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terça-feira, 5 de março de 2019


"Carpo metacarpo falange unha uma radiografia expunha todos os ossos da sua mão e eu cogitava macacos não se masturbam entre seus dedos-cadáveres explodia um manancial e os peixes procriavam vermelhos na encosta rochosa do seu pulso eu desesperado imaginava os holofotes me cegando batia uma punheta e pensava na inabilidade dos gorilas me entristecia a ignorância do autoprazer e do riso"
 (O enterro do lobo branco)
Márcia Barbieri

domingo, 11 de setembro de 2016

UMA CARTA DE SUICÍDIO

Ontem às 13:44 ·



Não me venha falar desses rifles armados em cima da mesa
nem das baratas voadoras que infernizam nossa desordem cotidiana
nem dos carrapatos que invadem meu corpo e me devoram como se eu fosse uma cadela
nem do sexo mal feito nem do beijo sem línguas nem da naftalina que surpreendemos entre os lençóis
nem me fale dos ratos que simularam voos nos canos e acabaram sufocados nos ralos dos banheiros
nem me fale dos matagais que cobriram os pardieiros
nem dos pardais mancos ou dos gatos que se jogaram do décimo andar
nem dos amigos e suas mandíbulas felizes para autorretratos
não me acorde se não te ocorre nenhuma notícia amena para me dar
antes encha meu café com ansiolíticos
diga aos inimigos que a burocracia me venceu
cubra meu corpo com escombros
sim esse mesmo que você ajudou a produzir
e se perguntarem diga que envelheci como os animais selvagens e inconscientes



 Marcia Barbieri

domingo, 1 de maio de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Em poucos segundos minha garganta terá os músculos relaxados a respiração se tornará ruidosa e tomará o ritmo vagaroso dos animais agonizantes a presença dissimulada do estertor da morte meu coração não mais se repartirá entre ventrículo direito e ventrículo esquerdo a aorta não possuirá privilégio sobre as artérias menores meu membro conhecerá a lucidez das coisas flácidas e sem vida minha carapaça romperá com o mesmo vigor que se despedaçam as carapaças dos caranguejos azuis minhas pernas se quebrarão e sem ossos tomarão a forma de nadadeiras e eu poderei experimentar a letargia de mergulhar nas águas das cidades litorâneas enquanto cavalos marinhos copulam ao lado do meu corpo morto" 

Marcia Barbieri

sábado, 26 de março de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Era urgente sair de perto daquele corpo silenciado morto a cajadadas seus olhos não mais seguiam a órbita certa dos gozos intensos agora eu também era um cadáver e você uma carcaça verde atrás do véu eu podia ver os engenheiros do holocausto sabia que um dia as cores tomariam conta dos seus ossos mas eu ainda tento ainda vasculho o abismo dos seus orifícios sim eu nunca me contentei com a maciez das suas mucosas eu ia além gostava das pedras escondidas nos seus rins nas suas vesículas no seu baço gostava de me embrenhar no seu intestino delgado escutar o seu grito de desespero enquanto meus membros radiografavam a sua angústia e os seus dias cinzentos você escondia um hospício atrás dessa pele habitável" 

Márcia Barbieri

sábado, 12 de março de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Eu perseguia obcecado o seu corpo e você obcecada exigia meus enforcamentos como se fosse minha obrigação te ressuscitar do marasmo do tédio e da infelicidade diária minhas fodas não bastavam também tinham virado parte da monotonia apenas a força das minhas mãos no seu pescoço poderia te salvar poderia romper a carne as cartilagens a traqueia o oco e arrancar uma nova epilepsia uma nova língua um novo dialeto para em minutos você descobrir que também essa novidade não servia para nada" 
Marcia Barbieri

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Eu podarei com meticuloso cuidado as ramificações os alvéolos que despencam do seu pulmão-efisema perguntarei sobre a bronquite da sua gata te ensinarei remédios caseiros passarei receitas de xaropes milagrosos indagarei se parou de fumar você tossirá com certa discrição abafando o som com a mão enquanto muda de assunto farei um relato detalhado de um homem jovem que morreu pelos malefícios do cigarro perguntarei se esse ano tomou a vacina da gripe me convencerei da urgência de discutir o estado físico das nuvens reclamarei da indelicadeza e da falta de tato dos machos narrarei as peripécias do meu porquinho-da-índia conversaremos banalidades como a marca do pó de café ou a alta exorbitante dos preços das amêndoas importadas você dirá que sempre preferiu as nozes nacionais eu concordarei com a cabeça convicta porque hoje eu apenas falo de amenidades de coisas que andam e florescem de jardins nos centros das pequenas cidades opinarei sobre a cor do seu rush e sobre seus olhos pintados confessarei que gosto das nuances lilases perguntarei se o sopro no coração desapareceu indagarei com leve riso nos lábios se as suas amídalas continuam inchando no início do verão reclamarei um pouco que a minha gastrite voltou a queimar e que o médico mandou que eu continuasse com o omeprazol interrogarei sobre as cadelas sarnentas que costumavam aparecer na sua rua perguntarei sobre as aventuras das suas primas siamesas perguntarei se o seu padrasto ainda trabalha na fábrica de caixões recitarei um poema aos mortos perguntarei com ingênua preocupação sobre a saúde frágil de seus pais mencionarei as cirurgias constantes de velhos que utilizam o marca-passo admirado como eles se recuperam rapidamente falarei numa retórica convincente sobre um estudo revolucionário para acabar com as ferrugens dos laranjais ou citarei em arroubas quantas laranjas foram perdidas no ano passado estenderei minhas mãos de nervos saltados fingirei normalidades fingirei um afeto que desconheço" 
Marcia Barbieri

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Sim não diga nada fique calada escutando a harmonia que nunca vem e de pensar naquelas tardes letárgicas em que confiávamos nos acordes e nos teclados agora consigo apenas sentir o cheiro que começa nos bicos dos seus seios roxos e se espalha até o púbis você e a certeza que os fantasmas tinham o cheiro enjoado das flores e que a carne das assombrações eram inodoras a mesma qualidade esperada da água pura estava equivocada mais uma vez a natureza te brindava com a carniça branda dos dias e bem querida Sthela sabe aqueles ratos que matava e escondia no porão¿ Sim são eles eles estão aqui por baixo da sua carcaça eu posso ouvi-los guinchando a pequena música dos ratos mortos e inofensivos" 
Marcia Barbieri

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

E também Stela antes da rouxidão se escondia embaixo dos pomares rodava a saia sob os laranjais ela não se interessava pelo sumo das frutas maduras nem pelas abelhas que polinizavam as flores num ato minúsculo e erótico nem pelos insetos que comiam os pequenos brotos numa guerra incessante e microscópica ela se rendia aos bagaços sim sussurrava no meu nariz ignorava que eram meus ouvidos os responsáveis pelo sentido da audição veja como os restos dos frutos são mais doces eu não sentia apenas detectava um amargor no fundo da língua fazia uma careta e ela me recompensava com um beijo na minha jugular e eu ficava tenso porque tinha a impressão que a sua saliva era uma lâmina enferrujada mesmo assim meu pau endurecia" 

Marcia Barbieri

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Haverá um tempo em que os homens dormirão na boca dos meninos e os meninos terão as pernas suspensas nos chapéus mexicanos e as mulheres colocarão seus ovos sob a proteção dos crocodilos os bichos rastejantes aprenderão com as aranhas venenosas a tecerem suas teias e a cobrirem suas presas com os fios brancos e brilhantes os pássaros se apiedarão do destino frágil dos machos e lhes doarão seus voos e seus ninhos as árvores continuarão seus cursos e todas florirão como as cerejeiras" 

Marcia Barbieri

sábado, 30 de janeiro de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Haverá um tempo em que os ossos dos santos se prostrarão nos tubérculos frouxos das árvores esses mesmos ossos desviarão o curso dos tendões e romperão a carne rouxa dos cadáveres contarão os causos de homens antípodas e de mulheres perversas que cortavam as cabeças de seus maridos e afogavam seus primogênitos em rios pardos de crianças que desmembravam suas bonecas e faziam firmes ataduras antes das veias nascerem de velhos que morriam contando os átomos e as estrias de suas células podres e de flores que preparavam o descanso dos mortos" 

Marcia Barbieri

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Carpo metacarpo falange unha uma radiografia expunha todos os ossos da sua mão e eu cogitava macacos não se masturbam entre seus dedos-cadáveres explodia um manancial e os peixes procriavam vermelhos na encosta rochosa do seu pulso eu desesperado imaginava os holofotes me cegando batia uma punheta e pensava na inabilidade dos gorilas me entristecia a ignorância do autoprazer e do riso"
Marcia barbieri

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"eu não poderia responder pelo sumiço de Estela decerto não podia meus dedos serviram de corda para seu pescoço entretanto antes disso sua buceta serviu para calar minha boca e minha retórica falida e quantas vezes fomos interrompidos e eu não pude pronunciar uma palavra porque minha língua estava enclausurada no seu gozo¿ Quem é o carrasco¿ Vamos, me diga agora!!!! Não respondo por Estela sem antes que Esther responda por mim"


Marcia Barbieri .

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"E também Stela antes da rouxidão se escondia embaixo dos pomares rodava a saia sob os laranjais ela não se interessava pelo sumo das frutas maduras nem pelos insetos que comiam os pequenos brotos numa guerra incessante e microscópica ela se rendia aos bagaços sim sussurrava no meu nariz ignorava que eram meus ouvidos os responsáveis pelo sentido da audição veja como os restos dos frutos são mais doces eu não sentia apenas detectava um amargor no fundo da língua fazia uma careta e ela me recompensava com um beijo na minha jugular e eu ficava tenso porque tinha a impressão que a sua saliva era uma lâmina enferrujada mesmo assim meu pau endurecia" 
Marcia Barbieri. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Esthela pouco se importava com o tamanho do meu pau dizia que os centímetros poderiam ser facilmente compensados com a rigidez constante não perdoava os homens broxas era uma questão de dignidade abaixar o membro quando uma mulher estava preparada para deitar-se na cama era pior do que estapeá-la e arrancar-lhes os dentes da frente no entanto eu não tinha problemas de impotência sim claro que não tinha só não podia pensar a política e a economia me ferravam a vida e o cacete para me manter em pé era preciso mãos ágeis pernas levemente abertas e bumbum inclinado o sangue irrigava rápido todas as regiões do meu corpo e se Augustina tinha motivos para reclamar era apenas porque algumas vezes eu não suportava a pressão e ejaculava antes de ela afastar a calcinha"
marcia barbieri



sábado, 22 de agosto de 2015

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Cocei dentro da orelha para escutar melhor de quem era aquela voz era o homem preto suposto marido de Augustina desembestado novamente em narrativas estapafúrdias disse que Stela se fartava de laranjas limas da Pérsia ou seria Índia¿ principalmente nos confins de setembro fechei a cara torci a boca fiquei extasiado porque nunca atinei que ela se interessasse por frutas tão exóticas e longínquas a mim pedia cerejas ordinárias de quintais alheios e amoras vagabundas que se alastravam nos encostamentos daS estradas entre um asfalto e um corpo morto"


Marcia Barbieri


domingo, 28 de junho de 2015

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Haverá um tempo em que as palavras serão plenas em significados e esqueceremos as catacreses não teremos que passar noites em claro em busca de vocábulos perfeitos a imperfeição será banida dos dicionários seremos todos convictos e feitos de carnes ossos e verdades os gênios não mais caminharão em direção aos abismos esqueceremos as paixões pelos hologramas os homens não mais endurecerão seus paus por casos passageiros ou bonecas infláveis os amores germinarão em buracos sagrados o ódio será enterrado em cova rasa nenhum esperma será jorrado inutilmente as vacas beijarão solenes as bocas das santas e as santas roerão os ossos ocos dos indigentes" 

Márcia Barbieri

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"cocei e tirei um pouco de cera não para escutar melhor mas para me distrair daquele discurso fúnebre Estela não era ruim você precisava ter conhecido era uma pessoa boa e ele ousava dizer isso logo para mim que a conhecia como ninguém que corri cada centímetro tenebroso do seu corpo porque ela também se fingia de noite de pedra de pó de abismo se camuflava atrás das árvores frondosas e quantas vezes não me vi estuprando e fecundando uma flor no lugar de sua buceta precisei voltar ao pé do caixão e me certificar de que falávamos da mesma pessoa sim com toda certeza era ela tudo bem que agora ali naquele lugar estendido nessa caixa de madeira não me parecia a fisionomia de Ester a mesma roupa o mesmo calçado a mesma boca que tantas vezes chupou meu pau e cuspiu minha porra" 

Márcia Barbieri

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O enterro do lobo branco

"Haverá um tempo em que os peixes se livrarão de suas escamas e alçando voo esquecerão a violência das profundezas abissais os homens nunca mais erguerão as carcaças de seus mortos os cadáveres terão a leveza das pedras porosas e flutuarão por cima das cabeças dos santos e o esporro do monstro encherá de pulsão a escassez dos corpos branco-anoréxicos"

Márcia Barbieri 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O enterro do lobo branco

"Os homens e as mulheres começaram a suspender e balançar as mãos em uma espécie de orquestração mas orquestravam o quê¿ Olhei novamente para os lábios do pai de Esther e percebi que ele abria e fechava a boca cheguei mais perto e só então percebi que ele cantava uma espécie de sonata entre graves e agudos fiquei sem saber como interferir não sabia se fazia um dueto ou gritava com aquele homem hediondo que roubara a minha face e agora a expunha sem a mínima vergonha para todos os outros seres daquele povoado imundo não Esther não quero te ofender não é sobre você ou sobre seu riso que falo é sobre seu pai no entanto você sabe que prefiro rasgos a risos por isso gostava quando se movia calada pelos cantos obscuros da sala de repente todos abaixaram os braços e a cantoria cessou havia um espelho do lado oposto ao cadáver de forma que havia duas Estelas mortas uma me olhava atônita a outra me ignorava aos poucos aquela partitura se desfez e eu senti a musculatura do meu rosto desenrijecer"

Márcia Barbieri

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Marcia Barbieri


Acho muito curioso quando escuto ou leio declarações como "A literatura está morta" ou "Não existe literatura contemporânea". Nunca presenciei tanta literatura como no momento atual, tantos e tantos escritores de enorme talento, que realmente não consigo tempo hábil para acompanhar... Na minha opinião, esse tipo de declaração é um atestado de ignorância e falta de competência para olhar o novo e aceitar que o "novo sempre vem"... É preciso coragem para dizer sem se escorar em padrões fixos e confortáveis. É preciso coragem para andar na corda bamba. Tenho visto poucos malabaristas e muitos palhaços...