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terça-feira, 24 de setembro de 2019

As musas


De Francisco Bosco

1. Pequeno manual do ócio

2. (ou, três movimentos de uma hecatombe doméstica):

3. saturar as horas

4. deixar crescer as unhas

5. escutar com os pés.

6. "Poemas são presentes para os atentos".

7. Dão um boi para não aparecer, e uma boiada para não ir embora.

8. Não se consegue ler na presença delas;

9. pois estão sempre murmurando algo que, embora indistinto, parece ser mais interessante que qualquer livro.

10. Têm a distância por norma

11.

12.

13.

14. mas quando estão pero: números, aspas, vazios --- tudo torna-se forma.

               

Anunciação


Porque, no meu coração, faz-se primavera. 

Ah, doce peito sazonal!
Mais te conheço, menos te entendo;
Crê! a essa altura ainda me surpreendo,
Ao despedir-me do refúgio outonal.

Ah, vede as nuvens em dissipação!
Nos galhos outrora retorcidos,
Frondescem risos embevecidos,
O rastro em flor da anunciação!

Oh, musa que traz viço a minha horta,
Colhe esse canto que em lágrimas aborta,
O flechado poeta que tu tens na mão.

Tua chegada é poesia sincera,
Dsesabrochas meu ser em cor, primavera!
Hemorragia de amor essa inspiração...



De Francisco Bosco

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A folha branca


De Francisco Bosco



1. Mais uma vez um poema, e a promessa de apagar as fronteiras

2. --- entre mim e o quê?

3. Para Cisneros as primeiras palavras lançadas devem ser exatas.

4. A tática: não deixar crescer o moral do adversário.

5. Por que a folha, não a tela?

6. Para manter a escrita aberta por mais uma etapa;

7. porque da folha à tela ganha-se alguma distância de si.

8. Mais que apito ou tiro: gongo.

9. (Há os que só lutam quando são chamados;

10. há os que só quando bem preparados;

11. há os que sem luva --- à mão livre, nua.)

12. Quando se cola o ouvido à folha branca, escuta-se um tropel longínqüo: o rumor da História.

13. Na folha branca lutam a Medusa e as Sereias

14. --- entro com meus olhos e ouvidos.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Transformista




Pior do que romance xerocado
--- existe alguma coisa mais sem charme? ---

é o livro que se toma por empréstimo
a um amigo, ou à biblioteca,

depois do implacável "esgotado".
Habituado a sublinhar o texto,

o leitor, impedido de fazê-lo,
quer seja por pudor, ou obscura

certeza de que nada adiantaria,
percebe alguma coisa lhe escapando

--- e não são as idéias, anotadas
em fichas, mas o próprio livro, que

(diante dessa falta ele conclui)
por isso no limite se rabisca:

para se ter a ilusão de olhar
o livro na estante e, ao mirá-lo,

pensar bem satisfeito --- "já o li" ---
mantendo-o, entretanto, bem fechado,

pois um instante apenas bastaria
para na página se espelhar

um rosto totalmente deformado,
e o sonho da estante viraria

o pesadelo da biblioteca,
não fosse o fato de que o próprio sonho

seria um pesadelo, se verdade:
a casa cheia de espelhos planos

(pensa o leitor, e súbito deseja
vestir-se de mulher no carnaval).

De Francisco Bosco, 

sábado, 28 de outubro de 2017




Um pensamento deve ter convicção e dúvida. A dúvida alarga, a convicção erige; aquela é o eixo horizontal, esta, o eixo vertical. A propósito, uma fórmula: a convicção é igual à certeza menos a verdade (c = C - V).

De Francisco Bosco

sábado, 7 de outubro de 2017

flash



Gosto de fato não se discute. O gosto é incomunicável e não interessa a terceiros. Sob esse aspecto, a crítica é o oposto do gosto: a crítica abre, comunica e fecunda. Por isso o gosto pode ser o ponto de partida da crítica - mas nunca o de chegada.



 De Francisco Bosco