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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Epifania




homero gomes

Para ana damm –
que teve essa epifania aos 6 ou 7 anos de idade.

Ela caminhou lentamente em direção àquele volume de luz clara que se expandia. A areia era fofa nos seus pés. Sentou no escorregador apenas para ver.
Crianças corriam, caiam, davam risadas. Viviam sem perceber a possibilidade de virarem sombras nos brinquedos retorcidos.
Mas ela percebeu.
A menina viu o fim brotar com esplendor; feito o amanhecer de pequenas nulidades.
Ela percebeu que os ossos das crianças correriam os ventos gemendo futuros. Viu os seus ossos pequenos virando poeira de infância.
E sentiu medo de deixar de ser.
O pequeno corpo da menina estancou no meio do parque. Sem querer brincar, anulou o grito e esperou a primeira fagulha.

Revista Cult, ano 11, n.º 130, novembro/2008.


segunda-feira, 11 de junho de 2018

Desvelamento



(Ao som de We Die Alone, de Lamb of God)


Tontura nos olhos. Pressão na fronte. Lentamente, os passos são vencidos. Segue em frente, não possui destino; não possui mais. Sofre como flecha lançada sem vontade.

Com chinelos poeirentos, arrasta pedras e galhos pela noite de sombras. O silêncio é quebrado pela fraqueza do andar. Entre a trilha e a mata, o suor da caminhada ofegante.

Sobre a pele, fiapos de pano. A brisa gelada entrando devagar. O arrepio da pele pela lembrança do sereno.

A roupa corroída não cobre a vergonha. A pele à mostra expele dor. Tingido de sangue, o vestido desfeito seca lentamente.

As flores da estampa gritam e choram. Escorrem pétalas através do tecido desmanchado. O vento dança no traje domingueiro.

Sofre a que não será mulher. Sofre a menina humilhada, segurando uma boneca sem sexo. Apenas uma menina que caminha entre a trilha e a mata. Ofegante.

Ouvindo os ruídos das sombras na estrada, tenta esquecer o pavor das presas na carne. Tenra carne de menina que atrai feras. Uma após outra, sobre ervas e papoulas, rasgando a carne da menina. A carne.
Jogada no chão. Lambida na face. Mordida na pele. Sangrada na inocência do sexo.

Cães, cobertos por feridas, saciados. Bestas, em pus, cobriram a fêmea que colhia flores. A fuga somente nos dedos entrando na terra escura.

A menina caminha sabendo a pureza perdida e a inocência pingando sobre os pés.



Homero Gomes
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quarta-feira, 19 de março de 2014

Joana Corona (1982-2014)

Homero Gomes


"agora há o resquício,
e há também a imagem que me cria,
para que eu siga sendo
este outro.
agora sou um traço de pólvora.
a fotografia-fuligem, a imagem-pó -
o livro-espectro."


{No poema Petróleo, publicado originalmente na revista Lado 7, n. 4, Rio de Janeiro, 2012.}

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Afecções do Ausente



Poeira negra e veneno no ar.
O mundo continua após tudo,
mesmo que nada.

Pilhas de corpos,
seres sem metafísica,
para o passeio, entre sangue e vísceras,
do oculto na neblina da história.

O ausente ainda olha um mundo infectado.

E dele não ri.
É o sorriso apagado no muro das cidades;
o que foi
e que se perde a cada feto que brota.

Retirado à força,
embalou o espírito na necrose do outro.

Mas o outro não importa;
somente o que se foi.

Chega de vermes e de vísceras.
O sangue que escorre da gengiva
chora o que foi arrancado da inércia.

O ausente apenas sabe,
não chora o sangue ingerido,
que rega de espinhos o ventre do outro.
Apenas sabe.

Sangrado feito lixo,
ainda olha a sua ausência.

Ele sabe.
Em um mundo infectado, resta apenas sua marca.


Homero Gomes, em "Solidão de Caronte". Ed. Patuá.