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sábado, 13 de julho de 2013

O Mexilhão



( Àquela de copo na mão )

Úmida, rosada
incógnita
ensimesmada
nas franjas
de um silêncio entre valvas:

broto de um ramo distante
guardião do compasso
da maré de quadratura:

como tornastes
um quase obsceno
refúgio
a exalar a fragrância do cio
e do sal ?

que tanto almejaste
em vida
nas noites de preamar
quando fugiam-te
os sumos
nas águas da continuação ?

Túrgido grelo do tempo
embebido nas dobras
de um paramento
de vulva:

olhar-te assim, amanteigado
e ardente
desperta a saliva na boca

traz o encanto
da volúpia

e uma viva memória

agarrada na rocha

Assis de Mello

Um dos poemas do  livro "Na Borda da Ilha". Ed. Lumme, 2010

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Dois Poemas de Frio e de Dor



Assis de Mello
Poemas do meu livro "Na Borda da Ilha"
 (sem a formatação original )
 

1.
Remexo a gema
da noite
antes do tédio
da clara manhã

: têmpera fosca
de antimônio e caulim

–quantos fantasmas
reviram nos caleidoscópios
e se desmontam
pra depois se recoserem
numa falange de proteus?!

Hora de hulha
povoada de folhas
e sarridos

Hora de unha
motinação
e esgarçadura

Explode a laca
pra fora de mim

e é assim
que me aplaino:

cochonilha atada à raiz da geada

2
Marés de sizígia
chumbo de águas-vivas
e de polvos
Chumbo de tentáculos

A caravela portuguesa
não se presta à poesia
–é eminência de ardume –

Quisera estrondar-me
como a jubarte
que se atreve no ar

esgueirar-me
–anguila –
nas fendas do coral

arrancar-me
feito um raio
de peixe prata

E não ensimesmar-me
como um gastrópodo
na concha
sem o mar

O teredo da morte está na madeira do leito, está na quilha do navio. Mas o amor golpeia mais forte nos lambris do sonho. E eu ouço a noite rasgar-se no talha-mar de uma proa*

* Parágrafo da parte 5.2 da Seção IX (Estreitos São os Barcos) do livro “Estrofe”, de Saint-John Perse. In: Amers - Marcas Marinhas, tradução de Bruno Palma, Ateliê Editorial, Cotia - SP (2003)

Interessados no livros, aqui está o link de onde adquiri-lo:

http://www.livrariacultura.com.br/Produto/LIVRO/NA-BORDA-DA-ILHA/22324811



segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Três mulheres


carregavam filhos de sal

que se desfaziam na chuva

Assis de Mello
estrelas


sondam

dos olhos de um sapo

Assis de Mello