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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Das coisas que se pode dizer




Como a chuva toca o solo
e nutri a flor
Que arrancada sem razão
é motivo de repousou
sob o colo dela
que deslumbra os cacos quebrados do espelho
com a mão pequena que agredi o mundo

Redson Vitorino

Cabeça de Elefante




A mesmice de acariciar o peito
relembrar do que foi dito
do vômito escondido nos lençóis
do terço pendurado na cama
que nunca teve um drama

era o cheiro das pernas
que prendia a corda com mais força
aquelas bocas monstruosas
te jurando infinito
relendo os jornais espalhados em cada canto do quarto miúdo
despedidas como carrapatos arrancandos do escroto
havia um moleque franzino duelando com a altura do abacateiro

Ele pôs a corda lá
Redson Vitorino

A Santa na cruz




Lembro dos amigos que enterrei
das drogas nas pontas dos meus dedos
e de odiar enquanto amava

em manhãs de mãos dadas
e por fim
solitárias
ecoante era ela
de dentro do ônibus cinza
aquela buceta verde que não era só minha

Despedi-me dos amigos quando floreceram de baixo dos meus pés pretos
tomando o lugar de um cristo qualquer
tomei pra mim mais uma vez
o ar da erva entre as pontas dos meus dedos
e quando o ódio cessou e pudi amar

em noites solitárias de quase anulação
atando o nó até o paraíso
eu poderia almejar os degraus recostando meu corpo
o abraço que o fim nos dar
Redson Vitorino

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Outros





Há quem bata palmas

para suas reservas de dor

essa gente que nunca suo frio

no último segundo no ponto de ônibus

Exaltando teu desespero

perdido na saia aqueles dedos que

não estariam mais lá

no fundo da garganta agora

RV

Abismo nela



Como flor na tempestade
você ao cinza se contrapõe
a sagacidade dos teus olhos de menina
faz deixar o nó para um outro dia
refletido nas poças d'águas teus pés limpos
me pisam a alma cinza
ganha meu dia perdido
E eu te salvo em minuto de qualquer agonia
e quando o nevoeiro dessipar-se
amarre fitas vermelhas no cabelo



Redson Vitorino



segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Degraus até deus



Entorpecido me curvo na privada dessa vida que cabe numa gota mínima
no mar ausente da minha montanha
que inteiro cabe no meu rosto

Beijo aos mãos da minha mãe
ao meu pai o vício que nunca herdei
O ostento como minha bandeira de guerra

Demoro na partida negando sempre ser partido em dois
assistindo a reprise de mesmo teatro com lotação esgotada

teu solo para para teus joelhos
Teu céu para teu olhos
Me segure uma única vez



Redson Vitorino


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Dezembro paranóia


          


Na sacada de casa
vejo a rua alagada trazer esperança de não perder tudo

Árvores enforcadas com luzes vergonhosas comemorando não se sabe o quê

Primoroso mês de dar fim as coisas ou simplesmente cobrir-se bons sentimentos

Na prateleira vejo os rótulos baratos que não me dão

Peixe fresco nas sacolas com puxões dos pequenos querendo abraçar o caixa mais próximo

Ponteiros como morteiros nos meus olhos

Da desculpa recebida por quem nem fiz questão de estar

Amedronta esquivar e chafurdar no cinza?

Redson Vitorino   

Samba à toa




Areia entre os dedos da menina
menina com cheiro de montanha
samba assim à toa sem plateia
dois batuques ritmados entre copos e garrafas
quem agora te olha longe
samba assim à toa e desdenha de mim
sai florida até o joelho
copo e garganta refrão do perdedor
samba assim à toa pisando no que ainda tenho no que não há

e para guardar teu
sorriso de aço
no corpo magro
pungente sem ócio
miserável sem sol
derruba tua boca
e esquece ela outra vez comigo

Larga a terra sem rei
na imensidão do caos para ser beijada
samba assim à toa enquanto em desespero te apago
vai na fumaça do escapamento sonhar
no catarro do velho na fila sentir falta dos dias de chuva
samba assim à toa nos meus dias de ressaca caído no chão

e para guardar teu sorriso de aço
um copo gelado de fim de dia
tome a cama como berço nos braços desse cristo
manhãs microscópias no bocejo contra o espelho
e samba assim à toa sobre mim


Redson Vitorino              

Ritual



faço a despedida com lírio e carmim
pondo meus meses nos olhos alheios

desapareço

quero o suco da terra
o soco de deus no ego desmoronado

bate palma a vadia que mais amei
meu bastardo nos braços de quem ele reconhece como
pai

reluz o último sol na montanha
me brinda pagã com teu corpo

sinta minha ausência
no rótulo gasto da garrafa
injusta a terra
que cultiva os melhores amores
desses que se olham
e pedem para deixa-los ir
               

Redson Vitorino 

Rígidos pés



Recuso uma foda
um abraço de quem já partiu
se a salgada te insiste na face
não sou quem se afoga no rosto branco
rochoso meu interior
com cinza nos bicos dos pássaros na praça
não tente me acordar
De olhos mais abertos
do que abortados
súplica
da covarde que grita
que tenta abraçar o abismo
que nunca mais cairá

Redson Vitorino         

Dois dedos fundos


            


Pensei no amor com a mesmo sentimento de uma árvore sendo cortada
pensei naquele cotidiano se bastando em pequenos feriados
pensei na roupa recém passada
e tremulando os dedos com medo
pensei que o medo não chegaria até mim
duro como a montanha onde nasci
cinza como os dias pela praça da liberdade



               Redson Vitorino 

O flerte do catarro com o concreto



a paixão da esquina com a puta que cobra mais barato

e salvo minha razão sem rotulo garganta abaixo

dê ritmo como a debutante que se molha em segredo no colo da mãe

tudo que é ensinado pelos velhos entupidos de remédios

na hora que desata o nó e a corda fica frouxa no colo de quem espera um abraço

Um prato de comida para quem a fome dentro para fora já devorou

Interrompa o coito quando grudar grunhindo na orelha cortada

Chão útero      


 Redson Vitorino             




25 gramas



25 gramas nas costas
nos ossos
na carne tão perecível
25 gramas como um poço de piche
um dedo segurando o gatilho
entre as luzes amarelas
25 gramas de regionalidade
de porres abandonados
de esperas em cada canto
25 gramas no hotel mais barato
jurando no meio das pernas
na solidão de algum dia
25 gramas sob o corpo ausente
enfiado sem vontade em 8 horas
25 gramas incógnitas nas mãos
fechadas
no flerte do chão contra o corpo

               

Redson Vitorino              



fiz um escrito
Apunhalado deus é por mim
com a mão enferrujada brindando esperança quando tudo é desespero

deleites nas manhãs
sob as palavras do livro velho

É meu cinza que sobretudo que alcança notoriedade
do que a puta virgem

Dei-me o mar para afogar as benfeitorias expostas

Dei-me mais a montanha com a corda em riste pronto para pular e poder ver o paraíso

oração é o primeiro gole
pecado é olhar a chance de acertar

Ponha-me em manjedouras de cada sarjeta

Rogue

Acabemos

Prego eterno

               
Redson Vitorino           

sábado, 15 de abril de 2017

Sonora Cafeina


Um dia amor, foi mais que iludir sua ausência nesses úteros de areia

Talvez amor, eu não devesse ter feito das tripas coração quando o corpo perdeu o gosto e ser estranhos era ser feliz

Amor, quem de nós dois ainda não deu uma olhada para trás e pensou numa chance a mais?

É sempre verão amor, teu humor anda de ralo abaixo e sabe que aqui é inverno nos ossos e em todo resto

Os meses que passam como soro no braço como antes

A carne alheia na boca como roupas usadas de um defunto

E ainda amor, eu conto nos ponteiros o tempo que não temos mais

Redson Vitorino            


domingo, 19 de março de 2017

Gaiola Racional

Se eu pudesse
escolheria ser um pássaro
desdenha do peso do tempo
e não fingi com mais de um



Redson Vitorino 
Porém
Deprime-me o gargalo com a última gota que cai boca a dentro de desesperanças caladas que quando ditas são em desespero.
Esqueço.
Redson Vitorino

quinta-feira, 16 de março de 2017

Não o chame de poeta



Imaginava aquela boca
aqueles dentes brancos mordendo-os
Imaginava aquela crina de anjo na casa dos 30 anos
Imaginava aqueles olhos pequenos protegidos por aço e vidro
e tinha o cheiro que não conseguia me lembrar
Imaginava aquela voz arrastada nos meus ouvidos como pássaros inconvenientes pela manhã
impondo uma vida mesmo que não houvesse tempo
Imaginava aqueles dias que poderia ter ao lado dela sem precisar ficar na dúvida de segurar o gatilho por mais um minuto
Imaginava a casa arrumada com a janta na mesa depois de sentir vontade de matar meio mundo
então eu bebia nos bueiros do meu ócio
nas poças d'águas constantes que desafiavam meus pés
estava sendo vencido por murros bem dados pelo tempo
E imaginava o gosto de terra enquanto ela estaria sorrindo confortavelmente em algum lugar com sol
e imaginava a corda frouxa lentamente me pondo de molho
Só imaginava
morria errado de novo


Redson Vitorino

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

De porre

       
Eu tinha um copo cheio
vazio agora na mesa apodrecendo no
meu peito


peço a conta

Redson Vitorino      

A paranóia


Superfície em colisão
Quando há dois
E nenhum de nós
Tateia a escuridão e sinta o gozo dela
Gelada
Fogo no centro como um ritual budista
Cinzas
Na calcinha branca
Cheiro
Que se perdeu nos dedos de outro
Enquanto os meus
Em alguma manhã fazendo da bílis rainha

               Redson Vitorino