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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Proibido Falar em Trabalho

Piada que contavam na antiga União Soviética: — Quando o Mac Donald’s lá se instalou, foi um total sucesso de público. Porque todos “corriam para ver” russos trabalhando.

Isso não é nada, diríamos nós brasileiros. Vocês não sabiam que no Brasil, tem um tal de Ponto Facultativo ????

Ponto Facultativo ??? Surpreender-se-iam os estrangeiros. O que é isso ???

É uma espécie de Feriado, que o Governo decreta. Responderíamos.

E os estrangeiros, perguntariam: — E os feriados ? Acabaram então com os feriados ? Lá não era o País do Feriado ?

Calma, mais devagar ... Para que tanta pressa ... ? Segunda-feira eu explico.

E porque só na segunda-feira ??? Hoje ainda é quarta-feira ??? Surpreender-se-iam de novo os estrangeiros.

É que hoje é véspera de feriado !!! Responderíamos.

Pronto. Os estrangeiros entraram em parafuso ...

Melhor não fazê-los esperar até segunda-feira. Pois poderiam pirar de vez. Poderemos ser responsabilizados. Então vamos logo explicar a eles esta nossa instituição nacional: O Ponto Facultativo. Mesmo porque, essa coisa de responsabilidade não é conosco ...

Explicando. No Brasil, a maioria “trabalha” no Governo. Ou seja, nas Companhias Mistas, nos Ministérios, nas Secretarias, nas Autarquias, nos Departamentos, Fundações. Bom, para economizar tinta e papel, os bons brasileiros “trabalham” nas centenas de milhares de Órgãos Públicos, das esferas, Municipais, Estaduais, Federais e Autárquicas. E tem ainda aqueles que trabalham em empresas privadas, tipo, prestadores de serviço, empreiteiras, fornecedores, que atuam, diretamente com ou para o Governo. E ...

Sim ... sim ... E o Ponto Facultativo, intercederiam os estrangeiros, impacientando-se.

Ah sim, quase ia me esquecendo.

É que no Brasil, quando é feriado numa quinta-feira, é praxe o Governo decretar Ponto Facultativo, para a sexta-feira subseqüente. O que libera o Funcionário Público da obrigatoriedade de ir ao trabalho, na referida sexta-feira. Quer dizer, o Funcionário Público, pode ir trabalhar se quiser. Mas se não quiser, não precisa ir.

Então, só os puxa-sacos vão trabalhar, nestes dias de Ponto Facultativo. Afirmariam os estrangeiros.

Sabem que eu nunca tinha pensado nisto.

Mas sinceramente, acho que nem os puxa-sacos iriam trabalhar. Porque, mesmo que quisessem, quando é Ponto Facultativo, os Órgãos Públicos não abrem as portas ...

Mas no sábado, então, volta todo mundo pro batente. Concluiriam os estrangeiros.

Sábado ??? Quem trabalha no sábado é otário meu ...

Osiris Duarte de Curityba

Publicado no Recanto das Letras em 06/10/2008

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Irmão que Voltou

Eu e meu irmão gêmeo, fomos muito amigos e unidos. Ele acorbertava minhas travessuras e eu as dele. Quando nós tínhamos uns 14 anos e como meu pai, meus tios e uma tia solteirona fumavam, resolvemos também experimentar, pois víamos com que satisfação e elegância eles degustavam o tal cigarro.

Então falei para meu irmão: — olha, vamos no armazém do seu Otto comprar “no caderno” um maço de mistura-fina, que é o cigarro que o papai fuma e sempre nos pede para ir lá buscar. — E o papai nem vai perceber, completa meu irmão, lembrando também dos fósforos.

Foram os 11 segundos (e não os 11 minutos) mais vibrantes da minha vida. Num local isolado do sítio onde morávamos, meu irmão, tal como um cavalheiro, após acender o seu cigarro, gentilmente me ofereceu um. Foi muita emoção, pegá-lo, colocá-lo na boca, acendê-lo e dar a minha primeira baforada. Uma das poucas, pois, não adquiri e não tenho o hábito de fumar.

Depois daquela emoção toda, veio a pergunta: como voltaremos para casa com cigarro e fósforo ? Escondemos tudo num oco de uma árvore perto dali. Evidente que não comentaríamos com ninguém aquela nossa ousadia. Se nossa mãe ou nosso pai soubessem daquilo, um castigo severo, ardido e doído viria com certeza.

Foram mais duas ou três tentativas para tornarmo-nos fumantes. Desistimos da idéia, pois não compensava o mal estar causado e a tensão de um flagra. Gosto e cheiro ficavam na boca, o que poderia denunciar-nos. Balas de hortelã que eram mais gostosas e mais baratas que cigarro, completavam nosso ritual fumígero.

Meu irmão Dirceu, viria a falecer 3 anos depois, num acidente de caminhão, o que em mim provocaria um forte impacto. Forte a ponto de, com freqüência, ele aparecer-me em visões e quase que diariamente em sonhos. Por anos, evitei os lugares no sítio onde brincávamos, tampouco passei por perto daquela árvore, onde num oco, escondíamos o cigarro e mantínhamos nosso segredo.

Certamente ninguém soube da nossa aventura tabagista, pois jamais ouvimos comentários ou insinuações sobre nos virem ou ouvirem que fumávamos escondido.

Eu casei, minhas irmãs casaram, meus irmãos também casaram. A minha irmã caçula, Dulcinete, foi a última a casar-se. Quando o filho dela João Dirceu (uma homenagem ao nosso irmão falecido) tinha cinco anos, numa ocasião em que eu e ele estávamos sózinhos, inesperadamente, falou-me: — lembra tia, quando nóis tinha quatorze anos e guardava o cigarro na árvore ?

Naquele momento me voltaram lembranças do meu irmão morto há quase 30 anos.

Voltei a sentir o gosto e o cheiro daqueles poucos cigarros fumados.

Aquele episódio, que já tinha me esquecido, nunca o revelei a ninguém. E tenho certeza de que meu irmão Dirceu também nada daquela história dos cigarros, houve contado ou comentado com alguém. Era um segredo nosso. Ninguém poderia ter relatado aquilo para meu sobrinho João Dirceu.

E nas vésperas do nascimento dele, meu irmão falecido me apareceu dizendo que estava preparando-se para voltar. E considerando, não só o comentário do pequeno João Dirceu, sobre os cigarros e muitas outras semelhaças e coincidências, de temperamento, comportamento e atitudes, meu sobrinho é a reencarnação do meu irmão Dirceu.

Osiris Duarte de Curityba
Publicado no Recanto das Letras em 22/09/2008
Código do texto: T1191321

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Haicais da Chuva

de repente venta
prá casa ... rápido ... rápido
logo vem a chuva

-9-
nuvens carregadas
terceira hora da tarde
choverá bem forte

-22-
vem daqui há pouco
uma breve chuvarada
equatorial

-41-
a chuva contínua
um quase adormecer
domingueira tarde

-49-
na tarde chuvosa
o balanço e a gangorra
molhados e sós

-59-
na chuva ... lá fora
ao abandono ... deixado
um pé de botina




Osíris Duarte

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Cartões de Visita

aos nossos colegas de classes integrais que já nos deixaram


Na comunidade militar, fala-se que a tropa é o espelho do seu (dela) comandante.

Eu diria que o cartão de visita, é o espelho de seu (respectivo) titular.

Não creio ser necessário explicar sobre as frases acima. Elas “falam” por si próprias.

Mas a história dos cartões de visita, ou cartões comerciais, é interessante.

O nome já diz. O cartão de visita, originalmente, era para solicitar ou marcar uma visita.

Explico melhor.

Antigamente, lá pelo século XIV, todo o cidadão de bem, portava cartões de visita. Ou seja, um retangulosinho (que não era guloso) de papel de superior qualidade, com unicamente, o nome (e sobrenome) do titular, escrito. Em alguns, constava também a cidade donde o mesmo provinha. Não o cartão, mas o seu titular.

E o tal cartão, chamava-se, de visita, pois servia para, unicamente, solicitar ser recebido (pessoalmente), pelo visitado.

E também, para dar a saber que um cidadão de bem, esteve a visitar outro cidadão de bem, que estando ausente, o mesmo era deixado com o mordomo ou com alguém da criadagem do visitado, dando a entender que o seu titular desejava marcar uma visita.

Naquela época (século XIV), evidentemente que os cartões eram caligrafados, certamente com tinta nanquim (Made in China). Daí a importância do calígrafo, isto é, o profissional que escrevia (à mão) os cartões de visita.

Passados uns dois séculos, e, já com o advento do sistema de impressão com tipos móveis, os cartões de visita começaram a descaracterizar-se. Não o eram mais caligrafados, e, passaram a ter mais conotações comerciais ou de negócios, do que propriamente de visita. Incluíam (além do nome e sobrenome de seu titular) também a atividade profissional e o endereço, comercial e/ou residencial.

Passados mais uns quatro séculos, os cartões de visita, descaracterizam-se por completo, pois além dos endereços e atividades comerciais (e vejam só a que ponto se chegou), os tais cartões traziam número de telefone ... Que heresia !!! Uns até estampavam imagens pictóricas e/ou logotipos ... E alguns portadores mais ousados, utilizavam o verso dos cartões, para mensagens de otimismo, ou bíblicas. Inacreditável.

Passados mais uns sessenta, ou pouco mais, quase no fim do século XX, aí a coisa liberou geral. Foi um tal de colocar, endereço eletrônico, letras em relevo, letras coloridas, e até tem cartões com a fotografia do dono. Um despropósito.

Mas tudo isto é história.

Eu conheço pessoas (em geral são profissionais liberais) que são fanáticos por cartões de visita. E até os colecionam.
Um dia, marcando uma visita por telefone, fui à casa de um destes colecionadores. E lhe forneci o meu cartão, para que ele o incluísse na sua (dele) coleção.

Voltando para (minha) casa, no caminho, me lembrei que tinha comigo uma porção de cartões, que por esta vida afora, fui guardando. Uns porque eram bonitinhos, outros porque eram de pessoas queridas, etc.

Chegando em (minha) casa, com certeza ainda influenciado pela visita recém realizada, comecei a olhá-los.

E vejam que um dos meus favoritos, é de fato um legítimo cartão de visita. Ou seja, unicamente contém o nome (de um tio meu já falecido) e a cidade (Curityba). Notar que não se trata, no caso, da cidade onde ele faleceu, porém a que ele então residia. E com a grafia antiga.

Iniciou-se praticamente uma hora da saudade, com os vários cartões que guardava comigo. E poeticamente, cada um deles me contou uma história. Ora sobre o titular, ora, sobre a ocasião em que me foi ofertado, ora sobre a cidade onde o obtive, etc.

Um dos mais interessantes, é um cartão que recebi de um investigador. Era um cartão confeccionado sobre de uma fina chapa de alumínio polido, com cantos arredondados. O titular dele foi um aluno que tive. Ao recebê-lo de suas mãos, em troca do meu, comentei: “este seu cartão deve ter-lhe custado caro, para confeccioná-lo”. Ao que ele me respondeu: “mas os meus serviços, também são caros”.

E olhando os outros, um por um, reparei que alguns eram de pessoas que eu sabia já terem falecido. O primeiro, um cartão comercial da Merrill Lynch; seu titular foi um dos passageiros falecidos em acidente de aviação ocorrido na decolagem de um vôo da TAM, sobre a cidade de São Paulo. Outro, era de um advogado, meu ex-aluno, morto por um colapso cardíaco fulminante. Outro, era de um habilíssimo ilusionista e ventríloquo.

Um outro, também de um ex-aluno, gerente “Prata da Casa” do antigo Banco Bamerindus do Brasil, que o manterei com especial carinho.

Estava em devaneio, quando minha filha, que é também a minha dentista, me pergunta o porque de eu estar olhando aqueles antigos cartões. Alguns já amarelecidos.

Disse-lhe que cada um me contava uma história, etc, etc ... E comentei que alguns titulares daqueles cartões, já não estavam mais neste mundo ...

E ela me disse: “puxa Papai, até parece que quem lhe dá cartões de visita, morre ... !?”

E eu, filosoficamente, lhe respondi: “tudo é uma questão de tempo ...”

A propósito, eu tenho comigo, quatro cartões, de ex-colegas das classes integrais. Pela ordem que os recebi: 1º - Ivo Leonel Paciornik; 2º - Ricardo de Chueri Karam; 3º - Érico Oda; 4º - Jazomar Vieira da Rocha ...

Seriam os titulares do 3º e do 4º cartões, respectivamente, os próximos ... ???

Osiris Duarte de Curityba
Publicado no Recanto das Letras em 28/12/2008
Código do texto: T1356908

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Noite do adeus...

Na densa garoa,

lentamente,

você ia sumindo...

Osiris Duarte
Igual a bolhas de sabão...
foram-se as infâncias,
das minhas inocentes crianças.

Tão frágeis e tão breves...

Osiris Duarte

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

espelho...espelho teu

Te enxergo em contraluz,nua,lindamente...
...que ao espelho te ajeitas,demordamente.
Vejo,em corpo inteiro,teu frontal refletido,
teus ombros,traseiro e pernas,com libido.

Esse teu natural...linhas nada angulosas;
suaves harmônicas...mil curvas...as tuas.
Teus cabelos(sinuosas e infinitas ruas);
tuas mãos,quentes,úmidas ...sequiosas.

Imagens ,que você e teu espelho me deram.
Inesquecíveis...de frente,de lado,de costa.
Pouco importa,o que os anos te fizeram,
pois é bem assim,que este teu homem te gosta.
Osíris Duarte