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quinta-feira, 16 de março de 2017

Tudo bem meu bem


A esperança
de que a vida
seja assim mesmo,
bem manêra
como as pessoas dizem
(e a vontade de dançar
contigo na próxima festa,
mesmo que nada aconteça).
1986
*
Do livro Os Filmes em que Morremos de Amor

André Giusti, Editora Patuá, 2016

sábado, 17 de dezembro de 2016

sábado, 26 de novembro de 2016

André Giusti

Poema de meu novo livro, Os Filmes em que Morremos de Amor, pela Editora Patuá. 

*
Os frequentadores do restaurante natural
vestem camisetas de Marley Gandhi Luther King e Mandela.
Usam cabelo rasta
ferrinhos no nariz no beiço acima do olho
acendem incensos
e outras coisas
que fazem fumaça também
pra libertar a essência cósmica
interior transcendente de não sei onde
(eles não explicam muito bem).
Praticam taishi
meditação
terapias do além
seguem o guru malabarashibalabadoooom
e gritam que matar boi é crueldade
animalidade bestialidade
inferioridade espiritual.
Os frequentadores do restaurante natural
vão às passeatas
pedir pelo aborto
o amor entre iguais
o fim da corrupção
e ao fórum social
pela igualdade entre os povos.
Mas se a mulher pobre nordestina negra
aparece com criança no colo
catarro descendo
eczema à vista
cabelo ensebado
vendendo pano de prato
(um é três dois é cinco
ou intera a minha passagem, moço?)
olham pra ela de soslaio,
discretamente nauseados
procuram em volta o gerente:
"nesse mundo liberal escroto
nem se pode mais comer
sossegado um quiche

de alho poró e tomate seco".

domingo, 18 de setembro de 2016

'Brasilha’ da fantasia


*
Ninguém acorda com culpa na Ilha da fantasia,
ninguém se sente culpado na ilha da fantasia
e não ser de todo inocente
é sempre muito normal na ilha da fantasia.
Na ilha da fantasia não interessam
os olhos inocentes dos filhos antes de dormir
os filhos apontados na rua
o que dirão os colegas na escola
e as crianças dos vizinhos.
Não fere arde envergonha
o olhar confuso das crianças
ao ler o que sai nos jornais.
Vamos ao que importa na ilha da fantasia:
a gratificação a estabilidade
a comissão as garantias
o adicional os benefícios
os 18% que me cabem
se não vou aos jornais
e conto da parte que não te cabia mas você levou
na ilha da fantasia.
Eu te filmei eu te gravei
eu sei de tudo da tua
deliciosa doce vida,
portanto, morreremos de mãos dadas
abraçados
atirando uns nos outros
até que nos esqueça a fugacidade da imprensa
e nos confortem as mãos amigas da Justiça
o entendimento do digníssimo desembargador
a interpretação da lei no tribunal superior.
Venha a meu gabinete
passe em meu escritório
vá com sua mulher lá em casa
daremos uma festa
faremos um jantar
quem sabe outros agitos até de manhã.
Ninguém é culpado na ilha da fantasia
ninguém deve nada
à mulher que espera o ônibus
e não combina bolsa e sapato,
à outra que atravessa a BR
longe da passarela,
nenhuma explicação merece o homem cansado
que sai tão cedo e volta tão tarde
levando no rosto
o resto de sonho desfeito.
Todos deitam sem culpa na ilha da fantasia
depois que se apagam as luzes lilases das festas
que se esvaziam as travessas
sossegam-se as bebedeiras
calam-se os vômitos
encerra-se o pó
e a paz reina envergonhada.
*
André Giusti

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já é setembro, né?
então disfarça
e pega no jardim do prédio
alguma flor que te sirva no cabelo.
mas vá logo
antes que venha outubro
e apareça o síndico milico reformado
explicar com detalhes que
a convenção do condomínio
proíbe o roubo de flores.
depois, vista aquela saia laranja
de estrelas lilases e círculos vermelhos
que te mostra acima dos joelhos,
e ao piano
toca Chopin para animar e alegrar os anjos.
eles andam cansados e tristes por causa desse mundo
indiferente às crianças palestinas mortas na guerra
às crianças judias mortas pela estupidez das bombas
às crianças mortas pela insensatez da fome na África
às crianças sírias que aparecem mortas na praia
às crianças pobres abandonadas pelos pais miseráveis
às crianças ricas abandonadas pelos pais ocupados demais.
os anjos estão desiludidos com o mundo indiferente às crianças às crianças às crianças
e aos velhos espancados pelos filhos e netos queridos
às mulheres tratadas aos chutes
aos homens sozinhos sem sonhos
sem mulheres que os entendam chorar.
colha flores, toque piano,
porque a morte, quem sabe, em algum ano
poderá vir na primavera,
mas enquanto ela não vier
haverá chance pro síndico
para todas as crianças
e todos os velhos
mulheres
caras solitários,
afinal, é setembro, e sempre dá
mais vontade de viver e ter esperança.
*
andré giusti, 2015

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Trecho de Voando pela Noite (até de manhã )

“O drive-in não passava de um terreno baldio e escuro, cheio
de árvores. O proprietário, sem dinheiro para construir um motel,
ergueu uma porção de boxes separados por muros de cimento, onde
se estacionava para namorar. O preço era uma bagatela e dava para
ficar ali até o amanhecer. A única exigência era entrar com os faróis
baixos para não iluminar nenhum par de peitos no carro dos outros.
– Onde fica a tela desse negócio? – Evelyn perguntou.
– Na sua imaginação. – ele respondeu, sem acreditar que ela
fosse tão inocente.
– Mas e o filme? – ela insistiu.
– É o mesmo. Há milhões de anos.
– As pessoas vêm aqui para transar?
– Não necessariamente.
– Mas num lugar escuro como esse, um homem e uma mulher
não ficam dentro do carro apenas conversando e escutando rádio...
– Provavelmente não.
– Então o que a gente vai fazer?
– Conversar e escutar o rádio. O que você acha?
– Não acho legal.
– Então, só resta uma opção.
Ela sorriu. Chegou mais perto dele. Evelyn tinha os seios lindos.
Talvez mais lindos que os de Maggie.”
André Giusti

Livros da minha vida 10 - As Forças Desarmadas


*

Por ocasião de feriado de sete de setembro, postei no feici búqui que meu desfile do Dia da Independência seria com trabalhadoras, campoenses, médicos, professoras e por aí vai.
Nada contra os militares, mas até hoje não entendo porque, sendo a pátria e sua independência (?) lugar e conquista de todos, porque, então, apenas um estrato da sociedade deve estar representado na marcha comemorativa?
Bem, mas não é sobre isso que quero falar.
Encerrei o post daquele dia avisando que meu desfile seria o das forças desarmadas, e é aí que entra o que tenho a dizer.
As Forças Desarmadas foi um dos belos livros de contos que li em minha vida, ainda bem jovem, mas o curioso é que só cheguei a essa conclusão algum tempo atrás, já bem mais pros 50 do que pros 40.
O autor, Júlio César Monteiro Masrtins, apresentava um pequeno programa sobre livros e literaturea na primeira rádio em que trabalhei em minha vida profissional, ainda como estagiário, a Estácio FM.
Em uns dez ou doze contos (não lembro bem, não tenho mais o livro na estante, apenas em minha lembrança), Júlio César apresenta uma visão crítica da juventude da época - primeira metade da década de 80 -, perdida nas drogas e no tal vazio existencial da falta do que e de quem amar, oprimida pela agonizante ditadura militar e já escravizada pela indústria cultural.
Acho que o livro tem um cheiro de Caio Fernando Abreu, grande influência da época. Se por acaso você aceitar minha dica e se interessar em ler, diga depois se achou o mesmo.
Júlio César Monteiro Martins escreveu mais livros. Lembro que li outros dois, mas me passaram em branco.
Fiquei anos sem ter e procurar notícias dele. E sem lembrar de As Forças Desarmadas.
Até que, há não muito tempo, soube pela internet que fora viver na Itália ainda nos anos 90, me parece.
E que falecera em 2014.
Impactado pela notícia, o nome do livro pulou automaticamente de velhos fichários mentais, trazendo pela mão seu conteúdo e seu valor.
Saiu do ostracismo de minha memória de meia idade para desfilar na avenida chamada Livros da Minha Vida.
*
André Giusti

sábado, 12 de março de 2016

Chuva branda

Chuva branda
escorre na vidraça
e o enfado suave
desse movimento
me lembra mulher
adormecida clara linda
que também se move
querendo retornar
do abismo
do sono intocável,
do silêncio da noite
que ainda faz
no quarto imenso.
Da rua chegam
os avisos tímidos
da roxa cinza chumbo
aurora de figuras fugidias.
Corpo de mulher
nem santa nem devassa,
apenas comum,
seminua imagem
desvanecida se apagando
junto às últimas luzes.
Em outra manhã
de outro mundo
minha poesia acorda
amarrotada feito lençol
e transforma em luz
pássaros que abandonam
seus cabelos
e descobrem o sol.
*
André Giusti, 1991

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