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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Diamantes de Sangue




Como um presente esperado
Nas mãos, aquecidas com luvas
Estendidas e espalmadas
Lisas e leves como plumas.

Alcançam um inferno estrelado
Abafam gemidos e gritos de dor
Que por fim, pensam que tocam o amor
Coroam um rei e seu reinado
Ouvindo o mais terrível louvor.

Um diamante vindo da África
De suor, de sal e sangue
São pedras, a saga de uma gangue
Que alimentam, com a fome, sua máfia.

O povo, com humildade e inanição
Comete, em si próprio, eutanásia
Perde o orgulho para a ambição
Não vê que de certas bocas saem falácias
E anda, por pura vontade, na contramão.

E assim, mais uma vez explorado
Sem arma, comida e força
Um continente, que o contente ficou atolado
Tem o tamanho, a dimensão da sua forca!

André Anlub


segunda-feira, 6 de maio de 2019

Um Moinho



A travessia é dura
Dia de chuva, noite de frio
Dias bem quentes, noites sombrias.

Nesse caminho confuso
Nessa estrada sem placas
Entre o reto e o obtuso
Todos afogam suas mágoas.

Com a bota furada
Pisando em barro ou em pedra
Pronto em pé ou na queda
Tiro o melhor na caminhada.

Se encontro uma rocha grande
Serve para descansar
Se encontro um mar
Sou filho de navegante.

Se a fome quiser ser minha sombra
Como um pedaço de pão
Se não saciá-la
Posso matar um leão.

Tudo posso e tenho
Se a força não me faltar...

Como um moinho de água
Que mesmo se o poço secar
Usa o vento pra roda...
Nunca parar de girar.

André Anlub

domingo, 30 de dezembro de 2018

A Epopéia de Denise (Caixa de Pandora)

   
Como se começa uma história?
Algo que pode ter acontecido!
E se a mesma não existe na memória
Posto que é um fictício ocorrido!

Denise caminha em uma praia
Mesmo que o sol não raia
Sua alegria insiste.

Se depara com uma caixa
Um baú velho e pequeno
O abre, deixando escapar um veneno.

A caixa...

Dentro havia um sonho
Remeteu-a a outros lugares
Voava por entre vales
Sentia na face leve brisa gélida.

Se despiu de todos os seus disfarces
Reviu todos que já se foram
Todos que por ela eram amados
E eles por ela.

Viu a morte! Passou tão rápida e inexpressiva que na verdade poderia se tratar de uma nuvem negra!
Nuvem pequena e inútil...
Dessas que não fazem chuva
Mas dependendo do ponto de vista
Pode fazer sombra
Tirando o reinado do sol.

Voou sobre a ilha de Páscoa
Sorriu para seus mistérios
Atravessou alguns deltas de rios
Do Parnaíba ao Nilo.

Ao anoitecer viu Paris
Sentiu seus perfumes
Por um momento os odores a levaram a campos
Como se estivessem presos a uma redoma de vidro.

Foi testemunha do nascimento de uma pequena aldeia
África
Os lugares voltavam no tempo
Homens pré-históricos surgiam em grupos
Perseguiam mamutes
Comiam com as mãos
Descobrindo o fogo
Violência e pretensão.

Ninguém podia vê-la
Sequer podia ouvi-la
Mas tantas coisas para dizer...
Ensinar e aprender.

Por fim tudo foi simplificado a um só casal de humanos
Pode ver tanta coisa
Estar em tantos lugares
Mas ao retornar desse sonho tão real
Uma realidade maior a esperava.

Ela não pode encontrar quem seria prioritário,
Quem responderia suas recentes e antigas perguntas,
Que a acolheria, lhe daria afagos e força,
Quem a conhecia como ninguém...

Ela mesma!

 André Anlub

                

sábado, 19 de novembro de 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

Reminiscências


Veio vindo no tudo hermético da vanguarda,
Em longas ondas que surgiam através do tempo.
Nasciam ventos que intrigavam pensadores,
Como suas palavras minuciosamente planejadas.
No caminho as pernas se cruzando aceleradas,
Planos estampados nas lacunas das pranchetas.
Pianos pérfidos junto aos sons insuetos de cornetas;
Veredas vadias em aura, noite e estrela alaranjadas.
Por enquanto as chuvas caem delicadas,
Pelas escadas de Selarón – Arcos da Lapa;
E lá no brejo a moça beija em Santa Teresa;
E escancarada a Lua aclara toda a parada.
E cantam alto, cantam torto do Arpex ao Horto;
Saídas de praia, saias rodadas e sungas fartas;
Na madrugada xadrez e branco no banco da praça;
O alvoroço do velho moço no Bairro Peixoto.
Foi-se a festa dentro de um êxtase do tempo ido,
Noites em claro, dias no escuro, tardes cinzentas;
A vida se inventa em faces felizes, redemoinhos;
E aves voando, mangas no pé – reminiscências.
André Anlub

(11/11/16)

domingo, 28 de agosto de 2016

Casa


"O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, a casa mora."
- Mia Couto

Às vezes constroem-se imponentes casas de madeira,
Às vezes impotentes castelos de areia.
Falando em outras épocas:
Não houve regras nem mesmices,
Nem de outros, quaisquer palpites,
Nunca deixei; (fui menino traquinas).
Até hoje em dia quando me apontam o dedo,
Aponto um lápis.
Na puerícia fui um príncipe - fui plebeu,
Fui o princípio das brincadeiras – fui o fim, pois também fui o rei.
Por essa razão ou outra, talvez,
Não existe agora, nesse tempo,
De um insatisfeito, nem um ínfimo resquício.
Vivia o hospício bem-vindo de um artista,
Vivia o “agora” sem a vil bola fora,
Que condiz com qualquer aprendiz.
Na parede da minha casa,
Descascada, carcomida,
Em linhas frenéticas de giz,
Comecei os primários esboços:
Linhas traçadas nas paredes
Do sóbrio Pollock de um metro e trinta.
O piso era velho, de taco,
E no meu quarto o desenho de um tabuleiro de xadrez.
Em frente à casa uma mangueira,
E uma mangueira para regar e tomar meu banho.
Um balanço sobre a roseira e os belos girassóis de Van Gogh...
Mas isso só em sonho.
Fui feliz naquela casa e nas outras que surgiram,
Pus meu toque ao adornar, pus a música e trouxe amigos.
Deixei o pássaro cantar, o verde crescer e o cachorro latir,
Deixei o chinelo sujo de barro na porta
E guardei a lembrança da minha mãe sorrindo.

André Anlub®