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sábado, 9 de janeiro de 2016

Auto-retrato


Oh não passar somente sugerido!
Desespero de nunca ver o anjo
Não conhecer nem mesmo a rosa e o lírio
Ter medo e ter vergonha ajoelhado
Querer ser puro e sempre ver-se impuro
A espera da morte a incerteza
A secreta esperança de ficar
A pétala da rosa sob a cota
O endereço guardado sobre o peito
Ver navios que chegam e vão sozinhos
E depois de tanta dor e tanta angústia
Pensar ter dado a luz a algo vivo
E levantar-se apenas com o poema.

- Mário Faustino (18 abr. 1948)

sábado, 11 de abril de 2015

SONETO II


Mário Faustino (1930-1962)

Necessito de um ser, um ser humano
que me envolva de ser
contra o não-ser universal, arcano
impossível de ler
à luz da lua que ressarce o dano
cruel de adormecer
a sós, à noite, ao pé do desumano
desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
escuro e palpitante,
necessito de um ser dormente e lasso
contra meu ser arfante:
necessito de um ser sendo ao meu lado,
um ser profundo e aberto, um ser amado.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

RESSUSCITADO PELO EMBATE DA RESSACA


Mário Faustino (1930 - 1962)

Ressuscitado pelo embate da ressaca,
Eu, voz multiplicada, ergo-me e avanço até
O promontório onde um cadáver, posto em maca,
Hecatombado pela vaga, acusa o céu
Com cem olhos abertos. Fujo e, maiis adiante,
O açor rebenta o azul e a pomba, espedaçada,
Ensanguenta-me o rastro. Avante, sombra, avante,
Cassa-me a paermissão de fica vivo. O nada
Ladra a meu lado, lambe e morde o calcanhar
Sem asas de quem passa e no espaço se arrasta
Pedindo paz ao fim, que o princípio não basta:
A vitória pertence ao tempo que no ar
Agita um homem só, troféu tripudiado
Pela noite que abate o sol no mar manchado.

sábado, 15 de setembro de 2012

Prefácio


Quem fes esta manhã, quem penetrou
À noite os labirintos do tesouro,
Quem fez esta manhã predestinou
Seus temas e paráfrases do touro,
A traduções do cisne: fê-la para
Abandonar-se a mitos essenciais,
Desflorada por ímpetos de rara
Metamorfose alada, onde jamais
Se exaure o deus que muda, que transvive.
Quem fez esta manhã fê-la por ser
Um raio a fecundá-la, não por lívida
Ausência sem pecado e fê-la ter
Em si princípio e fim: ter entre aurora
E meio-dia um homem e sua hora.

 (Mário Faustino)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sinto que o presente m~es me assassina
os derradeiros astros nascem tortos.

Mário Faustino

quinta-feira, 15 de abril de 2010

o mundo que venci deu-me um amor
um troféu perigoso esse cavalo
carregado de infantes couraçados.
o mundo que venci deu-me um amor
alado, galopando em céus irados
por cima de qualquer muro de credo
por cima de qualquer fosso de sexo.
o mundo que venci deu-me um amor
feito de insulto pranto e riso
amor que força as portas dos infernos
amoré que galga o cume ao paraíso.
amor que dorme e treme, e que desperta
e torna contra mim e me devora
e me rumina em cantos de vitória.
Mário Faustino
http://juras-secretas.blogspot./