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sexta-feira, 5 de abril de 2013



Otavio Linhares
narciso velado [escondido soterrado nas entranhas] é ver indivíduos falando em nome de pessoas mortas com tamanha propriedade e admiração e medo, como se falassem de si próprios.

domingo, 31 de março de 2013

PANCRÁCIO



De Otavio Linhares

PANCRÁCIO, meu primeiro livro.
revisando-o pela última vez me vejo de frente para este capítulo. ele me dá mais medo hoje do que quando foi escrito.

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33

grandes convenções escorrem pelos lábios. postulações frases enigmas. pústulas. de onde estou parecem micróbios com pernas muito pequenas que fazem cócegas ao caminharem pela minha orelha. vêm da superfície da garganta. da parte mais rasa da alma. entre o nariz e o cérebro. e você ri. e você ainda ri. são muitos. um exército desordenado capotando. reproduzem-se por capotamento. movimento caótico o ar se ejacula das narinas em bufadas. faz-se a mistura na frente dos olhos. vento oxidado nos pulmões retorcido na base da cabeça e bichos com perninhas. esses são seus filhos. damos as boas vindas todos juntos. somos todos felizes porque sim. as mãos se tocam. as veias fervem. vemos os sangues esquentarem o clima. é o fim da tempestade. sim é o fim da tempestade. pelo beiral do meu cativeiro meu muro minha morada sim amo este lugar vejo escultores em massa regurgitando a seiva da origem em recipientes de alumínio e o cheiro da morte que eu ainda não conheci e da vida que se esvai todos os dias amém se descola da coisa que fermenta e somos todos de volta muito gratos e muito felizes e alguns do exército pedem mais e vibram e têm a certeza. a convenção é maior e tem mais poder. me afundo na minha trincheira e começo a orar e a minha oração é fraca porque meu deus não existe e peço perdão e do fundo do corredor os convencionistas me enviam mensagens de amor e o cheiro chega até mim. é hora de se alimentar. não viro o rosto. abra os olhos. eles me alimentam. não agradeça. não faço isso. respiro e a mistura se faz na base da cabeça e a superfície da garganta se veda. volto novamente e de novo mais várias vezes e não tenho mais fome. e não tenho mais medo. não tenho mais nada.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Eletrocardiograma



(Otavio Linhares, Luiz Felipe Leprevost e Alexandre França)

escrevi esta carta de amor
do fundo do meu coração
mas você não sabe ler eletrocardiograma
minha caligrafia ruim
coitado de mim que só sei o abc
mas vou aprender tudo sobre você
me abraça e não faz drama

eu tentei ser delicado
mas não consegui
cantei uma oitava acima
pra você me ouvir

você não sabe escutar
não vai entender
é impossível me comunicar com você
vai embora e não reclama
eu já te expliquei tintim por tintim
chegamos ao fim dessa história banal
já falei pra tua mãe
ela é a única que te ama

eu tentei ser delicado
mas não consegui
cantei uma oitava acima
pra você me ouvir

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Pancrácio




21

devo chegar intacto no trabalho. intacto. no trabalho. desvio o olhar de mim mesmo. lá fora o cotidiano estraga. chuva sol. ficamos velhos dia após dia. cansamos de ser os mesmos? sacolas. passos rápidos. pernas largas e gordas. barrigas. olhos nas pedras. é preciso apontar o cérebro para frente. desenlouquecer nessa cidade normal. o encantador de cães me disse para apontar o cérebro para frente. e esquecer. não contar os dias. sim. foi ele quem me disse isso. fazer de tudo e aceitar o acaso. viver o último milésimo. ir até o fundo. lá dentro. além da sombra. mas eu sei do que ele está falando. sei sim. lá no fundo é tudo a mesma coisa

 Otavio Linhares