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sexta-feira, 14 de julho de 2017

APÓS A TOSA


Para Vilmaria

Agora a tal história fez-se outra,
sem eufemismo nem subterfúgio.
A voz soava doce, agora é rouca,
e não consigo me esconder, nem fujo.
Só durmo quando cessa a madrugada,
embora meu cansaço chegue antes.
Não reconheço o tudo enquanto nada
nem quero enveredar novas vertentes.
Em pleno desquerer quero uma coisa
pelo contrário do que eu quereria:
a lã tão fresca logo após a tosa
e a tal visão do estouro da manada.
Mas quero, sim, te quero desvairada
e despertada, tal qual noite e dia.

Bento Ferraz

sábado, 17 de junho de 2017

SONETO DE VERSOS COMPLETADOS


Cantar a natureza e sua pujança,
o gorjeio de pássaros diversos:
a vida se assemelha a uma dança
e quero passeá-la nos meus versos.
Lembrar velhos amigos que se foram
e contemplar as novas amizades,
sorver o vapor d´água que evapora
no bule de café, com a vontade
de bebericar seu conteúdo
que toca mias papilas gustativas.
Deixar de lado sempre o contudo
e observar sempre as sempre-vivas
que crescem no jardim, e olhar tudo,
mirar o céu azul e dar um viva!
Bento Ferraz

Jun/2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

MEIA FURADA


Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Eu devo confessar que nos dias de hoje estou meio louco,
corro de lá pra cá, o trabalho é demais, e o salário, pouco...
Minhas coisas do amor, eu devo confessar, ando sobre o fogo:
casamento acabou, e todo dolorido já entro em outro...
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Quando pego estrada, o meu carro quebra, e o pneu fura...
De noite, na festa, eu tiro o chope sem a levedura.
Depois do descanso eu já vou trabalhar, que a vida é dura,
se é só vadiar bebendo num bar, já não tem mais cura.
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Desde anteontem meu computador já quase não computa...
Internet caiu, o monitor queimou, só ficou a lata.
O programa travou, o teclado pifou e desistiu da luta,
Computando tudo, parece que ele tá bom pra sucata.
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Quando o poste caiu, energia faltou, e eu fiquei no escuro,
fiquei sem novela, sem vela, sem tela, nem noticiário.
Quando voltar a luz eu sacudo a poeira e saio do muro,
prometo a mim mesmo contar como foi no querido diário...
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...


Letra e música: Bento Ferraz

sábado, 15 de abril de 2017

CATHERINE


Eu pensei, por um instante vão,
que você resgataria
minha solidão.
Percebi, só por um instante
que o seu sorriso
seria bastante.
Eu vi na sua juventude
a minha, espelhada
em plenitude.
Confesso, há muito
não via o espelho
de meu espírito.
Espero, lentamente,
que seu distanciamento
tenha sido instante.

Bento Ferraz

sábado, 25 de fevereiro de 2017

PALAVRA APÓS PALAVRA


Para Cecília Nepomuceno

Lavoura após lavoura, a pá, mão e tesoura.
Após dura colheita, eu como, bebo, deito.
Durante a lavra, lavro, escrevo minha estrada.
Após a rude escrita, eu canto, danço e grito.
Semente após semente, suor, cansaço, sede.
Se conto o que sinto, escondo, fujo e minto.
Desfio grão, o milho e trigo, eu sovo massa e faço pão,
acendo forno e assovio esparsas notas de azulão.
Enxada, foice a tiracolo, o passo sempre rente ao chão,
ancinho e fumo de corda, poeira sempre na visão.
Eu risco chão e terra, e luto minha guerra.
Palavra após palavra, recolho minha safra.


Bento Ferraz