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terça-feira, 17 de setembro de 2019

Espelho II

O espelho sujo
deforma a imagem : do rosto.

Não o rosto
diante do espelho.

Porque o espelho dentro do rosto
é inimigo apropriado.
Eterno e breve.
Transcende a convivência consigo mesmo
e o tempo marcado.

o espelho dentro do rosto
como o rosto espesso, diverso, esparso,
estúpido, estranho,

é estrume do tempo
e ouro da morte .

Lindolfo bell

Espelho I

O espelho :
na conquista da máscara definitiva
no prelúdio da morte capturada

O espelho , este
labirinto de Creta. Este
dédalo de meandros.
Esta verdade nua
e crua. Esta vertigem,
este hieróglifo de luz.

Ah ! Então é isso !
O espelho
é onde o pássaro do tempo pousa.
Se reflete,
se debate ferido, aferido.

E deflagra a morte provável .

Lindolfo Bell
in O código das águas

Um inseto na lagoa santa

Um inseto de Lagoa Santa
sobreviveu três mil anos
fora do destino comum

Fora do destino comum
e dentro da solidão

Em armazéns do tempo
as coisas permanecem
mais tempo
que ao tempo destinado

Fora do destino comum
e dentro da solidão

Lindolfo Bell
in O código das águas

Primeira raiz

Ancestral não diria :
antes  cesto de tudo ,
antes tempo em que mudo :
pêlo , pele , sobretudo.

Ancestral direi :
se memória não fosse mais
( e  é tudo )
que risco na cerâmica quebrada ,
o nome da pedra achada ,
e o amor , esta breve palavra,
em milagre  de nada.

Ancestral, sim ,
porque o que passou , passa , passará,
não passa de matiz, matiz , da manhã.
E dúvida ancestral
não é mais que fogo, afago, cinza.
E tudo que penso
pouco mais dura que a escrita ,
a da raiz, a da marca do pé na terra,
que mino , rumino,
                              e que ma habita.


Lindolfo Bell. SC
in O código das águas.