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sábado, 7 de outubro de 2017

Buquê



(para Sérgio Luz)

Ó Sérgio, Sérgio, somos ainda
crianças. Nossas almas são novas.
Não chegamos a adquirir antigas
ciências. Dizem que o que destroça
de tempos em tempos nossas crenças
são catástrofes, que nos impedem
de amadurecer. Mas quem se lembra
mesmo ou se importa se, ao que parece,
o que nasceu merece morrer?
Desprezar a morte, amar o doce,
o justo, o belo e o saber: esse é
o buquê. Ontem nasceu o mundo.
Amanhã talvez pereça. Hoje
viva o esquecimento e morra o luto.


De Antonio Cicero



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

POEMA


Segredo não é, conquanto oculto;
mas onde oculto, se o manifesta
cada verso seu, cada vocábulo,
cada sílaba, cada fonema?


CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.p. 41.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O Fim da Vida


Conhece da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


- Antonio Cícero

sábado, 21 de dezembro de 2013

Guardar.

 De Antonio Cícero.

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la,mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para Guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.