaque rum whisky ●
● gim com aguatonica gelo e limão verdamarelo ●
● ?posso te pedir q fique comigo inda vivo ●

● sente o vento q não nos toca ele passassim ●
● como um cavalo sem cabeça e esqueletos ●
● de rebeldes esqueletos de mulheres e crianças ●
● de pobres e gays negros torrados em postes ●
● todos queimados tentando sonhar nesse odio ●
● tudo q não é nada tudo q nunca pudemos ser ●
● ?posso te pedir q fique comigo sem querer ●

● ha leite farinha de trigo assucar e passas ●
● podemos fazer um bolodepassas fazer cafe ●
● fatiar o bolo pronto e comer com goles de cafe ●
● so nos olhando sem pensar em nada la de fora ●
● nos olhando comendo bolo de passas com cafe ●
● a conversa faz o tempo passar isso é bom ●
● ?posso te pedir q fique comigo nesse inverno ●

● pega os primeiros figos deste ano perverso ●
● sente as gotas escorrerem depois da dentada ●
● as sementes sob a lingua a carne doce do figo ●
● descendo pela garganta a alegria da vida a vida ●
● a vida plena a vida q inda resiste apesar de tudo ●
● sempre apesar e continuam figos eis a vida sim ●
● ?posso te pedir q fique comigo lutando sempre ●

● ha pas e martelos picaretas e carrinhos de mão ●
● podemos cavar no porão a covardia e o medo ●
● criar aqui embaixo um labirinto sem minotauro ●
● criar depois de muito cavar paz e leveza sim ●
● mesmo sabendo q isso é impossivel eu sei sim ●
● mas la fora ta tão escuro tão brutal e insano ●
● ?posso te pedir q fique comigo mesmo vc morto ●

*

postado  no face e no meu blog de Alberto Lins Caldas  em 21 de julho de 2019.

para Íris Luíz q o encontrou enterrado e Ursula q o tornou um momento de vida e respiração, obrigado.




terça-feira, 17 de março de 2020

kierkegaard ou o palhaço




● incendio no circo - berra ●
● o palhaço nu no picadeiro - ●

● o circo ta pegando fogo - ●
● fogo sem fim q tudo devora - ●

● os clientes juram q é teatro - ●
● porisso riem com violencia - ●

● ele urra urro - burro burra - ●
● acham inda mais engraçado - ●

● entre chamas o palhaço ●
● rosna - rosno com loucura - ●

● com loucura eles riem - ●
● ate entre chamas eles riem - ●

● nas mesmas chamas - vamos ●
● não vamos - ser é não dizer - ●

trutas

● cesar precisa sair ●
● o senado espera o povo espera ●
● inda com esses pedaços de truta na boca ●

● cesar palita os dentes no meio da rua ●
● mastiga o resto de truta q saiu dos dentes ●
● a truta macia pescada pros dentes ●

● cesar gosta das trutas bem assadas ●
● dos palitos afiados de bambu e do senado ●
● bem calado como manda a tradição ●

● cesar não sabe mais o q dira ao povo ●
● o q dira ao senado porq so pensa nas trutas ●
● sempre macias e no palito fura linguas ●

● cesar anda pela rua com o olhar do povo ●
● ele não gosta do povo não gosta do senado ●
● ele não gosta de roma so gosta das trutas ●

● cesar tambem não gosta de facas e espadas ●
● porisso ele grita pra quem olha e murmura ●
● vão todos pra puta q os pariu e ri e ri ●

● cesar vai e vai como um doido varrido ●
● arrastando passos olhando passaros ●
● longe o rio as trutas os barcos balançam ●

● cesar coça a virilha q arde e ri e ri ●
● porq é como se fossem as trutas na agua ●
● quando se mergulha grita ele desesperado ●

● cesar ve o senado ve o povo reunido ●
● depois virão as palavras na hora bem assim ●
● sempre foi assim berra ele coçando o saco ●

● cesar sabe q vai morrer sabe de tudo antes ●
● porisso sou cesar grasna cesar indo morrer ●
● sonhando trutas coçando o saco ele morre ●

*

o leite dos ungulados



● leite quente - leite podre - leite esperma - ●
● sangue no estrume - tropas de moscas - ●
● esperma rubro vindo das dores da noite - ●
● fria demais - q se enrosca entre dores - ●
● não espera - é so deserto escondido - ●
● porisso agarro o peito imenso q flutua ●
● como velho zepelim desgovernado - ●

● cheio de leite - gotejando como chuva - ●
● inverno - feridas me rasgam o peito - ●
● terei leite - terei uma noite - uma hora - ●
● quem sabe furtivo eu durma cheio ●
● do leite podre - leite sangue - dizendo - ●
● ?como dormir - ?como viver ●
● do imenso peito - mastigo o mamilo ●

● com dentes afiados - labios e lingua - ●
● quente o leite dos ungulados - ●
● ouvindo cascos baterem - ●
● afundando no estrume quente - ●
● alcateias de moscas ao redor - ●
● so a fome é mais quente ●
● q o leite dos ungulados - ●

● queimando labios e lingua - ●
● garganta e estomago - ●
● sem o leite dos ungulados ●
● calcando agora estrume quente ●
● entre nuvens de moscas - ●
● ?como dormir - ?como viver - ●
● ha um vento frio la fora ●

● q o leite quente dos ungulados ●
● triturados pelos labios escorrendo ●
● pela lingua garganta estomago ●
● entre manadas de moscas ●
● entre tetas no estrume quente ●
● não consegue aquecer - esquecer -●
● a dor sabe - requer sempre mais - ●

● a dor - so ha dor - a dor so - ha dor - ●
● talvez porisso esse leite ●
● quente dos ungulados na boca ●
● não conseguira mudar nada - ●
● nem mesmo se fosse mil peitos - ●
● so rebanhos de moscas no estrume - ●
● ?como dormir - ?como viver - ●

● leite e sangue - no ferro - no estrume - ●
● moscas voam como morcegos - o sangue - ●
● so a dor - um nome q vem na escuridão - ●
● esse ninguem ouviu - mas ele disse - ●
● eu sei e repito - sempre entre moscas - ●
● não sei - como furtivo talvez eu durma - ●
● leite quente leite podre leite esperma - ●

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

nada podemos fazer




● o ditador acorda so de cueca e de cueca se levanta - ●
● olha bem o quarto - vai ao criado - mudo - de cueca - ●
● carnes flacidas - andar lento - gordo - exausto - lento - ●
● pega a garrafa de conhaque - bebe o vasto copaço - ●
● anda pelo quarto limpo - de cueca frouxa - descalço - ●
● é certo - volta ao criado - mudo bebe outro copaço ●
● do velho conhaque grosseiro - q logo bem entorpece - ●

● vai pra sacada da janela - cueca frouxa - bebado - ●
● o povo q sempre espera - calado - calados dizem - ●
● aquele não pode ser nosso deus - como marionetes - ●
● enquanto isso o ditador se volta e vai ate o criado - ●
● mudo - enche o copaço - conhaque e bebe - não fica ●
● bebado como quer - o ditador não se embriaga mais - ●
● a cueca suja cai - serpente mole ao redor dos pes - ●

● em seguida como podemos ver - foi ate a cama - ●
● sob o travesseiro a armarmada ja espera e sabe - nu - ●
● vai ao criado - mudo - bebe outro copaço inutil e vasto ●
● do rude conhaque - vai ao meio do quarto - para - nu - ●
● coloca na boca o cano - do re volver - aponta certo - ●
● pro ceu da boca - fecha os olhos - sempre covarde - ●
● atira caindo pra tras como fruta bichada - podre ●

● podemos ver no teto como se alguem tivesse ●
● jogado nele uma boa torta quente de morangos ●
● silvestres - o ditador nu - a cueca junto aos pes presa ●
● numa unha imensa - é tudo muito claro como tudo ●
● aconteceu - desde a hora q o ditador acordou ate isso ●
● sem cabeça - como não ha duvida limpem tudotudo ●
● pra esperarmos o proximo ditador - não esqueçam ●

● de colocar a devida escuridão - o revolver liberto ●
● com o desejo claro da bala na boca do novissimo ●
● ditador - o conhaque sujo de solidão - a sacada - ●
● o patio com os bonecos - sem ninguem - o silencio ●
● do palacio - o vazio dos oficios das leis das horas ●
● inteiras do ditador - a falta de amigos - a inutilidade ●
● do poder - do dinheiro - a fria loucura sem dormir - ●

● cuidem logo - o proximo não demora - jamais - ●
● todos eles lutam pra chegar aqui - logo surgem ●
● como amontoado de ratazanas e escolhemos um - ●
● ele gargralha e leva mordidas dos outros - rapido ●
● ta aqui no quarto e tudo precisa ta afiado - ele ●
● prontamente toma o posto - o conhaque - vemos ●
● meses anos depois - a essencia ridicula do tirano ●

● aparecer assim como podemos ver em verdazul - ●
● sozinha - antieuclidiana - essa orquidea q se forma ●
● menti-rosa - ao redor do poder - os q vivem apenas ●
● pra cobrir o esterco do horror - a grande servidão ●
ALC

sexta-feira, 18 de outubro de 2019


danton

● a dor - ●
● essa q não passa ●
● exige demais - ●
● vinho sangrento - ●
● carne sangrenta - ●
● vertigem - ●
● corvos antigos - ●

● sem isso ●
● ela doi demais - ●
● ate o osso - ●
● ate a cabeça ●
● de danton ●
● caindo ●
● no sexto - ●

● caralho - ●
● a dor q não vira - ●
● diz danton - ●
● sem o trago - ●
● vinho rude - ●
● entorpecedor - ●
● so o sangue da dor - ●

● jamais o vinho - ●
● nem a dor - ●
● fecha os olhos - ●
● sonha o sonho - ●
● ondas de nada ●
● em canto ●
● nenhum - ●

● espalhe carrasco ●
● q mandei dizer - ●
● ja não tenho leite - ●
● não tenho fogo ●
● nem revolução - ●
● restara so a cabeça - ●
● mostre a eles - ●

● não existe rei - ●
● so o povo - ●
● o povo so - ●
● criando destruindo - ●
● vida e morte - ●
● universo do começo ●
● ao fim - ●

● assumam a morte - ●
● do tirano - ●
● da tirania - ●
● criem alegria - ●
● leve alegria - ●
● mostre a cabeça ●
● mestre carrasco - ●

● eles merecem ●
● ouvir e ver ●
● restos de palavras ●
● q são deles ●
● pra q haja liberdade ●
● é preciso sangue - ●
● grande potencia - ●

● não se demore ●
● carrasco ●
● o tempo não existe - ●
● tudo é fogo - fogo ●
● q se consome ●
● consumindo tudo - ●
● nem a beleza ●

● so o povo ●
● pode dizer - ●
● me arrasto ●
● pra fora da treva - ●
● grita tambem - ●
● não precisamos ●
● regressar ●

● quem cria o povo ●
● é o povo - ●
● gritou a cabeça ●
● inda no lugar - ●
● se não se gerar ●
● não é povo - ●
● é lama fria ●

● so o povo destroi ●
● o povo - ●
● os senhores ●
● são sombras doentes ●
● do povo q se deixa ●
● torturar e sangrar ●

● dor dor - ●
● grita o povo ferido ●
● porq assim deseja - ●
● nem o vinho ●
● q danton ●
● urrando ●
● tanto amava ●

● dor dor - ●
● pra nada - ●
● porra nenhuma - ●
● como dizia ●
● danton - ●
● a cabeça ●
● de danton ●

● imovel ●
● no sexto ●
● como merda ●
● num pinico - ●
● inda pensou ●
● danton ●
● pensou o povo ●

● uma cabeça - ●
● uma vida - ●
● merda boiando - ●
● nem a dor - ●
● a dor jamais - ●
● nem o vinho - ●
● rubro e violento ●

● danton sonha - ●
● os olhos dele ●
● sonham acordados - ●
● a liberdade - ●
● a loucura - ●
● entorpecimentos ●
● do vinho ●

● diz alguem ●
● gritando ●
● na multidão - ●
● ele ta de olhos ●
● abertos - ●
● so ele ●
● ta de olhos abertos ●

● agora ●
● entre cabeças ●
● vazias e nuas - ●
● danton ●
● não sonha mais - ●
● o vinho ●
● a liberdade ●

● danton ●
● mergulha no suor - ●
● não é mais danton - ●
● não é mais nada - ●
● somos nos ●
● a lama fria ●
● os imoveis os crentes ●

● sem deus - ●
● sem patria - ●
● sem raça - ●
● sem sexo - ●
● sem natureza - ●
● resta a dor - ●
● a dor somente ●

● danton sabia - ●
● porisso bebia - ●
● porisso gira ●
● sua cabeça ●
● no sexto ●
● farto de sangue ●
● catarro e vomito ●

● nem o vinho - ●
● nem o sonho - ●
● nem o corpo - ●
● nem a cabeça - ●
● so danton - ●
● esse nonata ●
● sem eternidade ●

● sem a revolução - ●
● sem a loucura - ●
● nem a vida - ●
● so a porra ●
● do sem sentido - ●
● o q nasce ●
● so resta sofrer ●

*
ALC

todo anjo é terrivel




● todo anjo é terrivel - ●
● esse q caminha ao meu lado - ●
● todo anjo é incapaz - lacrado ●
● nas vitrines da rua nova - diz ●
● todo anjo é impotente e mente - ●
● so faz caminhar ao lado - ao lado ●
● como uma sombra morta sem deus - ●
● terra cacto - terra sem homens - ●
● carne em desespero - ossos secos - ●
● corpos sem olhos - sem linguas - ●
● nada de terrivel nesse anjo idiota ●
● q vive entre corpos e vidraças ●
● passando como falha esgotada ●
● dizendo - te fode sozinho brother ●

● todo anjo é terrivel - ●
● caga e mija no fim da vidraça - ●
● diz - so o sangue - o cu - a loucura ●
● do sangue - fogo frio sem deus ●
● sem luz sem amor sem desejo - ●
● apenas sangue - sangue sangue - ●
● lama de mangue - todos mortos ●
● sonham sombras - a sombra - ●
● sem asas incapaz - nu e queimado - ●
● tentando voar na vidraça fria - ●
● pobres anjos miseraveis - nus - ●
● voando como patos - cinza e po - ●
● sem deus sem homens sem asas ●
● dizendo - te fode sozinho brother ●

● todo anjo é terrivel - ●
● isso não diz porra nenhuma - ●
● absolutamente mais nada - nonata - ●
● vc volta pra casa e é uma lixeira - ●
● tudo imovel idiota e vazio - ●
● não ha com quem conversar - ●
● deus é uma besta criada pra nada - ●
● nos - palhaços - cretinos - perversos - ●
● a rua barrulhenta suja e inutil - ●
● nem eu nem vc não convivemos - ●
● tudo isso não é realmente nada - ●
● vc pensa eu sei ?q fazer ?fazer o q - ●
● não da em nada e eu ouvindo o idiota ●
● dizendo - te fode sozinho brother ●

● todo anjo é terrivel - ●
● mas não ha anjo algum - ●
● so a vidraça trincada e suja - ●
● nem eu q me dissolvo na merda ●
● no alcool - escadarias - labirintos - ●
● eu q não durmo - eu q não como - ●
● preciso voltar a comer restos no lixo - ●
● nem eu nem o anjo fudido - delirios - ●
● sempre delirios - perversidade e lama - ●
● cinzas no ar - faulhas - penas de aves ●
● mortas - nada antes - nada depois - ●
● agora so a dor a dor de todos e tudo - ●
● o rio a dor o rio a dor - dor e silencio ●
● dizendo - te fode sozinho brother ●

*
Alberto Lins Caldas

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

o fogo o fogo




● [o fogo o fogo - a agonia do fogo - seu tumor - ●
● a fumaça - o fogo o fogo - fogo dentro e fora - ●
● antes e sempre - devora cidades - florestas ●
● universos - fogo - a loucura fiel do fogo - o fogo ●
● o fogo - a fumaça - respirar fumaça - respirar ●
● o fogo o fogo - a carne dura do fogo - o fogo ●
● o fogo - a fome - a gula - do fogo o fogo o fogo] ●

● inexistente o tempo o fluxo amolece as carnes ●
● como doem as juntas - caem cabelos brancos ●
● como merda de pombos nos bancos das praça - ●
● a vida não brinca - a vida não ri - a vida é foda - ●
● trilhos entre rochas q se esmigalham - o corpo - ●
● trilhos q se enferrujam - mergulham na terra - ●
● nem os largos dias de prazer e alegria - a dor ●

● desabados como bonecos de palha no campo - ●
● cheios de baratas vermes ratos carrapatos - ●
● desejos mortos do sol ocultos na escuridão - ●
● olhando paredes sonhando o grande nada - ●
● não vimos q a beleza é so isca fraca e futil - ●
● quando abrimos os olhos é hora morrer e so - ●
● resta se dissolver - deixar de ser - nonata e não ●

● nem minha morte - toda morte - morte gelada ●
● do escorpião - jamais existente o tempo beija ●
● meus olhos - a boca - as mãos - o caralho - ●
● a ponta dos peitos - os joelhos - pes e dedos ●
● dos pes o vazio - o vazio como esperma seco - ●
● depois depois nem isso - jamais jamais - não - ●
● sem deus sem anjos sem paraiso ou inferno ●

● nada juntara pedaços - as cinzas - o po o po - ●
● tudo so espalhara mais e mais e nem o nada - ●
● nem o aroma de flores mortas no outono - não - ●
● nem a lama de neve das ruas em ruinas - não - ●
● jamais a primavera - as chuvas - o vento - não - ●
● nem o perfume morno das vulvas vibrando - ●
● nem a desarmonia infinita do desejo - nada ●

● [o fogo o fogo - a agonia do fogo - seu tumor - ●
● o fogo o fogo - a carne dura do fogo o fogo ●
● o fogo - a fome - a gula do fogo o fogo o fogo ●
● antes e sempre - devora cidades - universos - ●
● o fogo - a fumaça - respirar fumaça - respirar ●
● o fogo - o fogo o fogo - dentro - dentro e fora ●
● o fogo o fogo - a loucura fiel do fogo - o fogo] ●

*
Alberto Lins Caldas

e nada notamos




● fidipides - ●
● hemerodromo ateniense - ●
● recebeu ordem de buscar ajuda ●
● em esparta contra os persas - ●

● logo se pos a correr ●
● como se a morte ●
● mordesse seus calcanhares - ●

● tanto correu - ●
● com tanto gosto - ●
● tanta força - leveza alegria - ●
● q mergulhou por dentro de esparta ●
● sem q ninguem atentasse - ●
● nem ele - ●
● esquecido da mensagem - ●
● vibrando na corrida - ●
● com o corpo inteiro ●
● indo por caminhos desconhecidos - ●
● montanhas selvas rios mares mangues ●
● passarem violentos porele - ●
● pensando - num sonho vazio ●
● de por de sol - ●
● irrompendo sem cessar - ●
● como se voasse como se surfasse - ●
● completamente esquecido ●
● do porq corria - ●

● quanto mais vazio mais avançava - ●
● sem atenienses espartanos persas ●
● sem mensagem - ●
● entre o gargralhar de corvos ●
● q voavam ao seu redor - ●
● repetindo talvez a mensagem - ●
● talvez mais esquecimento - ●
● acima dele e dos corvos - gaivotas ●
● gritavam a mensagem - ●
● esparta - os persas - a guerra - ●
● o horror q chega - ●

● a terra silenciosa e quente ●
● berrava - corre - isso é viver - ●
● corre como voam as aves - ●
● como nadam os peixes - ●
● trotam ruminantes - ●
● o resto - cinza q o vento dissolve - ●
● engano - mentira - logro - crença - ●

● inda hoje fidipides corre sempre ●
● muito a frente da sua sombra - ●
● esquecendo mais ●
● a cada passo ●
● não so o tempo - a mensagem - ●
● tão velha tão inutil tão tola - ●
● atenienses espartanos persas ●
● a guerra o horror da guerra - ●
● mas todo o resto - ●
● dor agonia - desespero - dias dias - ●
● vida e morte - ●

● se envelhecemos - ●
● antes de morrermos ele passou ●
● milhares de vezes por nos - ●
● nessa vida tão curta - ●
● e nada notamos ●

*
ALC

o extravagante senhor jourdain




● reduzido ao silencio - absoluto - ●
● ouço corvos - ouço bramidos indistintos - ●
● sei q aqui não é floresta nem zoologico ●
● pra haver esses sons - esses passos - ●
● esse cheiro de mijo de raposas e onças - ●
● cheiro de arvores mortas - o fogo o fogo - ●
● cheiro de peixes podres - essa agonia ●

● porisso me ponho de pe - cambaleando ●
● vou ate o mar - não ha o mar - terra rude - ●
● ondas de ossos - carnes rasgadas e secas - ●
● o mundo se vai como um porco sangrado - ●
● as rochas deslizam toda manhã no sangue ●
● q a noite não coagulou - correm rochas ●
● pelas ruas como cavalos sem cabeça ●

● so tristeza mata alguem - berram na sombra ●
● como se dissessem vendemos pirulitos azuis ●
● q são os melhores pirulitos azuis do mundo - ●
● assim olhando as rochas q flutuam pela rua ●
● sinto o desejo de comprar pirulitos azuis - ●
● as pedras batem nos muros e derrubam ●
● casas - isso não deve importar um suspiro ●

● nessas idas e vindas me vejo num espelho - ●
● vejo um cão - um tigre - ursos - mulheres ●
● coladas a essa carne - a carne - desde dentro ●
● dos ossos - nuas nuas - guardo o corpo delas ●
● como seu fosse um cão - um tigre - um urso - ●
● sinto q ja fomos intimos demais - agora jamais - ●
● chega a hora q so podemos ver e não viver ●

● a beleza nos deixa - mergulhões despencam ●
● na agua gelada do mangue - esse cheiro ●
● de lama viva e nos deitamos no chão sentindo ●
● o sol se dissolver dentro da tarde - quanta tolice ●
● cabe dentro duma vida q se dissolve sem resto - ●
● quanto sangue inda corre pelas ruas e rochas - ●
● cinzas dum urso - corpos de mulheres nuas ●

● fico na cadeira de balanço - com vontade ●
● de pirulitos azuis - digo - vc tem rochas ●
● deslizando pelas ruas nas sangrias da noite ●
● ?por q quer mais - eu mesmo respondo - ●
● porra nenhuma - por porra nenhuma - é o dia ●
● q me faz ficar assim mais triste q a morte - sim - ●
● deve ser porq fui idiota e morno a vida inteira ●

*
ALC

sem leite sem moedas



● fran troffea - q morava na rua das crianças ●
● felizes - parindo com todas as dores e agonias ●
● de quem não tem vida na vida - leite e moedas - ●
● foi com sua criança recenascida logo pra ponte ●
● do corvo - embaixo aguaviolenta - indiferente - ●
● fran troffea jogou la de cima sua criança nua - ●
● q bateu nagua e afundou feito lixo pesado ●

● ela retornou ate o meio da rua e foi dançar - ●
● sem musica - apenas ela e sua dor - girando - ●
● instrumentos a dor - musica o frio desespero - ●
● dançava e gritava - não tenho leite - moedas - ●
● nem moedas nem leite - so a dor a dor a dor - ●
● dançou tanto ate todos virem com ela dançar - ●
● a dor nas ruas praças casas na cidade - todos ●

● sem saber durante dias dançaram sem saber - ●
● caindo um por um - exaustos - sangrando - ●
● mortos - livres dos impostos da dor - dançando ●
● sem leite ou moedas ate a morte ate os corvos ●
● vindo em revoada pousarem nos telhados - ●
● esperando o vasto delicioso almoço e jantar - ●
● so eu vi tudo e sai dali correndo e inda corro ●

*
Alberto Lins Caldas

terça-feira, 7 de maio de 2019

ate morrer




● quando inquieto acordo do meu sono so ●
● procuro logo palavras dos meus sonhos ●
● mas apenas bem poucas são lembradas ●
● jamais como foi o poema completo e claro ●
● mas vou trabalhando as palavras soltas ●
● sei q jamais serão o poema a vida livre ●
● nem poesia nem sonho apenas estilhaços ●

● sei q um dia um poema sera montado ●
● não terei poesia conversa so ou vazio ●
● nem mesmo pesadelo mas um revolver ●
● com todas as balas novo e guloso ●
● o cano limpo vendo a bala passar ●
● sem esse poema não posso me matar ●
● vivo assim criando e rindo ate morrer ●

*
ALC

sábado, 6 de abril de 2019

o sr stranka



● o sr stranka
● no seu carro novinho voava
● pelas estradas cobertas de neve
● ele sentia o cheiro novo do carro
● a leveza a falta de ruidos e a neve
● caindo como agua morna e nua
● como uma mulher rindo num sonho

● o sr stranka ●
● nem sentiu quando o carro derrapou ●
● numa curva branca cheia de arvores ●
● brancas num ceu branco tudo girando ●
● num giramundo branco de neve ●
● de vidros moidos e metais amassados ●
● de couro adolescente rasgado e branco ●

● o sr stranka ●
● tava de cabeça pra baixo sem saber ●
● sem duvidar nada de nada sem poder ●
● fazer nada apenas cair da poltrona ●
● rolar na neve entre arvores imensas ●
● sentindo cheiro de resina e almiscar ●
● sentir o corpo mole e querer dormir ●

● o sr stranka ●
● viu imensos olhos nos olhos dele ●
● enquanto dois chifres entraram ●
● bem fundo no peito do sr stranka ●
● encharcando a neve e virando gelo ●
● ele ria como se fosse dormir ●
● sem saber q tava morrendo ●

*alc

a furia e o nada




● somos vermes q se escondem ●
● da tempestade mergulhando mais fundo ●
● na lama pra futricarmos sobre a tempestade ●
● ?q mais podemos fazer e fazer mais e mais ●
● o mundo não para de girar e giramos sangrados ●
● aqui onde a lama é fria imovel dura e sangrenta ●
● nos tornamos mais vermes e rimos dançando ●

● quando a tempestade é mais violenta ●
● violenta demais cantamos tocamos violinos ●
● imoveis na lama mais fria e imoveis tocamos ●
● recitamos versos imoveis e cagados de medo ●
● dançando imoveis nos mijamos demais demais ●
● uns nos outros rindo como se não fosse nada ●
● la em cima a tempestade ta mais violenta ●

● ela tenta mergulhar nos humilhar e devorar ●
● porisso descemos inda mais e mais na lama ●
● indo entre a lama o limo frio e a rocha ●
● sentindo a loucura da tempestade recitamos ●
● versos tocamos violinos dançamos imoveis ●
● como se não fossemos vermes na lama ●
● sim nos tornamos aqui a mais pura lama ●

● a tempestade jamais nos tocou ou tocara ●
● não aceitamos sua violencia sua loucura ●
● precisamos imoveis de versos de violinos ●
● dos pianos festas entre a lama e a rocha ●
● vermes imoveis vermes de lama e rimos ●
● ?q mais podemos fazer e fazer mais e mais ●
● entre a furia e o nada o som e o silencio ●

● não paramos de martelar covardia e odio ●
● de martelar nosso medo nosso mergulho ●
● cada vez mais fundo na lama recitando ●
● versos dançando cantando imoveis imoveis ●
● assim congelados entre a lama e a rocha ●
● vermes q se escondem e mergulham ●
● entre a furia e o nada o som e o silencio ●

● aqui embaixo vivemos indignos e nus ●
● covardes na lama fria podre imoveis imoveis ●
● mas não vivemos como os vermes de cima ●
● podres de servidão ilusões mortes e crenças ●
● vermes q morrem como servos imoveis ●
● da tempestade rodopiando sem saber ●
● entre a furia e o nada o som e o silencio ●
Alc

porto de porcos



● tentei pensar no porto e senti nojo ●
● daquela manada repulsiva e sordida ●
● cada um deles sem exceção repulsivos ●
● cada um deles como porcos espojados ●
● no centro repulsivo da pocilga q gira ●
● ate o mar de mijo e merda repulsivos ●
● principalmente agora tudo repulsivo ●

● os professores os alunos os colegas ●
● todos com os cascos bifidos dos porcos ●
● deitados no centro obsceno da pocilga ●
● advogados juizes funcionarios bedeis ●
● o rio os mascates de doces e salgados ●
● a dançarina o louco todos repulsivos ●
● ate eu mesmo repulsivo vivi ali ●

● porisso tenho tomado banhos demais ●
● vivi deitado e nu no centro da pocilga ●
● empanzinado de palavras repulsivas ●
● com uma mulher repulsiva e porca ●
● a porca repulsiva e sordida g gira ●
● com vizinhos repulsivos e porcos ●
● num trabalho porco e repulsivo ●

● tudo no centro repulsivo da pocilga ●
● cada coisa lugar e animal é repulsivo ●
● cada ideia é repulsiva sem ser nada ●
● não é um pensar é bufa mofo é nojo ●
● cada palavra so se agarra as outras ●
● duma maneira repulsiva e rola e cai ●
● jamais duma maneira boa e musical ●

● andam dançam roem repulsivamente ●
● suados como porcos repulsivos q giram ●
● no centro da pocilga q gira e gira ●
● todos grunhindo tristes como porcos ●
● no centro da repulsivo da pocilga q gira ●
● num bando numa manada numa rale ●
● q não passa duma pocilga repulsiva ●

● todos puros todos limpos e lindos ●
● se contorcendo na lama no estrume ●
● todos certos todos corretos e lindos ●
● se contorcendo no centro da pocilga ●
● no centro repulsivo da pocilga todos ●
● bajulando todos mordendo e suando ●
● no centro repulsivo da pocilga ●

● mães repulsivas com suas barrigas ●
● repulsivas cheias de filhotes azedos ●
● todos repulsivos e filhotes ao redor ●
● no centro repulsivo da pocilga q gira ●
● sob os olhos vazios e repulsivos ●
● dos q pensam q foram os cafetões ●
● repulsivos de mães q tossem e giram ●

● as ruas as escolas as igrejas o vento ●
● tudo repulsivo no centro da pocilga ●
● politicos meganhas padres a tribo toda ●
● os pederastas enrustidos os pintores ●
● todos rodopiando no centro obsceno ●
● no centro da lama e do esterco q gira ●
● no centro obsceno da pocilga q gira ●

● os mortos q se borraram de medo ●
● os q se mataram de medo os poetas ●
● os vivos fedendo a suor e esterco ●
● no centro obsceno e azedo da pocilga ●
● sem q nenhum deles consiga saber ●
● q são porcos sangrados no centro ●
● q gira no centro obsceno da pocilga ●

● as cobras os escorpiões os inimigos ●
● a burrice deslizando repulsiva e azeda ●
● no centro obsceno da pocilga q gira
● as escolas os presidios os bancos ●
● as luas vermelhas a fumaça a tosse ●
● nus os porcos todos dançam e giram ●
● no centro obsceno da pocilga q gira ●

● tentei pensar no porto e senti asco ●
● nojo das pontes dos peixes asco ●
● de cada tijolo de cada roupa e beijo ●
● de todos aqueles porcos girando ●
● na lama no esterco no centro obsceno ●
● sempre daquela pocilga repulsiva eu disse ●
● daquela pocilga ninguem vai escapar ●

● nem os capachos nem os servos ●
● nem os covardes nem os impostores ●
● por poder e dinheiro no eixo podre ●
● da pocilga q gira q gira nem o medo ●
● nem a tolice nem o torpor q gira e gira ●
● impostores e patifes no esterco repulsivo ●
● do centro obsceno da pocilga q gira ●

● nem morrendo se foge da pocilga ●
● ali vão se reproduzir sem fim e sempre ●
● reproduzir so o mesmo o mesmo so ●
● no centro obsceno repulsivo da pocilga ●
● ali todos berram so o trabalho liberta ●
● ali todos berram viva a morte a morte ●
● no centro repulsivo da pocilga q gira ●

*

Para Carlos Moreira
26 de julho de 2017.

segunda-feira, 25 de março de 2019

agora é nossa vez




● q era uma vez ●
● 1 menina q a mãe dela mandou ●
● q ela levasse pão e leite pravodela ●
● a menina foi indo pela floresta ●
● quando 1 homem falando entre dentes ●
● interrogou ?pra onde vc vai olho no olho ●
● dela ●

● ela disse ●
● eu vou pra casa da minha vo ●
● q fica entre as arvores na volta do rio ●
● ele inquiriu ●
● ?por qual caminho vc vai ●
● porum ●
● ou pelo outro ●

● ela disse porq era de dizer sem pensar ●
● q so vivia e seguiu por ali no incerto ●
● como tinha dito enquanto isso o homem ●
● foi na frente pelo certo e chegou primeiro ●
● na casa davodela matou ela a avo dela ●
● da menina e despejou o sangue dela ●
● num garrafão pra não perder nada ●

● depois fatiou a carne dela bem fina ●
● pra depois vestir a roupa dela de dormir ●
● se deitou na cama dela esperando a menina ●
● q bateu na porta ●
● o homenhavo disse entre ●
● ela foi dizendo trago ●
● da casa da mãe pão e leite ●

● o homenhavo disse ●
● coma a carne fatiada e beba o sangue doce ●
● q ta em cima da mesa tudo preparado pra vc ●
● a menina comeu muita carne ●
● bebeu com muito gosto o muito sangue ●
● ficou alegre mais viva q a vida ●
● e quase bebeda desse vinho ela disse ●

● enquanto isso o homenhavo ●
● disse tire a roupa ●
● venha se deitar comigo ●
● ela a menina perguntou pro homenhavo ●
● onde coloco a roupa ●
● o homenhavo disse ●
● jogue no fogo q vc não vai precisar maisdela ●

● pra cada peça de roupa q ela tirava perguntava ●
● pro homenhavo ?e agora o homenhavo dizia ●
● no fogo meu amor os sapatos no fogo meu amor ●
● as meias no fogo meu amor a saia no fogo ●
● meu amor a blusa no fogo meu amor a calcinha ●
● no fogo meu amor ●
● tudo no fogo no fogo no fogo sempre no fogo ●

● venha logo q vc não precisa de mais nada ●
● e se deitando na cama a menina disse ●
● como vc é peluda o homenhavo disse ●
● é pra te aquecer então ela disse ●
● q ombros largos ●
● o homenhavo disse ●
● é pra te abraçar melhor ●

● a menina disse q pernas imensas ●
● o homenhavo disse ●
● é pra te envolver bem forte ●
● a menina disse ●
● q olhos grandes ●
● o homenhavo disse ●
● é pra te ver melhor nua e bela na cama ●

● porisso ela disse ●
● então vem me chupar ate o gozo infinito ●
● quero conhecer a loucura antes ●
● da tua loucura dos teus dentes ●
● da tua vontade de gozo e morte
● daquilo q te chama chama pra violencia ●
● abre a boca usa essa lingua ●

● q não foi feita pra falar ela disse ●
● so assim saberei como serei e sou ●
● preciso da tua fome colada a minha fome ●
● assim a menina gozou e gozou e gozou ●
● na boca na lingua do homenhavo ●
● q se levantou dizendo agora é tua vez ●
● assim a menina abriu os olhos ●

● dizendo ●
● q caralho gigantesco e delicioso ●
● o homenhavo disse é todo teu ●
● e ta duro demais ●
● é preciso q vc chupe até o fim ●
● ela sem perder tempo começou a chupar ●
● chupou tanto q o homenhavo gozou gozou ●

● tanto e tanto q não parava mais de gozar ●
● e de gritar e de gozar e de gritar e gozar ●
● depois dormiu enquanto a menina com a faca ●
● q não tava na historia abriu logo ●
● o pescoço do homenhavo q de tanto gozar ●
● e gritar nem viu a morte chegar ●
● q isso ninguem ve nem jamais vera ●

● o homenhavo ali agora repartido cabeça tronco ●
● e membros na cama a menina nua se levantou ●
● pra terminar de comer a carne e beber o sangue ●
● da avo q era doce demais e a carne q durante ●
● muitos dias comeu ate não se fartar comendo ●
● tambem a carne e bebendo como se fosse vinho ●
● o sangue do homenhavo ●

● o sangue de 1 a carne do outro ●
● o sangue do outro a carne de 1 ●
● q ela sabia q inda tinha muito mais ●
● aqui passam lenhadores ●
● caçadores mercadores ●
● lavradores namorados servos todos ●
● uns idiotas deliciosos ●

● onde eu moro tem carne demais ●
● tem sangue demais tudo de bom ●
● gordos magros altos baixos muita carne ●
● começando com minha mamãezinha ●
● com as roupas da avo olhando no espelho ●
● ela disse so rindo so rindo so ●
● q dentes grandes vc tem meu bem ●

*
ALC


sábado, 2 de março de 2019

musica




● quando é tarde ●
● da noite e todos dormem ●
● pego meu violino ●
● sem cordas e no estabulo toco ●
● como se fosse ●
● pra multidões embevecidas ●
● e risonhas ●

● sentindo o cheiro ●
● de esterco novo e mijo velho sim ●
● das nossas vacas ●
● e cavalos em silencio ●
● me ouvindo ●
● tocar o violino q foi do meu avo ●
● e meu pai destruiu ●

● hoje sem nenhuma corda ●
● mas é assim q a musica existe ●
● se não assim seriam apenas ●
● sons acordando vacas ●
● misturando a musica ●
● com o q destroi a musica ●
● nem mesmo o cheiro ●

● de esterco novo e mijo velho ●
● das nossas vacas ●
● e cavalos em silencio ●
● seria musica ●
● assim as noites fluem ●
● pegajosas ligeiras e plenas ●
● logo antes ●

● do sol aparecer ●
● vou me deitar e durmo ●
● o pouco tempo ●
● pra ir fazer ●
● o cafe ●
● o bolo ●
● da manhã ●

● sinto q o leite cresce ●
● se adensa no meu peito duro ●
● q a qualquer momento ●
● escorre pela barriga ●
● pelo pubis pelo grelo ●
● ate as pernas ●
● os pes ●

● como se a terra desejasse ●
● beber ●
● com uma boca ●
● cheia de dentes ●
● meu leite q cresce ●
● e se adensa ●
● com a violencia duma gula ●

● distante do violino ●
● do esterco e do mijo ●
● inda assim eu gozo quando ●
● o leite toca meu grelo duro ●
● quando o leite ●
● toca a musica do gozo eu sei ●
● q a musica da noite vira ●

● noite de moscas q voam ●
● ao redor como violinos ●
● acompanhando meu violino ●
● sem cordas ●
● ao redor do esterco ●
● do mijo q a treva segrega ●
● antes de mais um dia idiota ●

*
ALC

katabasis




● não sei se posso afirmar ●
● se era uma noite como as outras ●
● ou se eu tava bebado ou lucido demais ●
● mas a lua se movia tão silenciosamente ●
● q parecia levemente roçar a abobada nua ●
● como se fizesse parte das folhas secas ●
● absolutamente imoveis na calçada ●

● ou com algum ninho de ratos sob o solo ●
● das arvores onde o sonho dos filhotes ●
● dissesse algo a lua q tateava a abobada ●
● sem unhas com dedos vivos cristal de luar ●
● todos brincando nos sonhos com as folhas ●
● secas e absolutamente imoveis essa noite ●
● como se apenas lua e sonhos se tocassem ●

● não sei se posso afirmar ●
● porq tudo não passou dum segundo ●
● no mais puro silencio a lua de cristal imensa ●
● sobre a abobada de cristal sobre os ninhos ●
● de ratos onde talvez algum deles morresse ●
● outros sonhassem folhas imoveis na calçada ●
● não sei porq tudo se dissolveu num segundo ●

● so restou o rio violento as gaivotas dormindo ●
● alguns ratinhos se dissolvendo sob arvores ●
● outros sonhando folhas mortas na calçada ●
● como se dissessem a lua sempre sem unhas ●
● assim com o luar sem peso ou existencia ●
● não sei se foi bebado ou lucido demais ●
● o q se passou o q não pode ser dito ●

*
ALC

anabasis




● fixo ●
● desde criança ●
● desde q abriu os olhos ●
● tiresias olhava o sol ●
● sem tirar os olhos do sol ●
● fixo os olhos de tiresias ●
● via somente o sol ●

● ate nas noites o sol se fixava ●
● preso nos olhos de tiresias ●
● andava pelas ruas ●
● girando feito louco nas praças ●
● chegava ate a borda nua ●
● do pier ouvindo o mar ●
● com o sol dentro dos olhos ●

● todo dia o sol o sal ●
● do mar comeram os olhos ●
● de tiresias sempre sentado ●
● diante do mar com o sol ●
● dentro dos olhos o sal dentro ●
● dos olhos comendo os olhos ●
● de tiresias deixando abertas ●

● 2 fendas como tocas de rato ●
● negras e vazias entre a testa ●
● o nariz as faces a boca vazias ●
● viver com esses porcos viver ●
● com esses idiotas viver ●
● com quem não sabe ●
● o sal não sabe o sol ●

● orelhas imensas ●
● abanadas pelo vento ●
● maiores q o mar ●
● as ruas as praças os porcos ●
● orelhas maiores q a morte ●
● quem sabe tambem o sol ●
● é o sol sim sempre sim o sol ●

● depois o sal sempre o sal ●
● um dia vira o nada ●
● aquele q nem nada pode ser ●
● nem seria ?como querer ●
● quanta alegria sera a morte ●
● quanto a isso nem o sol ●
● nem mesmo diante do mar ●

● o sal ●
● o verdiazul rebrilhante do mar ●
● q não pode ver sem saber ●
● q é verde q é azul ●
● q é antes de tudo e sempre ●
● verdiazul ●
● assim tiresias ●

● cego pelo sol pelo sal ●
● giramudo pela cidade violenta ●
● ate q se tornou mulher ●
● ate q começou falar baixo ●
● tão baixo como se gemesse ●
● como se cantarolasse calada ●
● como se quisesse gritar ●

● depois se tornou cão gaivota ●
● caranguejo tubarão aguaviva ●
● todos cegos girando pelo sol ●
● ate q alguem perguntou ●
● a tiresias o impossivel saber ●
● assim tiresias quase rindo ●
● respondeu claramente ●

● como se soubesse tudo ●
● devorado pelo sol nas ruas ●
● lambendo faminto o sol ●
● na beira do pier o sal ●
● como se fosse açucar ●
● assim foi tiresias o resto ●
● sonho tolo de quem nada sabe ●

● no fim das forças afogado ●
● eles sempre se afogam ●
● ou furam os olhos ●
● mulheres se envenenam ●
● se enforcam se jogam caem ●
● do ceu como aves mortas ●
● ?quem sabe os olhos ●

● se existissem os olhos ●
● não fosse o sal o sol ●
● ?quem sabe a bela xota ●
● q veio no lugar do pau ●
● porq se foi por o sol ●
● inda teria aqui entrepernas ●
● sangrando o gozo ●

● o sal o sol ruidos do mar ●
● esses olhos sem olhos ●
● ?um homem se afoga ●
● ou se afogara amanhã ●
● entre os rochedos sem saber ●
● como se abre o mar ●
● se não fosse esse viver ●

● olhando sem olhos o sol ●
● o sal ?quem seria tiresias ●
● nenhum de nos o sol o sal ●
● mulher e homem todo animal ●
● ate q o sol o sal levou ●
● aquilo q não era nem seria ●
● pra onde não deveria ●

● não sem antes tiresias dizer ●
● tudo igual carne gozo tristeza ●
● mesmo sangue mesma dor ●
● de cima a baixo um sossomente ●
● assim tiresias se dissolveu nareia ●
● dalgas secas e aguasvivas mortas ●

*
ALC

sábado, 9 de fevereiro de 2019

musica




● quando é tarde ●
● da noite e todos dormem ●
● pego meu violino ●
● sem cordas e no estabulo toco ●
● como se fosse ●
● pra multidões embevecidas ●
● e risonhas ●

● sentindo o cheiro ●
● de esterco novo e mijo velho sim ●
● das nossas vacas ●
● e cavalos em silencio ●
● me ouvindo ●
● tocar o violino q foi do meu avo ●
● e meu pai destruiu ●

● hoje com nenhuma corda ●
● mas é assim q a musica existe ●
● se não assim seriam apenas ●
● sons acordando vacas ●
● misturando a musica ●
● com o q destroi a musica ●
● nem mesmo o cheiro ●

● de esterco novo e mijo velhos ●
● das nossas vacas ●
● e cavalos em silencio ●
● seria musica ●
● assim as noites fluem ●
● pegajosas ligeiras e plenas ●
● logo antes ●

● do sol aparecer ●
● vou me deitar e durmo ●
● o pouco tempo pra ●
● ir fazer o ●
● cafe ●
● o bolo ●
● da manhã ●

● sinto q o leite cresce ●
● se adensa no meu peito duro ●
● q a qualquer momento ●
● escorre pela barriga ●
● pelo pubis pelo grelo ●
● ate as pernas ●
● os pes ●

● como se a terra desejasse ●
● beber ●
● com uma boca ●
● gulosa ●
● meu leite q cresce ●
● e se adensa ●
● como a boca ●

● do violino ao redor ●
● do esterco e do mijo ●
● so assim eu gozo quando ●
● o leite toca meu grelo duro ●
● quando o leite ●
● toca a terra e eu sei ●
● q a musica da noite vira ●

● noite enquanto as moscas ●
● voam ao redor como violinos ●
● acompanhando meu violino ●
● sem cordas ●
● ao redor do esterco e ●
● do mijo q a treva segrega ●
● antes de mais um dia idiota ●

*
ALC

domingo, 3 de fevereiro de 2019

polvora molhada




● polvora molhada lama de neve ●
● passaros famintos acordam a escuridão ●
● o barco reaparece na lama sem saber ●
● isso de manhã cedo quando o mar se vai ●
● refeitos declamam polvora seca lama de neve ●
● quem sabe alguma arraia compreenda ●
● as arraias tão no mar aqui é a grande lama ●

● os mortos declamam polvora molhada ●
● lama de neve enquanto o mar retorna ●
● destroçando tudo pra se refazer amanhã ●
● os mortos q declamam polvora molhada ●
● tocam passaros famintos sombras q voam ●
● mortos não sabem de passaros e palavras ●
● declamam em silencio so polvora molhada ●

● essa noite q nos olha nos olhos declama ●
● lama somente lama polvora molhada lama ●
● o nada q sustenta tudo afunda silenciado ●
● toda noite toda noite noite e nada de nada ●
● so amanhã reaparece da lama e declama ●
● polvora molhada polvora molhada e nada ●
● as arraias olham o abismo e nada de nada ●

● polvora molhada lama de neve ●
● declamam os mortos com o mar distante ●
● nenhum deles escuta compreende ou sabe ●
● tentam gritar pros passaros sim as sombras ●
● quem sabe as arraias compreendam sim sim ●
● ou não se fara nada de nada polvora molhada ●
● porq antes e depois do mar so ha mortos ●

● mortos declamam polvora molhada ●
● não pode ser pra eles nem pras arraias ●
● não pode ser pras sombras isso não não ●
● nada se ouve nada pergunta nada responde ●
● vem o mar pra destroçar sempre sem se ver ●
● teatro de sombras das palavras e dos mortos ●
● lama de neve dentro das palavras imoveis sim ●

● essa noite q nos olha nos olhos declama ●
● o medo q é tudo so pode declamar impotencia ●
● polvora molhada lama de neve e silencio ●
● quando o mar recua e o naufragio se refaz ●
● teatro de sombras teatros do medo do teatro ●
● depois o mar se destroça no duro silencio ●
● nada se ouve nada pergunta nada responde ●

*
ALC