Mostrando postagens com marcador juliana vallim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador juliana vallim. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de novembro de 2012



CALÇAVA OS CHINELOS, MAS
BASTOU O DELINEAR DO NÃO
PARA QUE MEU CORPO DERRAPASSE
TODO BOSSO, OCO E ENDOVENOSO
NA DESPEDIDA DAS RAÍZES & CAIS.


 Juliana Vallim

sábado, 15 de outubro de 2011

Semi-adestrado

Quase madrugada. Quase. Numa benevolência magistral extraio o nulo de mim. O que resta é de todo um vazio; estou para sofredora e estou para não estar. Venho restringindo-me ao imaginado, este, que se torna um milagroso veneno - e prepotente. Tão tudo, tão cheio de tudo e a única coisa que consigo perceber é o eco que acontece dentro de mim. Daqueles vazios de alma sem alma, ou pura alma e puro ser em essência. Apresento-te o vazio das palavras: estou cá, indexada à mim. Pregada aos horrores do que se é em nervo e turbilhão. Perversão do sonho e o indicador, para o lado de trás, qualquer um. Ando aos trancos, reagindo ao vento qualquer e sem som, estou, está. E falo, num imaculado silêncio o que sinto. Paredes mucosas e o ruído final de uma pluma última que cai. E caio aos poucos, num lento e retilíneo desespero. Estou desesperada? vou tateando, corroendo o que não há e a tristeza me comove um pouco mais, como de quem não quer e projeto toda a vontade.

Nevoeiro e surge o que se é, sou. De horror e cheia de felicidade, emociono-me em um breve momento e paro. Vacilo e penso: quase outro dia, estou só. Não digo frustrada, estou somente só. Eis que refaço cheia de medo o meu novo dia em poucos minutos, estará. Contudo estou livre e de olhos abertos. Sinto lenta a solidão que se encaixa perfeitamente em meu vazio cerebral, no meu senil respiro. Balbucio movimentos; há palavras que não ouso dizer, e sendo memorável, estou no meio e vazia. Com todo o vazio, com toda a liberdade de se estar livre e com toda a angústia de se procurar eternamente. Sou eterna em procura e sobrevivo. Por alto estou nula, desagregada de um passado, e num presente-movimento que arranha meus segundos de felicidade; um segundo sim outro não. Transformo diante de qualquer reflexo, já não me sou tão com autoridade, me perdi no tempo vago das memórias e me confundo diante de todos os reflexos; faço um movimento para que eu me perceba como gente. Sou o quê? o que me restar, e é essa mesmo a pergunta? sou o que resta quando não se quer restar; quero a totalidade de tudo, a soma, o resultado de todas as metades e unidades perdidas. Meu corpo parece expelir por vontade minha alma e estou a vagar de corpo presente e trépido.

Encarno num momento inexistente; não o vivi. E uma pessoa, qualquer que me chame atenção prende-me, passo a tê-la como se eu me tivesse nela. Vivo então. Num espectro exorbitante de serenidade; estou viva e me coloco diante da platéia. Quero sacolejos - e sacolejo-me - e gritos, quaisquer que possam me estontear, pois estou viva e tenho vontades urgentíssimas. Agora quero lhe contar como é a soma de toda a loucura de beirada, como é que se vive nesses deslizes que matariam qualquer um: não se vive, deixa-se viver. E de repente vem a foice junto à face e rasga-me em um único golpe. Fui traída pela minha própria vontade e estou à representar, sempre que vivi, representei. E represento minha dor como senão existisse. E nas vezes que choro, estou à representar. E agora, enjaulo-me na minha real verdade. Estou só como nunca estive e o meu gerador é montante de vazios. Como se descreve o vazio? Difícil tarefa, estou entrando nessa perigosa realidade para lhe contar como tudo é tão vazio. E me dói, faz eco e grita, sinto um vazio quase demente. Entro no sossego que retroage para o começo, é a eternidade. O oco, o eco, o começo, o desespero, o começo que não tem fim. É assim quando se sente o vazio; existir sem existir, começar sem começar. E acaba por acreditar na eternidade, sentindo-a, pois ainda não começou, e a espera é cruelmente eterna.



Juliana Vallim





Dr

Grande demais, todas as coisas tornam-se grandes demais. Logo após, pequenas, contraindo e se expandindo numa medida incalculável de sensatez. Veste o mundo de razão, numa qualquer razão destrambelhada e assim, respira, enxerga, como de dentro para fora; noutras vezes, de fora para dentro. Uma batida de coração, um ar mais profundo vindo de um lugar além, uma dor que doía quando não sabíamos de nada. E sabíamos? Doía tão vagarosamente, naquele compasso manso, como uma longa espera na saleta do consultório médico... e doía tanto, de uma coisa infundada mas um pouco real, um medo além e no entanto, terreno.

Como pupilas na escuridão e as pálpebras que não se fecham. E tudo o que não se move. Vasculantes e tudo o que paira no ar de maneira amena, - estou nos segundos de ontem, que esperavam pela mesma coisa de hoje, e provavelmente nos segundos de amanhã que ainda estarão esperando por nada ou além - como se acontecesse, suspiro aliviada, porque a dor não chegou como nas outras manhãs. Não foi tão dor, mas também, não veio como pouca dor. Foi dosagem e medida, numa dessas tempestuosas sensações e... a dor! Não afirmo que essa dor seja a mesma de todos os dias, nem que a de todos os dias se repita exaustivamente, mas na somatória, no indivisível, dor colando em dor, em alguns dias, dor se anula com dor, noutros, o nulo se faz presente e adiciona um pouco mais de ruído, e doía como antes.

Se visse eu, como me vejo aqui, no passado, não iria doer. E no mesmo passado, não iria existir. Sou nascida de sensações irrisórias e claustrofóbicas, vindo de mim mesma, e nasço há cada dia, num canto diferente e num lugar qualquer. Se quisesse eu mesma, contraída numa razão sobre a existência; nada seria, e eu não existiria. Existo por instinto, e penso por conveniência, por tudo que sinto, há um primeiro passo antecessor que me faz aguilhão e coragem. E justamente nesses pedaços de tempos que não voltam nunca mais, me faço. Para refazer o que fiz no outro dia tem de haver um novo aguilhão e uma nova coragem, se demorar, fico aqui, estagnada - se vier depressa demais, não acompanho o desprendimento com totalidade. É que estou na busca da terrível aceitação e quando tudo passa, pareço um outro qualquer, já não sou quem eu era e nem imagino quem eu seja. Estou em um lado que não quis estar e estou, também, aqui; com o tempo que há de passar.





Juliana Vallim





sábado, 1 de outubro de 2011

antônimos

Fazia muito tempo. Muito tempo eu não desesperava com o silêncio. Com o ranger da sola comida do All Star. Com o telefone mudo e meu sacrifício de levantar da cama e estacar diante da janela. Era inexpressivo o barulho daquele buraco que crescia em mim e eu ainda sentia medo dessas coisas que crescem no meio do deserto. Ainda me preocupava, mesmo que despretensiosamente, se meu gosto te agradaria e fazia muito mais tempo que a insegurança me fazia escolher o casco, as ranhuras, o perigo e quem sabe, o pior de todas as coisas. Agia mesmo assim, com um nó no peito, escorregadia pelas escadas dos butecos, caindo pelas tamancas, de esquina em esquina, ainda criando coragem pra balbuciar a vontade do querer.

Se você me ligasse – pensava – não atenderia. Não queria. Não quero. Planejava fuga observando aqueles telhados em horas de ausência extrema. Porque havia um limite, alguma coisa que era feita de fluxo-refluxo, e nesse ameno amargo alguma coisa ficava do lado de fora, palavras, expressões, interiores, conchas, cobertas, cama, tudo que nunca habitei. Não ligava.

Sorria toda irônica. Vagava pela cidade imunda, feito zumbi. Lembrava da síntese daquelas palavras malditas, do cheiro das tralhas na despedida, e mesa posta, tomava um gole de café. Concluía que toda frivolidade era uma ameaça e desconfiava, fazendo caras e bocas, da sua exclamação. Das tuas exclamações que eu não sabia (mesmo) se pendiam pra moça dali ou pra moça daqui.

Alguma coisa não sabida, doía. Minha vergonha ricocheteava miseravelmente toda vez que voltava pra casa. Percebia que possuía uma grande dificuldade de estabelecer um clima estável entre nós, que não existimos. Nós. E enquanto você expandia, tudo em mim só tinha a covardia de contrair. Corria atrás de uma aspirina e toda vez que voltava: você me seduzia. Caia, sentia preguiça, sentia vontade de exercer minha vontade, me iludia, desistia e gargalhava mesmo rolando barranco abaixo.

Conformada com a ideia de nunca entender, aceitava. Pensava em nunca mais atirar pratos nas paredes ou colocar tudo em pratos limpos. Puro mau gosto. Por puro desgosto eu inventava de racionalizar e racionar minha paixão por simples incapacidade de lidar com. Que não é O Outro.

Juliana Vallim

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dr

Grande demais, todas as coisas tornam-se grandes demais. Logo após, pequenas, contraindo e se expandindo numa medida incalculável de sensatez. Veste o mundo de razão, numa qualquer razão destrambelhada e assim, respira, enxerga, como de dentro para fora; noutras vezes, de fora para dentro. Uma batida de coração, um ar mais profundo vindo de um lugar além, uma dor que doía quando não sabíamos de nada. E sabíamos? Doía tão vagarosamente, naquele compasso manso, como uma longa espera na saleta do consultório médico... e doía tanto, de uma coisa infundada mas um pouco real, um medo além e no entanto, terreno.
Como pupilas na escuridão e as pálpebras que não se fecham. E tudo o que não se move. Vasculantes e tudo o que paira no ar de maneira amena, - estou nos segundos de ontem, que esperavam pela mesma coisa de hoje, e provavelmente nos segundos de amanhã que ainda estarão esperando por nada ou além - como se acontecesse, suspiro aliviada, porque a dor não chegou como nas outras manhãs. Não foi tão dor, mas também, não veio como pouca dor. Foi dosagem e medida, numa dessas tempestuosas sensações e... a dor! Não afirmo que essa dor seja a mesma de todos os dias, nem que a de todos os dias se repita exaustivamente, mas na somatória, no indivisível, dor colando em dor, em alguns dias, dor se anula com dor, noutros, o nulo se faz presente e adiciona um pouco mais de ruído, e doía como antes.
Se visse eu, como me vejo aqui, no passado, não iria doer. E no mesmo passado, não iria existir. Sou nascida de sensações irrisórias e claustrofóbicas, vindo de mim mesma, e nasço há cada dia, num canto diferente e num lugar qualquer. Se quisesse eu mesma, contraída numa razão sobre a existência; nada seria, e eu não existiria. Existo por instinto, e penso por conveniência, por tudo que sinto, há um primeiro passo antecessor que me faz aguilhão e coragem. E justamente nesses pedaços de tempos que não voltam nunca mais, me faço. Para refazer o que fiz no outro dia tem de haver um novo aguilhão e uma nova coragem, se demorar, fico aqui, estagnada - se vier depressa demais, não acompanho o desprendimento com totalidade. É que estou na busca da terrível aceitação e quando tudo passa, pareço um outro qualquer, já não sou quem eu era e nem imagino quem eu seja. Estou em um lado que não quis estar e estou, também, aqui; com o tempo que há de passar.


Juliana Vallim

Semi-adestrado

Quase madrugada. Quase. Numa benevolência magistral extraio o nulo de mim. O que resta é de todo um vazio; estou para sofredora e estou para não estar. Venho restringindo-me ao imaginado, este, que se torna um milagroso veneno - e prepotente. Tão tudo, tão cheio de tudo e a única coisa que consigo perceber é o eco que acontece dentro de mim. Daqueles vazios de alma sem alma, ou pura alma e puro ser em essência. Apresento-te o vazio das palavras: estou cá, indexada à mim. Pregada aos horrores do que se é em nervo e turbilhão. Perversão do sonho e o indicador, para o lado de trás, qualquer um. Ando aos trancos, reagindo ao vento qualquer e sem som, estou, está. E falo, num imaculado silêncio o que sinto. Paredes mucosas e o ruído final de uma pluma última que cai. E caio aos poucos, num lento e retilíneo desespero. Estou desesperada? vou tateando, corroendo o que não há e a tristeza me comove um pouco mais, como de quem não quer e projeto toda a vontade.
Nevoeiro e surge o que se é, sou. De horror e cheia de felicidade, emociono-me em um breve momento e paro. Vacilo e penso: quase outro dia, estou só. Não digo frustrada, estou somente só. Eis que refaço cheia de medo o meu novo dia em poucos minutos, estará. Contudo estou livre e de olhos abertos. Sinto lenta a solidão que se encaixa perfeitamente em meu vazio cerebral, no meu senil respiro. Balbucio movimentos; há palavras que não ouso dizer, e sendo memorável, estou no meio e vazia. Com todo o vazio, com toda a liberdade de se estar livre e com toda a angústia de se procurar eternamente. Sou eterna em procura e sobrevivo. Por alto estou nula, desagregada de um passado, e num presente-movimento que arranha meus segundos de felicidade; um segundo sim outro não. Transformo diante de qualquer reflexo, já não me sou tão com autoridade, me perdi no tempo vago das memórias e me confundo diante de todos os reflexos; faço um movimento para que eu me perceba como gente. Sou o quê? o que me restar, e é essa mesmo a pergunta? sou o que resta quando não se quer restar; quero a totalidade de tudo, a soma, o resultado de todas as metades e unidades perdidas. Meu corpo parece expelir por vontade minha alma e estou a vagar de corpo presente e trépido.
Encarno num momento inexistente; não o vivi. E uma pessoa, qualquer que me chame atenção prende-me, passo a tê-la como se eu me tivesse nela. Vivo então. Num espectro exorbitante de serenidade; estou viva e me coloco diante da platéia. Quero sacolejos - e sacolejo-me - e gritos, quaisquer que possam me estontear, pois estou viva e tenho vontades urgentíssimas. Agora quero lhe contar como é a soma de toda a loucura de beirada, como é que se vive nesses deslizes que matariam qualquer um: não se vive, deixa-se viver. E de repente vem a foice junto à face e rasga-me em um único golpe. Fui traída pela minha própria vontade e estou à representar, sempre que vivi, representei. E represento minha dor como senão existisse. E nas vezes que choro, estou à representar. E agora, enjaulo-me na minha real verdade. Estou só como nunca estive e o meu gerador é montante de vazios. Como se descreve o vazio? Difícil tarefa, estou entrando nessa perigosa realidade para lhe contar como tudo é tão vazio. E me dói, faz eco e grita, sinto um vazio quase demente. Entro no sossego que retroage para o começo, é a eternidade. O oco, o eco, o começo, o desespero, o começo que não tem fim. É assim quando se sente o vazio; existir sem existir, começar sem começar. E acaba por acreditar na eternidade, sentindo-a, pois ainda não começou, e a espera é cruelmente eterna.

Juliana Vallim

Um para cá; três para lá

Um para cá; três para lá

De versos, estou vazia. Tão vazia de dar espaço para que eu dance e gire pelo oco de tudo o que sou, de tudo o que me sobrou. Vazio manso de solidão devagar, hoje mesmo sou e talvez eu vá além, para o mundo atrás das grandes e intocáveis coisas. Tudo aqui gira numa plenitude singular e removente; como se assim eu fosse. E dum desses removentes prazeres nasço. Antes de mim mesma e o ar já não me dói.

E as explicações eu já não quero como se suficiente eu fosse, pelos próprios sacrifícios humanos, eu me tivesse tornado suficiente nesse silêncio que está à me dominar. Peço em todos os momentos: deixa-me ser. Assim soturnamente imantada por uma fuga constante que insiste em me deflorar como parte indivisível dessas coisas todas tão maiores que meu corpo. Deixa-me ser assim como deixo-te onde queres, nessa partezinha minúscula de sensatez que lhe basta, como se não me bastasse - e não basta!

Vago pelos jardins flamejantes, estou prestes a saltar num golpe contra o universo e isso também não me dói ou segura meu corpo, como se o fim para coisas sensíveis não existisse e como se assim fosse. Se talvez te basta, você se mantêm como gota do que se é. E minha dor submerge nos segundos mais profundos da alma, nada me basta e aqui no fim, sei que também não mata.

Juliana Vallim