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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Poética

III
a beleza tem leis


que o poeta ignora

apesar de contê-las

na extensão de sua obra

linha a linha reflete

harmonias herméticas

de suas luzes simétricas

que jamais entrevê

mas cintilam no avesso

do céu negro que versa

lê de luas ilógicas

raios presos nas letras

tão sutis que velozes

somem quando aparecem

lê de estrelas o eco

sob as trevas fonéticas

e por todo poema

em discurso de eclipse

lê o zênite líquido

do vocábulo impresso

mas em língua ilegível

- um dialeto do nada -

que reflete o invisível

escrevendo o que apaga

lê a lei do silêncio

no limite da lauda:

a poesia começa

onde o verbo acaba
 
Adriano Winter
Fonte :Eutomia

Poética


 II
a beleza tem leis


que o poeta obedece

feito cego refém

de suas normas secretas

as safiras da forma

ele pensa que amolda

que lapida, que pole

ou colares concebe

mas as pedras precisas

são geradas por ela

ruge azul e se insere

no momento que escolhe

e no molde que elege

pressionando sua mente

a cingir cada verso

da maneira que pede

advém do inconsciente

que antecede a palavra

e em riquezas excede

as jazidas da fala

um silêncio que ao léxico

alimenta e revela

hermetiza e esclarece

ou destrói, desespera

luta eterna do ser

contra o som e o alfabeto

contra a arte que o diz

sem contudo expressá-lo.

Adriano Winter
Fonte : Eutomia







POÉTICA

I


a beleza tem leis

que as palavras apagam

quando grafam seu gênesis

no princípio da página

e revelam que o belo

surge brusco e sozinho

como sonho ou delírio

nas pupilas da linha

(não há luz que construa

nem engenho que gere

sua flor na brancura

insondável do cérebro

onde pétalas lusas

ditam versos inéditos)

ela anula a estrutura

cinde a lira do logos

parte o fêmur do número

ri do rosto de Apolo

e na mão do arquiteto

crava o da(r)do do acaso

quando quer, como quer

tudo - a si - submete

tem um trono no caos

outro sólio na ordem

reino (em branco) do arcano

onde incógnita impera

às vogais, consoantes

dando timbre e mistério

Adriano Winter
Fonte: Eutomia

PALAVRACASO

(re)começa incógnita

no branco infinito



mistério sem fórmula

de fim imprevisto



pondo o ser em prova

sempre mais difícil



que por cálculo inóspito

(antiluz e antidígito)



resolve-se ilógica

no vocábulo inscrito


Adriano Winter
Fonte : Aliás


METAFÍSICOS

enquanto fetos

viram flores

e homens murcham

e morrem

nós tentamos deter

o movimento veloz

e violento da vida

criando histórias de amor

obras de arte e

tratados

de filosofia

Adriano Winter
Fonte:Revista Germina