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segunda-feira, 1 de julho de 2019

DISPARIDADE



eles são todos redondos
que farei eu de minhas quinas?
logo eu, tão cheia de ângulos!

eu não caibo
nada encaixa

eles, tão planos e circulares
parecem plenos
desavisados de um diâmetro tão pequeno...

e eu aqui
eternamente a conformar minhas arestas
nas helicoidais difusas
desta minha conchacaixa




samizdat oficina e editora




Por falar em violência



Bom, ingressei nesse fim-de-semana acompanhado de uma pneumonia. Essa seria pra mim a pior notícia do mês não fosse a que veio de Goiás, onde uma enfermeira acabou de matar a pancadas seu cachorrinho na frente da filha de 2 anos.

Os casos de maus-tratos a animais no país não é coisa nova, mas está, ainda bem, sendo mais veiculado, debatido e criando, felizmente, picos de indignação. O grande problema, como se sabe, é a impunidade ou a fragilidade da lei penal brasileira. Maus-tratos a animais aqui é regido pela lei de Crimes Ambientais de 1998 e dá, no máximo, 1 ano pra um sujeito que extermina com crueldade um gato, um papagaio ou qualquer outro bicho. Nos EUA um indivíduo foi condenado a 9 anos de prisão por ter queimado um pitbull.

Gandhi certa vez disse “pode-se medir a qualidade de um país pela forma como seus animais são tratados”. No Brasil a cultura da indiferença ao sofrimento e ao não temor pela punição começa desde cedo. Vemos crianças atirando pedras em cães ou em cavamos e achamos normal. E daí para um patamar superior, com jovens matando animais com creueldade, pelo prazer do ato, é um ato “criminoso” no papel apenas. Cestas básicas ou termos circunstanciados resolvem e o psicopata está de volta às ruas para continuar espalhando seu modo cancerígeno de viver a vida.

Desse estágio em diante encontramos mães que largam seus bebês à própria sorte em caçambas de lixo, em sacos plásticos nas calçadas, etc. Que criação tiveram? Em que valores se espelharam? Que tipo de vida pretendem ter? Matar um filhote de gato foi só o início.

Dizer que a culpa é só do governo é hipocrisia. Dizer que a culpa é só da família que não educou, também. O controle de natalidade é uma ferramenta importante a ser trabalhada, mas passa-se primeiro pelo ajuste do campo social de emergência. Nesse ponto, o primeiro passo é uma consciência ampla de família. Trabalhar a mente do pai e da mãe nesse sentido: há condições de ter filhos? É necessário tê-los? Essa é primeira meta. Mas esse tipo de pensamento também passa por uma reforma política. Porque é sabido que a miséria gera votos. A miséria, ela própria, cria uma indústria de votos. Então, esperar que o cenário macro mude sem a mudança micro, é como querer que o adulto não seja traumatizado, estranho, rude ou violento se o que ele viu na infância foi barbárie, se ele, aos 2 anos, viu sua mãe matar um cachorrinho na pancada.

samizdat oficina e editora



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Um amigo em terras desconhecidas



Ao menino Santos, da Ilha de Luanda

Santos em algures da Ilha de Luanda durante a caminhada na calçada ainda em construção, encontrou-me a falar de peito trancado sobre quão custava-me conhecer os nomes daquela cidade, sei que o lugar chama-se ilha, uma autêntica face do futuro que Luanda procura para si, investindo rigorosamente na (re)construção.
Santos vem de longe, mas tão perto para si que muito gosta da vista marítima que acompanha os sons da maquinaria da Monta-Engil Angola.
Lá vem o menino de 10. De lá vem para cá vai. Santos caminha para junto de um desconhecido que sou para si. Pára e conversa. Giro a sua volta e inicio uma nova marcha a favor da direcção que ele toma.
Lado a lado, Santos conversa. Vai andando enquanto contempla a sua cidade que está ansiosa para o futuro.
Inquilino da sua amizade, também converso feliz por ter achado, finalmente, um amigo nesta terra que me é difícil relacionar com as coisas, com as gentes, com os códigos e com as ruelas. Uns verdadeiros mussekes ditos e bem descritos por Luandino Vieira nos derradeiros momentos da (re)novação de que Luanda é vitima. A ilha é mesmo um lugar inexistente. O potencial que este invisível cercado de mar tem é de embalar emoções
Santos tem noção disso e por isso vai cantando e contando.
_ Antes a estrada era aqui, agora é ali. Isto está mesmo a mudar – reconhece, Santos, o meu amigo.
Ele conta-me que está a caminho de casa, mas antes passará de casa de alguns amigos. Diz-me que foi “enxotado” da sala de aulas porque não trazia o caderno da prova. Mas não é assim que contou.
_ De onde vens?
_ …da escola.
_ Ah, que bom! Eu também estudo. A que horas entraste?
_ Entro às seis horas.
_ … E sais a esta hora?
_ Não.
_ Não! Então porque é que te encontras aqui? Fugiste?
_ Não fugi, tinha prova.
_ Então como foi?
_ Não fiz porque não trazia o caderno da prova. Esqueci em casa.
_ Como assim? Tu tens a prova e deixas o caderno em casa? Eu nunca deixo o caderno.
O rapaz calou-se e consentiu, para de repente voltar à conversa.
_ Em que escola você estuda?
_Bem, eu estudo na Escola de Jornalismo em Moçambique. Sou moçambicano. Consideram-me jornalista.
Santos levanta a cabecinha e olha-me já com desdém. “Não é possível que este gajo seja jornalista, está a gozar comigo” imagino que ele pensa enquanto continua com o riso irónico para a minha cara.
Olho para aquele menino com emoção. “Ele é meu amiguinho” – digo para mim mesmo.
_ Sabes que tenho um sobrinho assim como tu? Ele anda na 5ª classe.
_ Tenho um amigo na 4ª e eu vou passar para li encontrar.
_O meu sobrinho chama-se Helder e tu?
_ Meu nome é Santos. Os meus amigos chamam-me de Kutchu, mas a minha mãe chama-me de Santos.
_ Santos, grande nome! Eu também sou Santos.
_Mentira…
_ Pois, menti mesmo. O meu nome é Edu, Eduardo… Edu.
_ És Eduardo.
_ Isso mesmo.
E vai se fazendo esta amizade enquanto contra-peamos a calçada olhando para o mar, os peixes, homens e as respectivas mulheres quase nuas.
_ Eu vou daqui – aponta a estrada.
_ E vais atravessar a estrada, sozinho!
_Não. Estou contigo.
Segurei na sua mão e atravessamos para a direcção que ele bem conhece. Apercebido que fui “vitima”das tentações deste grande amigo, já não me saem perguntas. Apenas cumpro ordens inspirado no letreiro da Base Marinha de Luanda cuja ilustração é do presidente José Eduardo dos Santos “Comandante em Chefe, às suas ordens. Ordene, ordene, ordene”diz o cartaz.
Calo-me e contemplo. Angola é um país de ordens também! Santos bem sabe as dar. Ordena-me e eu cumpro. “Às suas ordens, Santos”. Caminhamos agora intercalando as casas sobrepostas, cheirando a peixe e outros mariscos com águas turvas à mistura. “Isto é Mafalala!” reconheço as igualdades. Aqui há cães vadios. Cães que atentam a moral, fazendo sexo na rua no olhar dos homens. Cães que matchimbam na rua atentando a saúde pública. Isto é mesmo Mafalala e Chamanculo, Unidade “7”, Urbanização, Maxaquene e etc. É daqui que saem os poetas, dançarinos, timbileiros, actores e outros grandes artistas.
Mulheres cobertas de capulanas sentadas de pernas para o ar conversam num silêncio inquietante. As raparigas, mulheres adultas e crianças, decoradas a moda Tchuna-Baby, vão mostrando as suas pernas decoradas de varizes que nem se quer respeitam a idade. Aqui, os homens andam sem camisas e as raparigas apenas de panos que só los cobre os seios. É tudo gente de Santos.
Enquanto caminhamos ele saúda essa gente. Os homens de calções e descamisados, uns com peixes nas mãos, mulheres de minissaias e jeans rasgado. Mulheres adultas na moda. São todos conhecidos de Santos.
Casa pintada a cor-de-rosa e com antena de TV digital é da sua avó. E me mostra esses lugares, o meu amigo, preocupado em apresentar-me, principalmente à sua tia-mãe, como ele intitula e à sua mãe.
Chegados no seu beco, Santos saúda a sua tia que o indaga sobre o porquê de estar ali naquela hora “já para casa”, vociferou. Logo na porta da varanda, o único quintal que a casa tem, saúda uma mulher que não consigo ver o rosto. É sua mãe.
Calado, senti que era aquele, o fim da nossa amizade, pois aos que me perguntavam apenas dizia que o ajudava a atravessar a estrada.
Ele apresentou-me as pressas à sua mãe que zangada pela sua chegada antes da hora habitual, nem se que presta-me alguma atenção.
_ Ele é meu amigo mãe.
Da sala saia uma menina. Tão linda! Devia ser irmã de Santos. Olha para mim e pisca os olhos em jeito de saudação. Que criança linda e espertinha! Mas não me alongo, dispenso-me da família e do meu grande amigo, o Santos.
Dia inesquecível este 17 de Abril de 2012. Dia ímpar naquela ilha anexa à cidade de Luanda onde nem amigos tinha, além de poetas. Agora, um já figura a minha lista. Seu nome é Santos.

Luanda, 17 de Abril de 2012


Camões deixou de dizer






Ódio é fogo que arde sem doer
É ferida aberta que se sente
É um arrependimento descontente
É dor que mata aos poucos sem morrer

É uma recusa ao bem querer
É solitário andar dentro da gente
É nunca saciar-se de estar doente
É cuidar que se perde, pois se quer perder

É querer fingir-se estar a vontade
É servir a medalha ao perdedor
É ter motivos para matar a lealdade

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos tal maldade
Se tão contrário a si é o mesmo rancor?


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